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10 de outubro de 2015

Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler, Chris Corsano “This Is Our Language” (Not Two, 2015) & Joe McPhee, Jamie Saft, Joe Morris, Charles Downs “Ticonderoga” (Clean Feed, 2015)



Dir-se-ia uma referência inevitável para quem questiona continuamente os modelos segundo os quais a linguagem se gere, adquire, organiza, utiliza e expande. E vasculhando pelos discos de Joe McPhee, de facto, encontra-se uma adesão textual aos princípios que Edward de Bono promulgou em “O Pensamento Lateral”. Está em “Topology”, um LP de 1981, e o músico ratifica-a assim: “Digamos que segue para norte numa estrada e dá com um enorme buraco no chão. Pode construir uma ponte e passar-lhe por cima. Mas pode igualmente dirigir-se para sul em busca de um desvio. Ou seja, para chegar onde pretende pode ser que tenha de viajar algum tempo no sentido contrário ao do seu destino. No meu caso, o problema que tenho de resolver é: como tocar com pessoas com as quais nunca toquei?” Realmente não se imagina reação mais lateral, mas também mais eloquente, esclarecida e elegante, contundente, conseguida e contumaz, do que a que tem em ‘Theory of Mind’, um tema de “This is Our Language”: não tocando. Em entrevista ao jornal “Público”, Rodrigo Amado aludia a esse instante e validava-o deste modo: “Fiz-lhe sinal em pontos que seriam perfeitos para ele entrar, mas o Joe estava de olhos fechados, concentrado a ouvir a música, como se estivesse a tocar connosco.” Isto é, refém do inefável, impondo a modéstia à vaidade, McPhee não deixa de influenciar o evoluir dos acontecimentos só porque à primeira vista não os protagoniza. Ou, como disse, um dia, Lennie Tristano: "The hippest thing you can do is not play at all. Just listen." Estendendo-se gradualmente aos seus intervenientes, é uma atitude que caracteriza a sessão.

O gesto não terá apanhado Amado de surpresa. Afinal, meses antes desta gravação, o saxofonista português assistiu ao insólito e inspirado momento em que, num concerto em trio, num sótão ao Príncipe Real, McPhee poisou no chão as suas madeiras e os seus metais e simplesmente assobiou. Aliás, este “This is Our Language”, que traz à memória “This is Our Music”, de Ornette, surge iluminado pelo espírito do free jazz, sim, mas parece em tudo oposto à conflagração do escândalo que o exicial movimento exigiu. É, antes, jubilante e judicioso aqui, solene e sereno acolá; e, ao querer instigá-lo, é possível que Amado tenha ainda intuído algo da teoria da “gramática universal”, de Chomsky. Porque quem consigo está sabe que, para um instrumentista, a improvisação tanto pode ser a estilização mais exigente quanto a vocação mais avuncular. Ouvindo o disco, e prestando atenção a títulos a rondar a pedagogia, percebe-se que se deixam guiar pelo valor ético que sempre prevaleceu na mágoa e no milagre da vanguarda. O mesmo se pode dizer de um “Ticonderoga” em que se equaciona a tensão entre o Coltrane crente e o crível através da invocação de “Live at the Village Vanguard Again!”. E também aqui não se trata de nostalgia, mas da partilha de um conjunto de sentimentos que se refletem no gosto com que se recorre à palavra “irmandade”. Como o CD de Amado, indicia intimidade com a História para, de seguida, rejeitar qualquer internamento ideológico. E procura outro destino crítico, inusitado, inaudito, ínvio e indizível.

4 de julho de 2015

Agenda: Jazz na cidade



Com vista sobre a cidade, no Parque de Santa Catarina, terminará hoje o Funchal Jazz com concertos de Christian McBride (21h30) e Terence Blanchard (23h). Quem lá esteve e entretanto aviou as malas para o continente foi Miguel Zenón, que se apresentará hoje e amanhã em Lisboa, no Hot Clube (22h30), trazendo na bagagem “Identities are Changeable”, sortido de signos e símbolos em que aborda a temática da identidade nacional no seio da comunidade nova-iorquina de ascendência porto-riquenha. Já no Porto, na Casa da Música (21h), em veneração por Billie Holiday, será José James a convocar semelhantes constrangimentos e contradições, enquanto em Braga, no GNRation (22h30), e só na aparência liberto de ambiguidades e artifícios, se aguarda o expetorante duo de Peter Brötzmann e Steve Noble. Isto tem muito de circunstancial e contextual, e amanhã às 18h, em Serralves, mais não se espera do I.Overdrive Trio quando este subir ao palco do Jazz no Parque com o espetro de Syd Barrett. Falar-se-á do jazz enquanto ponto de fricção, mas, dia 7, no CCB (21h), em Lisboa, o encontro de Sly Dunbar, Robbie Shakespeare, Nils Petter Molvaer, Eivind Aarset e Vladislav Delay tratará de desintegrar muitas mais objetividades. Ou seja, afirma-se um agente ao serviço da heterodoxia quem hoje evocar as propriedades transitórias do jazz. Que é o que fará o telegráfico Radio.String.Quartet.Vienna, igualmente na terça, às 19h, e também na capital, ao servir de veículo acústico para as composições daquele (Joe Zawinul) que um dia cantou o corpo elétrico. No mesmo certame, o Jazz im Goethe-Garten, sempre ao fim da tarde, seguir-se-ão Andreas Schaerer e Lucas Niggli (dia 8), Agustí Fernández (dia 9) e No Metal in This Battle (dia 10). Forças fluidas e frequentemente falazes, de que servem de exemplo dois antipodais guitarristas: Al Di Meola (quinta, CCB, 21h) e Joe Morris (terça, Sociedade Musical União Paredense, 22h; sexta, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, 19h; sábado, GNRation, 22h).

28 de fevereiro de 2015

Joe Morris Quartet “Balance” (Clean Feed, 2014)



Entre sets, passava já da uma da manhã, Mat Maneri escondia a timidez com um capuz. Quente e húmida, era uma daquelas noites de agosto que só existem na imaginação e, nas traseiras do Hot Clube, em Lisboa, o violetista perseguia com olhar cúmplice os gatos que mergulhavam na folhagem do Jardim Botânico. Estávamos em 2000. De modo febril, falava de um sem número de projetos: do seu disco a solo (“Trinity”, lançado no ano seguinte na ECM), de uma sessão com Joe Maneri, Roy Campbell ou Barre Phillips (que veria a luz do dia como “Going to Church”, na Aum Fidelity) ou da publicação de numeroso material de arquivo. Tudo isto a sair em breve no seu próprio selo. Enquanto isso, no pátio, Gerald Cleaver e Chris Lightcap trocavam impressões e, num casaco de ganga impossivelmente justo, Joe Morris dirigia-se na nossa direção. Era o “Jazz em Agosto” e durante três noites o quarteto do guitarrista deslocava a ação do festival para a Praça da Alegria. “Somos amigos”, dizia Morris, à medida que Maneri desaparecia no escuro: “Temos estilos diferentes, mas sempre que um de nós tem alguma coisa a dizer o outro compreende-o perfeitamente. Acho que o que nos une é querermos produzir boa música”. Numa conversa de circunstância conferia importância ao rigor estrutural, dizia pouco simpatizar com formas de expressão mais emotivas e, no entanto, confessava não fazer ideia o que lhe reservava o futuro. Não sabia certamente que o seu quarteto haveria de se desentender e voltar às gravações apenas com este “Balance”. Ou, muito menos, que continuaria a evoluir ainda que inativo. Maior elogio não há.