Heras-Casado faz tantos milagres com cores
primárias que não é difícil imaginá-lo de batuta numa mão e paleta na outra, ligeiramente
encurvado no estrado, a aplicar tinta com todo o cuidado nas orquestras que
dirige – isto, não dispensasse ele o acessório e, na realidade, enquanto
maestro, não se parecesse mais com um instrutor de Tai Chi. Seja como for, o
ponto não será esse, mas, sim, o de ilustrar o quanto desse magistério se dilui
quando recorre à sépia. É o que em certa medida se dá na gravação da ‘nona’ de
Beethoven com a Orquestra Barroca de Friburgo, em que a segurar em alguma coisa
seria numa seringa, que é para ver se assim se explica a privação mais ou menos
completa da sensibilidade geral entre essa gente que à sua frente deve ter dado
os arcos de pau-brasil por muito mal empregues. Trata-se de uma interpretação
desprovida, até, daquele instinto ferino que se lhe reconhece – aqui, de modo
perverso, está sobretudo feral, e aproximar-se de mansinho do “Hino à Alegria”,
como num cortejo fúnebre, prova-se grotesco. Salva-se a “Fantasia Coral”, no disco,
com Kristian Bezuidenhout a tirar proveito dos prodígios previamente ensaiados,
quando tornou a lembrar que Beethoven foi sempre mais convincente a falar no
singular do que no plural – de facto, em tempos recentes, e menos ainda neste
ano em que se assinala o ducentésimo quinquagésimo aniversário do seu
nascimento, com tudo feito à pressa, não há memória de um registo tão capaz de
chegar ao âmago do compositor quanto o destes concertos para piano em que tudo canta.
Até a madeira do pianoforte, como castanholas.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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1 de agosto de 2020
21 de setembro de 2019
Falla: El Sombrero de Tres Picos; El Amor Brujo (Harmonia Mundi, 2019)
Como pancadas à boca de cena, “El sombrero de tres
picos” abre com o eco de um tacão e um ruflar de castanholas. Não é preciso
muito mais para situar a ação. E o que se lhe segue – está, em palco, o moleiro
a ensinar as horas a um melro – havia sido descrito por Federico García Lorca
meses antes, no seu primeiro livro (“Impresiones y paisajes”, 1918): “As
sombras vão-se erguendo e esfumando (…) e escuta-se pelo ar o chirriar de
ocarinas e flautas de cana.” Lorca pretendia descrever Granada – tal como
Falla, aliás, que emendou o final da sua obra após uma visita à cidade –, e a
vaguear pelo bairro de Albaicín, no ponto onde todas as ruas e caminhos se
cruzam, o poeta deu numa noite escura com um fantástico cunhal assombrado por
medos, pelo latido dos cães e por guitarras dolentes, “o Albaicín trágico da
superstição, das bruxas necromantes que deitam as cartas, dos esquisitos rituais
ciganos, dos amuletos.” Calma, que não adianta ir à procura no Airbnb – essa
Granada do mau-olhado e das almas penadas já não existe. Sabe-lo bem Pablo
Heras-Casado [na foto, com Carmen Romeu e Marina Heredia na casa-museu Manuel de Falla], que aí nasceu, e que, este verão, assinalando o centenário da
estreia de “El sombrero…”, aproveitou as propriedades únicas do complexo
palaciano da Alambra para apresentar este programa.
Na altura, num depoimento
divulgado à comunicação social, explicava que se tinha deixado motivar pela
vontade de se proximar “da essência, da ideia original, do verdadeiro texto de
Falla”, que quis desviar de uma leitura folclórica. Falava do Falla cosmopolita
que viveu em Paris, “próximo de Ravel, de Debussy ou, como é óbvio, de
Stravinsky”, que conseguiu identificar numa pontiaguda partitura de “mil e uma
arestas” (passe o trocadilho) que “surpreende pela sua forma poliédrica, afeta
ao cubismo e muito distante de qualquer ideia preconcebida de carácter
costumbrista.” Escusado será dizer, é raro encontrar uma interpretação, assim,
tão europeísta e agnóstica de “El sombrero…”, tão disposta a resistir à abismal
sensualidade que invade os seus acordes ou à vertigem que despertam as suas
síncopes. Talvez por isso, em contrapartida, surja, aqui, um “El amor brujo”
praticamente em transe, empestado de maldições, com a cantora de flamenco
Marina Heredia a trazer à memória o que disse um dia Lorca sobre La Niña de los
Peines – que já não era bem uma voz mas, sim, “um jorro de sangue que ganhava
dignidade através da dor e sinceridade”. Na época, Falla e Lorca iam em excursões
pela serrania andaluza, estranhando-se de si até, por fim, se encontrarem. Nestas
viagens de ida e volta, Heras-Casado lembra que, por vezes, é preciso ir até um
bocadinho mais longe de casa.
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2 de junho de 2018
Bartók: Concerto for Orchestra; Piano Concerto Nº 3 (Harmonia Mundi, 2018)
Aos EUA chegavam boas novas de Guadalcanal, uma das
Ilhas Salomão. Aliás, por todo o teatro de operações do Pacífico falava-se em
avanços das Forças Aliadas, da Operação Cartwheel à Operação Hailstone ou das
Carolinas e da Nova Guiné às Aleutas, no Alasca. Ao mesmo tempo, durante a
Batalha do Atlântico, deu-se o Maio Negro, em que se infligiram perdas
significativas na Marinha alemã. Já na Frente Oriental, após a Batalha de
Estalinegrado, em que se contaram cerca de 120 mil baixas húngaras entre as
forças do Eixo, travava-se a Batalha de Kursk, com a contra-ofensiva soviética
a mostrar-se capaz de voltar a travar o blitzkrieg.
De repente, estávamos em agosto de 1943, a um mês da Invasão da Itália pelos
Aliados, e Béla Bartók, desde 1940 exilado em território norte-americano,
sentiu-se subitamente alerta e revigorado, com menos tonturas e dores de
cabeça, com a leucemia em remissão.
Num rasgo de inspiração compôs “Concerto
para Orquestra”, com aquele dispositivo praticamente cinematográfico a abrir,
em que uma procissão de notas lentas conduz a ação da cidade para o campo e
atravessa o oceano num voo noturno até fazer escala no Norte de África e,
depois, na Europa Central. Aqui, é no segundo andamento – uma espécie de jogo
de pares em que, dois a dois, em intervalos de sexta, terceira, sétima, quinta
e segunda, participam fagotes, oboés, clarinetes, flautas e trompetas – que
Heras-Casado (na foto) extrai o mais inusitado à sua orquestra. Quanto aos momentos mais
grandiloquentes de Elegia ou Finale, a verdade é que esta acentuada
oscilação entre desespero e esperança soa algo simplista. Curiosamente é no
“Concerto para Piano Nº 3” que o espanhol – ou melhor, os espanhóis, pois
Peranes revela-se exemplar – se prova mais apto a lidar com estes extremos na
contrastada escrita de Bartók, porventura pelo seu carácter algo rapsódico,
pelos seus episódios cromáticos, pelas suas síncopes, por aquelas linhas
melódicas que desatam a cantar como se não houvesse amanhã. E não havia, claro.
O compositor faleceu em setembro de 45 a reconciliar-se com a Alemanha de Bach,
Beethoven e Brahms.
4 de novembro de 2017
Mendelssohn: Violin Concerto; Symphony No. 5 ‘Reformation’; The Hebrides (Harmonia Mundi, 2017)
Nem sempre com sucesso, Mendelssohn procurava transferir
para as suas composições alguma imediatez: “Para ficares com uma ideia do
extraordinário efeito que as Hébridas produziram em mim envio-te isto [as
primeiras notas da futura Abertura], que compus no local”, dizia ele à sua irmã
Fanny, em 1829, num postal que lhe mandou da Escócia; “Tenho um [Concerto para
violino] em mente, em Mi menor, cujo início não me está a dar descanso”,
confessava ao virtuoso Ferdinand David, em 1838. É certo que a sua escrita epistolar
se alimentou mais a alcaloides do que a musical, mas, ainda assim, é raro
encontrar uma gravação, como esta, que ambicione refletir o que possuiu de mais
pletórico, violento e repentino, isto é, que tente situar com maior exatidão aquele
momento em que na sua obra veio ao de cima o fulgor e a frescura de uma juventude
que, no fundo, nada teve de convencional – um famoso menino-prodígio, Felix Mendelssohn
morreu há exatamente 170 anos, a 4 de novembro de 1847, com 38 anos de idade. Agora,
dir-se-ia que nem Isabelle Faust nem Pablo Heras-Casado têm igualmente tempo a
perder. Aliás, no “Concerto para Violino em Mi menor”, não fosse a judiciosa
ausência de vibrato, a alemã parece
agir sob delírios e ardores contínuos. Em particular no avassalador Allegro molto appassionato inicial e
respetiva cadência, a um mundo de distância dos frufrus de Menuhin e dos
acetinados de Chung, por exemplo, tudo em si tanto pulsa quanto as congestões e
inflamações na partitura palpitam. Já o espanhol está mais convincente a
acentuar contrastes em “As Hébridas” do que a acender pauzinhos de incenso na
“Sinfonia Nº 5 em Ré menor”, dedicada àquela Reforma Protestante que fez há
dias 500 anos.
12 de novembro de 2016
Shostakovich: Cello Concertos 1 + 2 (Decca, 2016)
Havia ainda um mundo a construir.
Mas, a meses de se tornar militante do Partido Comunista, Shostakovich
interessava-se mais por aqueloutro em desintegração. Atente-se ao Moderatto do “Concerto para Violoncelo
Nº 1”, de 1959: escuta-se um murmúrio de cordas a fazer a cama ao instrumento
solista, que logo prossegue pelo caminho dos sonhos, ora plangitivo, ora
nostálgico, perdido numa nosaria de dissonâncias que nem o consolo da fantasia
permite; depois dá-se por uma trompa, também ela solitária, e o violoncelo,
cada vez mais distante da realidade e fervendo em harmónicos, é acalentado por uma
celesta. Não se trata de um Adagio ao
estilo do da sexta sinfonia mas a sua função é semelhante: realçar um estado de
espírito por contraste. Aliás, trata-se do único andamento do concerto em que o
compositor prescinde da obsessiva repetição do seu distinto monograma musical,
o DSCH (Ré, Mi bemol, Dó e Si no sistema de notação musical germânico), uma
alusão às iniciais da transliteração alemã do seu nome, Dmitri Schostakowitsch,
que repercute neuroticamente pelo Allegretto,
na Cadenza e no Allegro com a urgência de um despertador que não se consegue
desligar. Tinham-se ido Zhdanov e Estaline mas era como se nem um nem outro
tivessem saído de dentro de si. Shostakovich continuava a falar em código. Há uma dúzia de anos Weilerstein tocou o primeiro concerto a Mstislav Rostropovich.
“Estava sentado à minha frente, com as pontas dos pés junto a mim”, conta em
notas de apresentação. “Deu-me um conselho que nunca esquecerei: disse-me que
quanto mais emoção somos impelidos a transmitir na música de Shostakovich, mais
nos devemos esforçar por ocultá-la.” É uma contradição de que prescinde em
absoluto no “Concerto para Violoncelo Nº 2”, de 1966. Cá está o Shostakovich em
ambulatório, com o ocasional internamento na ala psiquiátrica (os insistentes
apelos no violoncelo, as ideias fixas nos fagotes, o macabrismo da marimba no Largo), dado ao sarcasmo e à misantropia,
intoxicado por Freud (no scherzo),
pertinaz no erro de calcular que a mesma ação pode ter resultados diferentes
(as cinco repetições da cadência no Allegretto
final) e fatalmente tocado pelo pessimismo. Havia um mundo a construir? A
resposta é negativa. Era a única certeza ao seu alcance, então e até ao fim dos
seus dias.
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