Um dos mais sugestivos álbuns de 2011
foi “Science of the Sea”, reedição da música criada, em 1979, pelo biólogo
marinho Jürgen Müller para servir de banda-sonora em filmes com expedições
subaquáticas. Numa diáfana tessitura tão sedante quão sujeita a espumosos
arpejos, dir-se-ia a mais poética representação do mar desde Debussy. Mas tratava-se
de uma efabulação, imputada, desde então, ao produtor contemporâneo Panabrite. O
seu ato de imaginação – mas, mais ainda, uma receção que indicia que os
melómanos preferem boas estórias a boa música – trazia à memória a frase com
que, em 1935, Fritz Kreisler, após assunção de que tinha sido ele, de facto, o
autor de peças atribuídas a Couperin ou Vivaldi, respondeu aos reclamantes:
“podem mudar o nome que o valor se mantém o mesmo”. Ou seja, substituiu uma
fabricação universal, reconhecida como autêntica, por outra particular, logo
tida como falsa. Mas o que estes testemunhos apócrifos provam é que sem eles
não se compreende totalmente o contexto histórico a que se referem, nem, muito
menos, aquele em que são gerados – além de possuírem semelhante importância
devocional à que se desenvolve na apreciação do dogma. Talvez por isso, inexcedíveis
em vaidade e descaramento, reincidam uns ampliados MOPDtK (adicione-se Brandon
Seabrook, Ron Stabinsky e David Taylor a Moppa Elliott, Kevin Shea, Jon
Irabagon e Peter Evans) na ‘arquivologia mágica’, reavivando aqui a obra dos
ficcionais Brimstone Corner Boys, cuja atividade escrutinam num livreto que
cruza lendas da Grande Depressão com relatos de combustão humana espontânea e evocações
das cidades-fantasma da Pensilvânia. O modelo – atente-se numa capa que
mimetiza a da antologia “Birth of the Hot” – é o dos Red Hot Peppers, de Jelly
Roll Morton, nivelados pelo rolo compressor de décadas de convulsões artísticas.
Perfeitamente voltaico.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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23 de novembro de 2013
16 de março de 2013
Mostly Other People Do The Killing “Slippery Rock!” (Hot Cup, 2013)
Porventura contrariando as
expectativas – à revelação da capa do quinto álbum de estúdio dos MOPDtK – de
todos quanto aguardavam um composto de anfetaminas produzido para corroborar a
teoria de que se estava perante a versão para a ‘era da informação’ do dissimulado
conceptualismo dos Lounge Lizards ou da rapinante vilanagem dos Naked City, eis
que Moppa Elliot, contrabaixista e compositor do ocasionalmente furtivo
repertório do quarteto, anuncia que “Slippery Rock!” resulta antes de uma inusitada,
e quiçá escorregadia, incursão no pantanoso terreno do smooth jazz, tal como explicou ao “All About Jazz”, em entrevista a
Troy Collins: “comprei cerca de trinta álbuns de smooth jazz e deixei-me mergulhar por completo nesse universo
sonoro, por isso estes temas são uma tentativa minha de compor nesse idioma”. De
facto, num prolongamento da assimétrica estratégia de gestão de influências
previamente ensaiada, não é desta que o extático vernáculo da banda se permite
sedar por ardis retóricos. Ao invés, a premissa sugere uma engenhosa e
provocatória combinação de referências que problematiza um método de trabalho
que, de forma simplificativa, se poderia descrever como autólatra. E talvez
seja por isso que – conforme promulgaram as sinestésicas operações lideradas na
década de 80 por John Lurie e John Zorn – se mostre tão essencialmente
pós-moderna esta sincrónica navegação por categorias só na aparência retidas no
tempo. E se os porfiados diálogos de saxofone e trompete entre Jon Irabagon e
Peter Evans sobre a impertinência rítmica de Kevin Shea lembram mais ‘Bird’ e ‘Dizzy’
e Roach do que os irmãos Brecker e Lenny White, o ponto parece ser precisamente
esse: reconduzir o criador a uma encruzilhada de ideologias. Brilhante.
[Hoje,
às 22h00, no Teatro Maria Matos, Peter Evans toca com o Rodrigo Amado Motion
Trio]
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