Milton
Banana acertou na muche quando intitulou como “Tipo Exportação (Samba é Isso)” um dos seus
álbuns. Afinal, tinha contribuído decisivamente para o fenómeno. Em ‘Vaia de
Bêbado Não Vale’, Tom Zé versificou-o assim: “Quando aquele ano começou/ Nas
Águas de Março de 58/ O Brasil só exportava matéria-prima/ Essa tisana/ Isto é
o mais baixo grau da capacidade humana/ E o mundo dizia/ Que povinho retardado/
Que povo mais atrasado/ A surpresa foi que no fim daquele mesmo ano/ Para toda
a parte/ O Brasil d’O Pato/ Com a bossa-nova/ Exportava arte/ O grau mais alto
da capacidade humana/ E a Europa, assombrada:/ Que povinho audacioso/ Que povo
civilizado.” Como se sabe, mesmo após ter conquistado o planeta, a divisão do
espólio da bossa gerou sobretudo ressentimentos: “Assim como João Gilberto com a batida do violão, Milton
Banana seria um homem rico se tivesse recebido uma fração de centavo por cada
disco ou show em que os bateristas
internacionais usaram a batida da Bossa Nova”, escreveu Ruy Castro em “A Onda
Que se Ergueu no Mar”, fantasiando com uma balança comercial mais equilibrada.
Talvez por isso, em junho de 1990, Edison Machado, um dos pares de Milton, no
pequeno concerto na boate People com o qual anunciava a quem quisesse ouvir o
seu regresso ao Brasil depois de catorze anos passados no exterior, se tenha a
certa altura chegado ao microfone e desabafado: “Sabe lá o que é ganhar pouco e
divulgar um continente?” Passados três meses estava morto. Também Milton viria
a falecer algo esquecido, sem privilégios, nem pensões, faz agora 20 anos, a 15
de maio de 1999 (não a 22 de maio de 1998, conforme se lê na contracapa da
presente reedição), com a mágoa de ofensas passadas concentrada numa lapidar mensagem
de luto deixada com uma coroa de flores no seu funeral: “A Milton, a quem o
Brasil não homenageou nem reconheceu nunca. Ass.: todos os músicos do Brasil”.
Foi João Gilberto quem a enviou – o mesmo com que Banana havia gravado “Chega
de Saudade” e “Getz/Gilberto”. Estes extraordinários LP em nome próprio lançou-os
em 1963 e 1966: uma catedral de ritmo feita de pele e osso.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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27 de abril de 2019
11 de agosto de 2018
An Easy Introduction To Bossa Nova: Top 20 Albums (New Continent, 2018)
Há
uns anos, debatendo-se com a necessidade de agradar a gregos e a troianos na
elaboração de “Bossa Nova e Outras Bossas – A Arte e o Design das Capas dos LPs”,
Caetano Rodrigues e Charles Gavin decidiram bater à porta do escritor Ruy
Castro. Farto do tema até à raiz dos cabelos, o autor de “Chega de Saudade – A
História e as Histórias da Bossa Nova” despertou o guru da algoritmia que havia
em si, virou-se para eles e disse-lhes: “Incluam no vosso livro todos os discos
que encontrarem com bossa nova no título, cubram o período até aos anos 70 e
dividam-no por categorias, como cantores e cantoras, pioneiros, música
instrumental e bossa nova internacional.” Isto é, saiu-se com uma anabrótica
saraivada de anacronismos. Não se deixando abater, Caetano e Charles esquadrinharam
lojas de usados até que um deles gritou: “Achei!”. Referia-se a “Bossa é
Bossa”, de A Turma da Bossa, o primeiro disco com ‘bossa’ no título.
Infelizmente tratava-se de um single,
o que não ia de encontro ao pretendido. Pois, infrinjam-se as regras: não se
nega um momento eureka!
Com
semelhante soltura doutrinal, e prosseguindo, grosso modo, de acordo com os
conselhos de Ruy Castro, eis uma “An Easy Introduction to Bossa Nova: Top 20
Albums” que nem os tais 20 álbuns tem. Afinal, tanto quanto os três primeiros de
João Gilberto que tiraram as medidas ao género (aqui incluídos), não se podem considerar
álbuns, per se, as compilações
consagradas às canções de Jobim e de Vinicius (esta, então, traz o
pré-histórico monólogo de “Orfeu da Conceição”, de 1956, andava ainda João em
experiências anacâmpticas numa casa-de-banho de Diamantina – e, nessa
perspetiva, o encontro de Laurindo Almeida com Bud Shank, em “Brazilliance”, é quase
antediluviano). Nem se pode dizer que os discos de Moacyr Silva com Elizete
Cardoso (os dois volumes de “Sax Voz”) sejam feitos do mesmo barro da bossa. Além
de que a caixa abrange ainda álbuns de Stan Getz, Zoot Sims, Coleman Hawkins,
Quincy Jones e Dizzy Gillespie que, lá está, levam as regras ao limite. Mas não
importa: isto foi uma descoberta demasiado importante.
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13 de dezembro de 2014
Johnny Alf “Ele é Johnny Alf” (Universal, 2014)
Como
escreveu Ruy Castro em “A Onda Que Se Ergueu do Mar”, Johnny Alf (1929-2010)
foi daqueles destinados a viver “numa zona de sombra projetada pela sua própria
luz”. Até a biografia que lhe dedicou João Carlos Rodrigues é modesta,
recorrendo ao subtítulo “Duas ou Três Coisas que Você Não Sabe”, quando são às
dezenas, para não dizer às centenas, os factos acerca da sua vida que de modo
geral se ignoram. Por exemplo, que nas décadas de 60 e 70 ergueu um monumento em
cada ida a estúdio. Ou, como um dia disse, que a homossexualidade era a nuance que efetivamente evidenciava e
policiava o seu “comportamento junto às pessoas”, que era, numa alusão a ‘Eu e
a Brisa’, “a brisa do título da música”. Ou que jamais domesticou as suas
excentricidades enquanto compositor, anacrónico no antes e depois da época – a
da bossa nova – que melhor as reivindicou, conquanto fossem impossíveis de absorver
em absoluto. Alf interessava-se por decompor a realidade quando o tempo era de
síntese e em simplificá-la no instante em que se provava mais complexa. De
maneira invisível, administrou as ilusões de uma geração inteira num
determinado momento para de seguida lhe inventariar as desilusões. Disso fala este
álbum de 1971, pela primeira vez reeditado em CD na sua versão original e com um
EP de 1972 como complemento, em que todo o posicionamento político se vê
monopolizado por aspetos emocionais, em que a esperança não passa de um compromisso
intelectual e em que só o passado é autêntico e a solidão a única
inevitabilidade. Quem nunca o ouviu, desconhece toda a ingratidão que pode haver
no mundo e, de facto, não sabe duas ou três coisas sobre o amor.
13 de novembro de 2010
Carmen Miranda "Hoje"
Se pela destreza de acompanhantes e génio de compositores nunca foram, em rigor, exclusivamente seus os discos que Carmen Miranda editou, neste caso ter-se-á que elevar a figura de Henrique Cazes da condição de ideólogo para a de co-autor. Porque a isso obrigam os 70 anos que separam o outrora mentor do Conjunto Coisas Nossas destas gravações da ‘pequena notável’, porque a visão que impõe nos arranjos e remistura actualiza-as de acordo com actuais parâmetros de acústica e, fundamentalmente, porque é impossível confundir a sua acção com um acto de revisionismo estético. Muito pelo contrário, os violões e cavaquinhos (seus e de Luís Filipe Lima), sopros (de Dirceu Leite) e percussão (do seu irmão, Beto Cazes, e de Ovídio Brito) que juntou aos de tantas décadas atrás vêm, precisamente na combinação com os sons que a rodeavam, esclarecer o singular posicionamento da voz de Carmen, revelando assim, em exemplares e inéditas condições, um arsenal técnico de moderníssima configuração: invulgar domínio de métrica, absoluto controlo da respiração, solidez tonal, inconfundível timbre ou – dramaticamente, quando comparada com a produção nos E.U.A. nos anos 40 – um distinto deleite na articulação da língua portuguesa. Peca a edição – com produção de Ruy Castro, autor em 2005 da biografia “Carmen” – apenas por escassez (do mesmo período, o da Odeon, poderiam também aqui figurar ‘E Bateu-Se a Chapa’, ‘O Tic-Tac do Meu Coração’, ‘Cantores de Rádio’, ‘Quando Eu Penso na Bahia’, ‘Na Baixa do Sapateiro’ ou ‘Boneca de Pixe’) e por omissão (são ignorados colaboradores como a irmã Aurora, Almirante, Laurindo Almeida, Russo do Pandeiro, Bando da Lua, Garôto, Benedito Lacerda, Luperce Miranda ou Luís Americano e os cantores nos dois duetos – Dorival Caymmi em ‘O Que é Que a Baiana Tem’ e Luiz Barbosa em ‘No Tabuleiro do Samba’). Fora isso, é cinco estrelas.
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