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13 de junho de 2020

Bach: Toccatas (BIS, 2020)

Na altura em que namorava o Minimalismo, de modo fortuito, o dinamarquês Hans Abrahamsen deu por si a escutar cânones de Bach: “Estava a ouvi-los e a pensar que se tratava de Steve Reich,” explicou, ao “The New York Times”. É normal: ao jeito de Houdini, reagiam ambos a regras e a restrições, a começar pelas que eles mesmos se impunham. No caso destas sete toccatas, quase com toda a certeza oriundas do período em que se fixou em Weimar (com uma breve interrupção, entre 1703 e 1717, ou seja, entre os seus 18 e os seus 32 anos), Bach procurava representar uma elementar contradição: aderir, grosso modo, ao modelo composicional de Buxtehude (uma tremenda fonte de inspiração, cujos saraus davam origem a verdadeiras peregrinações, como os concertos dos BTS, hoje) e, em simultâneo, modulá-lo à sua maneira, em peças novas que sob os mais variadíssimos aspectos se diriam antiquadas. Contudo, há uma exceção: porventura a mais expressiva entre elas, que não a mais bem conseguida, a “Tocata em Sol maior”, BWV 916, tem sotaque italiano, com a típica alternância entre tutti e solo, mais sabor que a pizza Quatro Estações e, sob esse prisma, no seu terceiro andamento, semicolcheias e semicolcheias salpicadas de orégãos, num esquema harmónico que resultava da sucessiva degustação de pratos confecionados por Vivaldi, Corelli ou Torelli. Tudo isto, sim, com Bach a seguir a receita e deixar-se igualmente guiar pela intuição: exemplificam-no a tétrica jiga no último andamento da “Tocata em Sol menor”, BWV 915, que parece escrita de trás para a frente; a passada do camelo no Allegro da “Tocata em Dó menor”, BWV 911, mais obsessivamente escalada que o robalo grelhado no “Àbabuja”, no Alvor; o grotesco arpejar no Allegro da “Tocata em Ré maior”, BWV 912, e na Fuga da “Tocata em Mi menor”, BWV 914, capaz de trazer à memória Jerry Lewis ao comando de uma máquina de escrever invisível. Não querendo abusar das metáforas, Suzuki está, aqui, como peixe na água: e, a ele, nenhuma rede o apanha – quanto mais apertada e bem urdida, mais ele a ilude, precisamente a espelhar o que havia de arisco e libertário em Bach.

10 de abril de 2020

Bach: The Well-Tempered Consort – I (Linn, 2020)

Por mais que um motivo, manda a tradição que, neste dia, de Bach, se evoque antes a “Paixão Segundo São Mateus”. Se é essa a questão, consumado está, como diria Jesus Cristo na cruz (até, porque, do oratório, na BIS, há nova edição digna de nota: a do Bach Collegium Japan, dirigida por Masaaki Suzuki, com Benjamin Bruns e Carolyn Sampson). Tudo isto, claro, porque não só a obra – estreada na Sexta-Feira Santa de 1727 – acompanha a crucificação e morte no Calvário do seu protagonista como, também, representa um muitíssimo figurado regresso ao mundo dos vivos do seu autor (o que se deu em março de 1829, quando Mendelssohn, a contragosto das plateias do seu tempo, a tornou a incluir numa folha de sala, de certa forma pondo em marcha um processo de reabilitação crítica que não mais parou). Daí resulta um terreno fértil para testar o que na avaliação da natureza dos solos se apelida de limites de consistência: ou seja, sim, desde então, Bach tornou-se permeável a todas as reconfigurações possíveis e imaginárias (basta esquadrinhar o YouTube que independentemente de géneros musicais se dá por opúsculos seus interpretados em ocarinas, copos de cristal, harmónicas, flautas de pã, cavaquinhos, instrumentos e gente dos quatro cantos do planeta). Por isso, e porque, este ano, ao que parece, a Páscoa foi cancelada, em boa hora e de modo muito apropriado surge o Phantasm a propor transcrições para viola da gamba de páginas extraídas a “O Cravo Bem Temperado”, “Oferenda Musical” e, com uma ou outra cantata pelo meio, ao transcendente terceiro volume de “Pequeno Livro para Órgão”. Dir-se-ia que os seus integrantes aspiravam ao mesmo que a pianista mongol Odgerel Sampilnorov, conforme o relato de Sophy Roberts, em “The Lost Pianos of Siberia”: “Bach diz-nos como expressar a dor e a tragédia. Quando leio acerca da Ressurreição não sinto grande coisa, mas quando toco [uma ária] ganho vida. Bach ensinou-me a respirar!” Aqui, basta escutar o “Prelúdio Nº 22”, BWV 867, ou “Kyrie, Gott heiliger Geist”, BWV 671, que se pressente o equivalente à primeira golfada de ar que um mergulhador de apneia dá ao regressar à superfície. Habemus Páscoa.