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8 de outubro de 2016

"Nigeria Soul Fever: Afro Funk, Disco and Boogie" (Soul Jazz, 2016)



Era impossível trocar emails com Uchenna Ikonne. Quando dava sinais de vida, tarde e a más horas e sempre com um original non sequitur na ponta da língua, levava a Nigéria a corar de vergonha: continuava com problemas na ligação à internet, tinha falhas na rede elétrica, estava de regresso de uma província sem cobertura telefónica, era iminente a falência generalizada de infraestruturas no país! Apropriadamente, o último post no seu blog, em 2012, começa assim: “Tenho tido chatices com o Blogger.” E nunca respondeu à última coisa que lhe disse: “Não devias ter assumido que tinham perdido a cabeça durante a Segunda República! Isso abre caminho a que se conclua que se tornaram merecedores da ditadura militar!” Do que falávamos? De música, claro. Daquela maravilhosa música de que Uchonne detinha subitamente a tutela ao produzir “Brand New Wayo: Funk, Fast Times & Nigerian Boogie Badness 1979-1983”, até hoje insuperável em matéria de compilações de disco sound africano. Como ele dizia: “Era a música dos nossos sonhos. Aliás, a música que nos fazia sair do pesadelo da guerra civil e esquecer aquelas terríveis imagens com crianças subnutridas de barriga inchada. Vivíamos em democracia. Depois da crise do petróleo, o naira valia o dobro do dólar. Vinham cá Kool & The Gang, Shalamar, Skyy. Abriam discotecas umas atrás das outras.” Trazia à memória o que Bill Brewster e Frank Broughton escreviam em “Last Night a DJ Saved My Life”: “O disco sound foi revolução, liberdade, camaradagem e amor. Foi sujo, espiritual e poderoso. Secreto, marginal e perigoso. Emancipação e redenção.” Agora, Brewster redige as notas com que a Soul Jazz apresenta esta nova evocação do período e quase se pressente a sua nostalgia ao escutar o que criam aqui Tee Mac, Christy Essien, Benis Cletin, Angela Starr ou Joni Haastrup. Coisas que não viveu, mas que fazem integralmente parte de si. E de todos nós.

18 de janeiro de 2014

“World Psychedelic Classics 5: Who Is William Onyeabor?” (Luaka Bop, 2013)


Entre outras formas de o caracterizar, poderá falar-se do período de transição do disco sound para o do pós-disco sound como o da relocação – do coletivo para o individual – da experiência do êxtase. E no meio de muitas portas fechadas uma houve que se abriu: a que permitia distinguir uma sincera vocação de heterodoxia, como no caso de William Onyeabor. Na Nigéria, de onde provém, no entanto – especificamente na da Segunda República, de Shehu Shagari –, simbolizada na sucessiva capitulação de bandas como MonoMono, Tirogo, Ofege, Lijadu Sisters, Blo ou Funkees, tamanha dissociabilidade era, ao invés, marcada pela elevação do DJ à condição de messias. Isto é, no virar da década de setenta para a de oitenta, lançavam-se em Lagos os foguetes quando nos EUA – relembre-se a “Disco Demolition Night”, de 1979 – se apanhavam já as canas. Numa exemplar antologia consagrada a essa época, “Brand New Wayo” (Comb & Razor Sound, 2011), escrevia Uchenna Ikonne, seu organizador: “Suportámos o custo de uma hedionda guerra civil [a do Biafra] e começámos a tirar proveito da crise do petróleo [com origem no embargo da OPEP, em 1973], até que, finalmente, nos livrámos dos militares e demos por nós com o naira a valer o dobro do dólar! Não queriam que comemorássemos? Trouxemos cá Kool & the Gang, Brass Construction, Shalamar ou Skyy e deleitámo-nos nas discotecas com tanta elegância e opulência.” De facto, até a festa acabar – com o fim da democracia, em 1983 –, e ouvindo ainda “Nigeria Disco Funk Special” (Soundway, 2008) ou “Lagos Disco Inferno” (Academy LPs, 2010), torna-se difícil afiançar que, na altura, outra produção qualquer no mundo concentrasse de modo tão soberbo todos os vícios da sua era. Por tudo isso, e também pela inclusão de temas seus em “Nigeria70” (Strut, 2001) ou “World Psychedelic Classics 3: Love's A Real Thing – The Funky Fuzzy Sounds of West Africa” (Luaka Bop, 2005), há muito que se tomou o elusivo Onyeabor – que hoje se recusa a discutir outro assunto que não Jesus Cristo – como mais um esteta dedicado à eternização da febre de sábado à noite. Mas os esforços combinados de colecionadores contribuíram para que se tomasse consciência da sua singularidade artística. Ou seja, é agora claro que a sua música, autoeditada entre 1977 e 1985, estaria mais à vontade em compilações como “Disco Not Disco” (Strut, 2000), “Mutant Disco” (Ze, 2003) ou “New YorkNoise” (Soul Jazz, 2003) do que naquelas em que efetivamente figurou. O mais próximo que a Nigéria esteve de gerar o seu próprio Arthur Russell? Porque não? Contrariamente ao que se costuma dizer, não há apenas um só tempo e lugar para tudo.

5 de fevereiro de 2011

Vários “The World Ends: Afro Rock & Psychedelia in 1970s Nigeria” (Soundway, 2010)

“Ergam as mãos e façam as vossas preces, pois o mundo está a chegar ao fim”, cantam os Black Mirrors em ‘The World Ends’. E na Nigéria de inícios de 70 não se podia garantir que à expressão metafórica da banda não correspondesse uma interpretação literal. É que, como relembram os organizadores desta antologia (Miles Cleret, proprietário da Soundway, e Uchenna Ikonne, do blog, e agora editora, “Comb & Razor”), o fim da Guerra do Biafra não implicou propriamente o renascer da esperança. E de nada valia acordar para uma realidade musical animada por ventos de mudança – a da produção anglo-saxónica na década de sessenta – quando o tempo era ainda o da desilusão. Talvez por isso se pressinta uma relação conflituosa entre algumas destas variações e os modelos – promulgados por James Brown, Booker T., Jimi Hendrix e, fundamentalmente, por Osibisa, Cream ou Faces – que lhes serviram de matriz. Por nenhuma outra razão também, numa compilação que evita a palavra afrobeat, não se vislumbra maior sombra sobre estes temas que a do Fela Kuti de ‘Jeun K’Oku (Chop & Quench)’, o single de 1971 de inspiração rock. Pois provou o seu sucesso que mesmo o mais revolucionário dos discursos culturais estagnaria ao depender do conceito da permanência. O que explica a progressiva flexibilidade de Hykkers, Wrinkar Experience ou Funkees. Mas, em rigor, num contexto geralmente descrito como de síntese para as modas internacionais, só se lhe detecta verdadeiramente génio quando se verifica poder de antecipação: Founders 15 ensaiando futuras estratégias dos Talking Heads, Ceejebs prevendo a transformação (de parte) dos Traffic nos Can, Lijadu Sisters (pela mão de Biddy Wright) adiantando-se às ESG ou os Colomach chegando primeiro ao cruzamento tropical em que se encontrariam Clash e Kid Creole. Porque aí se revela enfim algo que não deve nada a ninguém.