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28 de janeiro de 2017

Wu Wei – Wang Li “Overtones” (Harmonia Mundi, 2016)



Estávamos sentados no chão, lado a lado, de costas apoiadas numa coluna de aspecto ceráceo. Assistíamos à insólita atuação de um trio de berberes que incluía o manuseamento de carabinas e Wang Li estava pasmado. “Um dos membros do grupo também toca berimbau”, comentei, depois, escusadamente, mais para ver se Li voltava à terra. “É incrível”, dizia ele. Perguntou-me se tinha visto o seu concerto e, quando lhe disse que sim, repetiu um desabafo que tinha tido em palco: “Ouço esta música e sinto que já vivi em Marrocos. E que esta gente já teve existência na China.” Desviou o olhar para cima e perdeu-se no rendilhado em madeira entalhada das abóbodas do Dar Adiyel até se pôr a contemplar os astros.

Passava das onze da noite e o público ia-se aos poucos levantando, permitindo que admirássemos os tapetes espalhados pelo pátio do palácio. Meio a brincar, expliquei-lhe que, durante a sua apresentação, e reagindo às permanentes referências que fazia ao vento, parecia que os espectadores iam planando num tapete voador. E que, a mim, quiçá a despropósito, me tinha vindo à memória uma canção que ouvia em pequeno e que dizia: “Costa Brava, Saara, todo o planeta/ Luzes, cometas, mil estrelas do céu/ Pontos de luz vibrando na noite preta/ Tudo quanto é bonito, o tapete e eu.” Ele sorriu, ainda que nunca tivesse ouvido a voz de Gal, e contou-me que gostava de levar o berimbau para as montanhas e de se pôr à escuta: “Não sei se são os meus antepassados que falam, se as minhas vidas passadas ou apenas o vento. Só sei que ao tocar procuro esse som, que é para as pessoas entenderem que, num concerto meu, pode ser que seja o vento a interpretar-me a mim e não o contrário. E espero que nesse instante estejam comigo nas montanhas – elas, eu e a brisa.” Confúcio não teria dito melhor, pensei, enquanto seguíamos em direções opostas pela almedina. A clareza do discurso de Li contrastava com o dédalo arquitetónico da cidade – mais um entre os muitos paradoxos da edição de 2014 do Festival de Músicas Sagradas de Fez. De certa forma, são tudo coisas que agora se transferem para um “Overtones” em que tem a seu lado Wu Wei, o virtuoso do sheng. Começam com ‘O Canto das Estrelas’. Depois, é como se viessem contar a génese de um mundo que até podia ser o nosso, caso fizéssemos por o merecer.

6 de setembro de 2014

Unsuk Chin: 3 Concertos (Deutsche Grammophon, 2014)



Sunwook Kim (p), Alban Gerhardt (vc), Wu Wei (sheng), Seoul Philharmonic Orchestra, Myung-Whun Chung (d)
Coisa rara, esta, de vir um CD inaugurar um conjunto de primeiras gravações de obras de uma compositora contemporânea familiar a palcos portugueses. Eis o “Shu para Sheng e Orquestra”, que Wei levou ao CCB, em janeiro, ou o “Concerto para Violoncelo”, que Gerhardt conduzirá à Sala Suggia, na Casa da Música, dia 27 deste mês. Aliás, este ano, Unsuk Chin é a ‘Compositora em Residência’ na instituição portuense. Com o “Concerto para Piano” possuem, um e outro, uma atmosfera de encantamentos e sortilégios, sujeita à pressão de forças primitivas que só a ironia tempera – daí soar o que se consagra ao instrumento de palheta livre tão conscientemente ritualista e exótico. Já Kim toca com espírito de ferreiro mas cada martelada produz algo com a solidez de pingos de chuva em areia molhada. Trata-se aqui de espelhos e labirintos, de mecanismos em contratempo. A sugerir uma imagem, seria a de um ser humano a regredir da velhice à infância, ou qualquer outra que inspire a ilusão de simplificar o que jamais terá interpretação fácil. Instantes há em que as notas circulam do mandolim para a marimba, do flautim para o fagote, do tímpano para o trombone, como numa coreografia desenvolvida por Carl Stalling para a Warner Bros. ou por Scott Bradley para a MGM. No “Concerto para Violoncelo” tudo começa com Gerhardt, como a ponta do edifício mais alto de uma cidade submersa a erguer-se das águas. No fim, violoncelo e orquestra lutam como dois rivais que se cruzem na clareira de uma floresta: mais veloz um, mais forte o outro, ferem-se mutuamente e logo regressam às sombras em que Chin os aguarda.