Tem-se revelado um dos mais complexos, completos e controversos
instrumentistas deste milénio. E, sim, continua a fazer em palco aquilo que
outros fazem deitados num divã, à cata de ligações entre introversão e
extroversão, ora reagindo à forma em que se manifestam em si ações alheias, ora
medindo o impacto dos seus feitos no mundo exterior. Isto, sem dar a entender
que as qualidades são mutuamente exclusivas. E é esta multiplicidade de faces
que, mais uma vez, Mat Maneri revela num par de deslumbrantes discos que
parecem formados por processos orgânicos tão inevitáveis quão inescrutáveis. Ou
seja, nestas expandidas versões de dois duos – com o pianista Lucian Ban editou
o etéreo “Transylvanian Concert” e com o violoncelista Daniel Levin o denso
“The Transcendent Function” – encontra-se o paradigma da individualidade,
claro, mas também o da adaptabilidade. Aliás, preste-se atenção ao que num e
noutro registo faz com a sua violeta que não deixará de impressionar pelo muito
de Ban, de Parker, Levin e Malaby que deixa transparecer no seu particular
idioma – e o comportamento dos dois saxofonistas é bem mais que pivotante. Isto
é, ainda que permaneça instantaneamente reconhecível como intérprete, Maneri abdica
da rigidez. Nessa medida, e pese embora as enormes diferenças entre os trios –
o de “Sounding Tears” está para a noite como o de “New Artifacts” está para o
dia –, voltar-se-á a ideias postuladas por alturas de “Three Men Walking”, o CD
inspirado por aquela escultura de Giacometti em que cada figura segue numa
direção diferente sem deixar de partilhar o espaço das outras.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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27 de maio de 2017
5 de dezembro de 2015
Daniel Levin/Mat Maneri “The Transcendent Function” (Clean Feed, 2015)
Como
quem põe o cinto de segurança mal se senta ao volante, Art Lange, responsabilíssimo
crítico norte-americano e autor das notas de apresentação deste CD, começa à
defensiva, citando Carl Jung: “Por ‘função transcendente’ não se entenda algo de
misterioso, suprassensível ou metafísico, mas sim algo que, pela sua natureza,
pode ser comparado à função matemática que tem o mesmo nome e que é uma função
de números reais e imaginários. A ‘função transcendente’ resulta da união de conteúdos
conscientes e inconscientes.” Quase que se sente o cheiro a cachimbo, para não
dizer a incenso. Mas, já agora, podia Lange alongar-se um pouco mais, até ao
ponto em que o pai da psicologia analítica, no mesmo ensaio, afirmava tratar-se
de um processo semelhante ao de “um diálogo entre dois seres humanos com os
mesmos direitos”, gerando, assim, “uma tensão carregada de energia” e uma “terceira
coisa viva”, que “leva a um novo nível de existência, a uma nova situação”.
Agora, sim, na medida exata em que Webern dizia que a sua música para cordas
(de que esta, a espaços, possui vestígios) lhe saía como poesia, estamos no
domínio da crítica musical. Aliás, estes duetos para violoncelo e violeta trazem
à memória uma frase que um outro contemporâneo de Jung (Schoenberg) escreveu precisamente
sobre as “Seis Bagatelas” (de Webern): “Em cada olhar, um poema; em cada
suspiro, um romance.” Levin e Maneri não estão, portanto, apenas num mundo de
filigrana, à beira da imaterialidade. O que produzem é conciso, mas igualmente
denso; de aparente discordância, mas absolutamente coerente. Como a melhor
poesia.
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