Quando
quis ver o mundo, o jazz andou de porta em porta, à procura de casa emprestada.
Foi assim em 1946, na primeira Australian Jazz Convention, quando meia-dúzia de
músicos acompanhou uma excursão rio Yarra acima e se apresentou de armas e
bagagens em Eureka Hall, num subúrbio de Ballarat, Vitória. Já com devida pompa
e circunstância se receberam Louis Armstrong, Django Reinhardt e Stéphane
Grappelli na Ópera de Nice, em 1948, embora a fama tenha ficado toda para as jam sessions no Negresco. Por sua vez,
em julho de 1954, foi o casino de Newport, no estado de Rhode Island, a acolher
Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Lee Konitz, Eddie Condon, Oscar Peterson,
Gerry Mulligan ou Dizzie Gillespie. Cada qual à sua maneira, três eventos que
reclamam o título de primeiro Festival de Jazz da História. Claro que, com o
passar dos anos, os infinitos desdobramentos e inevitáveis desmultiplicações do
seu conceito-chave engendraram programas fadados a soçobrar sob o seu próprio
peso: salvo raríssimas exceções,
exatamente aquele tipo de atuações incapaz de gerar espanto, desprovido de
incerteza e risco e espírito de aventura e que se diria seguir no sentido
contrário à deontologia da coisa. Mas desesperar, jamais, como é costume
dizer-se. Porque o jazz prospera sempre que alguém atira a prudência pela
janela, eis que chega mais uma edição do Jazz im Goethe-Garten ao jardim
do Goethe-Institut, em Lisboa: são seis concertos, sempre às 19h, e que
arrancam dia 3 com o trio de Gonçalo Almeida, Rodrigo Amado e Marco Franco (na foto, por Vera Marmelo),
autor, no ano passado, do extraordinário “The Attic”; dia 4, outro trio, o
neologista Chaosophy, devoto do humor mais contrariador; dia 5, o quarteto de
Gabriele Mitelli, numa espécie de fluxo de consciência mas também de corrente
elétrica; dia 6, o heterónimo Heinz Herbert Trio (dos irmãos Ramon e Domenic
Landolt e de Mario Hänni), algo como jazz em transtorno dissociativo; dia 12, o
duo de Katharina Ernst e Martin Siewert, que não se deverá ficar pela sua
habitual delicadeza de casa de bonecas; dia 13, a encerrar, a casa vem abaixo
com os demolidores Gorilla Mask.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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30 de junho de 2018
Agenda: Jazz im Goethe-Garten
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21 de junho de 2014
Luís Vicente, Rodrigo Pinheiro, Hernâni Faustino, Marco Franco “Clocks and Clouds” (FMR, 2014)
Sobre a sua “Clocks and Clouds”, afirmou Ligeti: “É formada
por um conjunto de processos através do qual os ‘relógios’ se dissolvem em
‘nuvens’ e as ‘nuvens’ se materializam em ‘relógios’”, numa referência direta a
um ensaio de Popper em que se balizava a escala da indeterminação a partir do que era
eminentemente determinável (um relógio, com peças e mecanismos de inequívoca
compreensão) e do que não se podia determinar (uma nuvem, cujo significado se apreende
pelo exame de todo um sistema e não tanto pelo estudo em separado dos seus
componentes). É natural que o conceito atraia improvisadores, cuja ambição, a
um nível cultural, é precisamente a de unir aquilo que tem tendência para a
dispersão ou aproximar o que subsiste à margem do dogma. Por isso depende da
documentação, pese embora seja um risco coreografar-se em demasia a
espontaneidade. Nessa perspetiva, este CD, eventualmente inspirado no que acima
se referiu, admite sete indexações – mais breve a que ronda os 2 minutos
(‘Hunting Song’, tangível como algo feito de materiais encontrados no chão de
uma floresta) – mas talvez fosse preferível ficar-se por uma, apenas, que lhe
perfizesse a duração integral e que se tornasse mais sensível a tempos diferentes
de reação. Até porque, acerca de ‘Compression Test’ (com 18 minutos, o mais
longo dos temas), por exemplo, declarar-se-ia, à partida, que trataria da
manifestação de uma incoerência semântica não fosse a sua escuta confirmar o
caráter extorsionário do modo em que conclui. Isto é, estranhar-se-á falar-se
de compressão na mais dilatado exercício aqui presente, mas, também, é verdade
que o álbum não afasta a ideia de que põe à vista o negativo de outra coisa, inversa,
a que veda o acesso. Não obstante tal perceção, ou, quiçá, por essa razão, revela
uma enorme maturidade. Luís Vicente (trompete), no mais retórico dos estilos,
desenha azuladas interrogações no ar e, noutros, com pontos de contacto com
práticas coetâneas, garatuja-o com avermelhados gases de mau-génio, mantendo-se
em cada instância capaz de atribuir direção ao que dá mostras de se realizar
sem motivo aparente. Com surdina, é dúctil o sopro que o anima, mas a estabilidade
tonal é contingencial ao mais axiomático nas suas emissões. Marco Franco
(bateria) é um percussionista que evita a mecânica, ciente de que, entre
aqueles de que poderá lançar mão, a repetição é o recurso menos interessante ao
seu dispor, escolhendo colorir, comentar com inesperadas pronúncias, tomar
posse do corpo do coletivo com uma seriedade praticamente satírica. Rodrigo
Pinheiro (piano) move-se no palco com a imposição de um encenador, ora seguindo
o guião, ora dele se distanciando de forma imprevisível, ora discursivo, ora
dedutivo, alimentando-se dos papéis a seu lado desempenhados ou só pelos pensamentos
que o habitam. Em Hernâni Faustino (contrabaixo) está patente a capacidade de
tudo ligar, quando toca de maneira rigorosamente ortográfica, ou, ao invés, separar,
ao abdicar de qualquer formalismo. Como relógios e nuvens, dir-se-ia.
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