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1 de outubro de 2016

Agenda: Out.Fest 2016



Peter Kember (na foto) estava cansado – tão cansado. E sem paciência nenhuma para aqueles que lhe diziam o que fazer ou não com a sua vida. Os que – como era mesmo a canção? – não querem “que tu e eu nos divirtamos”. Todavia, sentia um cheiro a pólvora no ar. Tinha chegado a hora de se “pensar numa pequena revolução”. Isto, em 1988, em ‘Revolution’, um dos temas mais perduráveis que compôs para os Spacemen 3, ainda que, na altura, até os mais conformistas trauteassem uma cantilena de Tracy Chapman de semelhante intenção. Há um punhado de anos, ao defunto Rock Edition, Kember, que assina como “Sonic Boom”, admitia que tinha feito as contas e que, até hoje, tudo somado, tinha passado “uns bons quatro meses” da sua vida a tocar ‘Revolution’. Agora, que, como Ursula K. Le Guin, terá intuído que a revolução não é tanto uma coisa que se faz quanto outra que se sente, o inglês vê-se celebrado como um venerável inovador e os seus desígnios enquanto Spectrum e EAR aceites como um novo capítulo na saga daquelas libertárias explorações sonoras com base em música eletrónica com as quais a sua geração teria rompido. Na edição deste ano do Out.Fest dará um seminário (dia 6, pelas 15h00, na ADDAC System, em Lisboa) e um concerto (dia 7, às 21h30, no Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro). Como ele, também Jamal Moss equaciona a rutura como um facto da vida ou, de modo mais pertinente, como uma tradição entre as demais. Talvez por isso se tenha vindo a aproximar “dos grandes do jazz de vanguarda, dos que vieram antes de nós e fizeram noise, música industrial, spoken word”, como afirmava à Fact. Define parte da sua produção como “expressionismo sintetizado”, o que é igualmente uma boa apresentação para o que faz Kember. No fundo, é um esteta de uma música de dança que se diferencia o suficiente da maior parte da música de dança para se parecer já com outra coisa qualquer. No Barreiro, dia 6, no Velvet Be Jazz Club, tem uma sessão improvisada com Evan Parker, Orphy Robinson e Yaw Tembé, e dia 8, sob o nilótico nom de plume Hieroglyphic Being, atua na ADAO – Associação Desenvolvimento Artes Ofícios. Aí, seguir-se-lhe-ão os Acid Mothers Temple, de Makoto Kawabata, outro que costumava falar de revolução e que, não obstante a tese coletivista, opera ao nível da transformação do indivíduo. Mas mais nomes na programação do Out.Fest dão mostras de questionar toda e qualquer forma de poder: Agustí Fernández, Lê Quan Ninh e o duo Hans-Joachim Irmler/Jaki Liebezeit são alguns deles.

19 de setembro de 2015

Agenda: O que aí vem



Jazz
No jazz é tudo tão instantâneo que mais vale começar por aqueles cujo limiar de atenção é reduzido, lembrando que para a semana chegam discos novos de Jon Irabagon, Fred Hersch e Rodrigo Amado, a que se devem seguir outros não menos cruciais de Dave Douglas e Barry Altschul. Claro que localmente (e não só) será impossível contornar a Clean Feed, que tem uma surpresa para novembro: o quinteto de Nate Wooley a tocar Wynton Marsalis! Mas trata-se, apesar de tudo, de um começo de outono algo lúgubre, com edições póstumas de Masabumi Kikuchi (ECM) ou de Kenny Wheeler & John Taylor (Cam Jazz) já agendadas. Quem deu voz a sentimentos destes, pelo menos desde ‘September of My Years’, foi Frank Sinatra, cujo centenário de nascimento se assinala em dezembro. Está nas lojas uma aliciante retrospetiva (“Ultimate Sinatra”, em versão quádrupla, na Universal) e outra se anuncia (“A Voice on Air: 1935-1953”, na Sony). Em matéria de concertos, Rodrigo Amado e Matthew Shipp reúnem-se em Lisboa, no Teatro Maria Matos, no Dia Mundial da Música, e há em outubro três festivais a destacar: Angra Jazz (1 a 3, com René Urtreger ou Lee Konitz), Out Fest (8 a 11, com Matana Roberts ou Peter Brötzmann) e Seixal Jazz (16 a 24, com Carlos Bica ou Gary Bartz).

Música do Mundo
Na aproximação ao Womex, anuncia-se que a Glitterbeat, pelo segundo ano consecutivo, será no certame distinguida com o prémio de ‘Editora do Ano’. Leva na mala um disco dos brasileiros Bixiga 70 e tem já agendada a reedição de “Day of Radiance”, de Laraaji, arauto da meditação que, por sinal, estará por esses dias em Portugal acendendo paus de incenso no Barreiro (Out Fest, 11.10). Nada estranhas a tais delicadezas, vêm cá duas figuras com nomes que se perdem na poeira do tempo e cujas canções quase fazem parar a rotação da Terra: Arianna Savall, que toca na Gulbenkian (04.10), e Vashti Bunyan, que canta em Lisboa (Maria Matos, 30.10) e no Porto (Culturgest, 31.10). Continuam a chegar poucas novidades às lojas mas uma a não perder será “Musique de Nuit”, de Ballaké Sissoko e Vincent Segal.

Música erudita
Lang Lang, que grava pela Sony e tem novo disco a 9 de outubro, vale por dois e até no nome é pleonástico. Por isso, na guerra do ópio mediático da rentrée, a Deutsche Grammophon anuncia lançamentos dos seus ativos Yundi e Yuja Wang. Quem prefere mergulhar no passado sabe que se assinalam os tricinquentenários de Sibelius e Nielsen – e dá para ir de carro até ao Báltico no tempo que se demoram a ouvir os caixotes com as suas obras espalhados pelas lojas. Também Radu Lupu, que faz 70 anos em novembro, terá direito a um baú, na Decca. Ainda em matéria de efemérides, a Harmonia Mundi antecipa o centenário de Dutilleux. Ao vivo, há boas razões para se tirar o cheiro a naftalina da roupa. Atente-se, por exemplo, a duas instituições: à Casa da Música, no Porto, onde vão as irmãs Labèque (09.10), Leticia Moreno (a 30.10, tocando o “Concerto para Violino” de Luís de Freitas Branco) ou Andreas Staier (03.11); e à Gulbenkian, em Lisboa, por onde irão passar Jordi Savall (11.10), a Sinfónica Juvenil de Caracas (17.10), Leonidas Kavakos (25.10), Nelson Freire (01.11) ou Leif Ove Andsnes (06.12).