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14 de março de 2020

Tim Berne's Snakeoil “The Fantastic Mrs. 10” (Intakt, 2020)

Há coisa de 20 anos, numa esplanada de Lucerna, conversava com Stefan Winter acerca de Tim Berne e da dificuldade em manter músicos destes presos a uma estrutura editorial: “Ah, o Tim é um perfeito rebelde”, dizia-me. “Tocava em alguns dos álbuns que eu produzia na JMT, gravava para a CBS, mas falavas com ele e percebias que se tratava de alguém que gostava de manter as opções em aberto. Extremamente focado, mas muito livre, também. Entre 1989 e 1995, por aí, trabalhámos mais um com o outro e ainda me acompanhou na transição para a Winter & Winter. Ele tinha objetivos bem traçados. O problema é que se aborrecia depressa e não era nada fácil seguir-lhe o ritmo.” Pois, aos 65 anos, Berne muda-se de armas e bagagens da ECM para a Intakt.  No contexto dos Snakeoil, mantendo-se o núcleo duro de Matt Mitchell (piano), Oscar Noriega (clarinete baixo) e Ches Smith (bateria) [na foto], não é, no entanto, a única alteração digna de nota, ou sequer a mais importante: aqui, o guitarrista Marc Ducret substitui Ryan Ferreira. De repente, de facto, até parece que voltámos aos tempos da JMT, quando Berne e Ducret lançavam “Pace Yourself” (1991) com os Caos Totale, serviam de catalisador à música de Julius Hemphill em “Diminutive Mysteries” (1993) e com os Bloodcount mudavam de sítio as partes do corpo do jazz moderno nos três seminais volumes de “The Paris Concert” (1995) – o seu impacto foi devastador, mas, como um tema deles dizia, ‘It Could Have Been a Lot Worse’.

Agora, incluindo em ‘Dear Friend’, de Hemphill, a intenção de Berne ao recorrer a Ducret era a de deitar areia na engrenagem: “[Introduzir] uma personagem nova põe toda a gente em sentido”, confessa, em notas de apresentação. Sim, realmente: basta pensar no Negan de “The Walking Dead” ou no Ramsay Bolton de “A Guerra dos Tronos”. Tudo isto, porque, como dizia Henry Hill (Ray Liotta) de James Conway (Robert De Niro), em “Tudo Bons Rapazes”, estamos com certeza a lidar com aquele “tipo de pessoa que nos filmes se põe a torcer pelo mau da fita”. Neste “The Fantastic Mrs. 10” não há uma linha reta – aliás, ouvindo-o, imaginam-se os músicos dobrados sobre si mesmos a dar expressão àquele paradoxo que diz que “um atalho é sempre a distância mais longa entre dois pontos”. Em partes iguais repressivo e catártico, sério, grave, mas capaz de falar na língua das chamas, de âmago inviolável mas ímpio, o disco devora contradições. A maior? Mostrar o que faz um apóstata quando se vê rodeado de apóstolos. Como escreveu Richard Howard, num poema: “[Aos 65] pára de esperar/ Vira-te para trás/ E […] ficarás espantado ao entender que a memória é infinita/ A vida, longa/ E tu/ Tu, afinal, és imortal.” Para banha da cobra não está mau.

29 de julho de 2017

Tim Berne’s Snakeoil “Incidentals” (ECM, 2017) & Matt Mitchell (Tim Berne) “Forage” (Screwgun, 2017)


Há cerca de um ano, em entrevista ao Expresso, Tim Berne explicava que se estava a preparar para entrar em estúdio com Matt Mitchell, pianista nos seus Snakeoil: “[…] Vai gravar um disco com música minha para piano solo. Escolhemos juntos o material a partir dos últimos 10 ou 15 anos, pelo que abarca períodos muito diferentes.” Na altura, depositava igualmente esperanças em Manfred Eicher, sugerindo que fosse provável que o resultado viesse a interessar ao fundador da ECM. Mas eis que, entretanto, aí está o CD, lançado pela própria editora de Berne. E tem consequências algo perversas, “Forage”, em que tudo é muito mais opaco e angular do que aquilo que se poderia supor, como numa composição cubista feita a partir de originais já de si extraordinariamente densos e sinuosos. Dir-se-ia que Mitchell, no que diz respeito à obra de Berne, preferiu voltar a emaranhar o nó, tornando sincrónico o que evoluiu no tempo, jogando sozinho ao cadavre exquis. Seguiu também num sentido contrário àquele que a música de Snakeoil sugere, em que a transparência não compromete a tridimensionalidade, a monumentalidade não ameaça a minuciosidade, o estudo não invalida o ato espontâneo, o excesso de informação não anuvia o exotismo.

São tudo coisas em que se pensa ao escutar qualquer um dos quatro discos do grupo, mas que são óbvias em “Incidentals”. Aliás, regressando à entrevista, Berne dizia estar “muito satisfeito com ‘You've Been Watching Me’” (2015), mas sugeria igualmente que, em matéria de álbuns, “o próximo é o melhor”. Nesse particular estava em controlo de todas as variáveis, claro. E é bem possível que tivesse razão. O quinteto é o mesmo do disco anterior (Berne com Mitchell e Oscar Noriega nos clarinetes, Ryan Ferreira em guitarras e Ches Smith à percussão) e curiosamente o material procede da mesmíssima sessão de gravação (dezembro de 2014). Mas o que aqui está, na vida de Berne, só possui precedentes no seu primeiro encontro com Julius Hemphill, quando, de chofre, e de modo muito inesperado, o seu futuro mentor se vira para ele e diz: “Tenho andado a pensar muito em magia.”

13 de fevereiro de 2016

Michael Formanek – Ensemble Kolossus “The Distance” (ECM, 2016)



De certa forma, este “The Distance” sugere um olhar atualizado sobre “Nature of the Beast” (Enja, 1997). Ou, melhor, tratar-se-á de mais um caso em que se atribui a material antigo o dom da profecia. É que, já aí, nomeadamente em ‘Thick Skin / Dangerous Crustaceans’, quando Tim Berne, Tony Malaby e Chris Speed se juntavam a Formanek, Jim Black, Steve Swell e Dave Douglas, se diria lançada a semente para o eloquente exercício de escrita que agora se concretiza. Claro que, entre um e outro momento, se dá um hiato na expressão mais visível da atividade do contrabaixista e compositor que, neste decénio, só um par de CD na ECM (“The Rub and Spare Change” e “Small Places”, ambos em quarteto) veio interromper. Não obstante a excelência de cada um, cumpririam neste raciocínio a função dos exercícios que terá de fazer quem pretenda recuperar uma determinada capacidade motora. Até em virtude de uma curiosa titulação – “The Distance” é dominado por “Exoskeleton”, uma suíte com cerca de uma hora, formada por andamentos como ‘Impenetrable’ ou ‘Beneath de Shell’ – salta à memória esse registo mais remoto.

Mas nada deixava antever a magnificência de que o atual se reveste. No material de promoção da editora, Formanek admite um peculiar conjunto de influências: Messiaen, Mingus, Sun Ra, Anthony Braxton ou Henry Threadgill. Mas não se levará a mal quem, intoxicado, por exemplo, pelo que escute em ‘Beneath the Shell’, se deixe transportar para aquele tempo em que verve melódica, elegância rítmica, subtileza harmónica e apurado sentido do dramático eram combinados por Gil Evans ao serviço de Miles Davis ou por Billy Strayhorn à sombra de Duke Ellington. Convenhamos, comparada à paleta de infinitas matizes de que se socorriam essoutros orquestradores, Formanek recorre, aqui, a pouco mais que uma escala de cinzentos (entre os instrumentos deste Ensemble Kolossus incluem-se quatro trombones, clarinete baixo ou saxofone barítono). Ou seja, pese embora a referência à antiguidade grega, não se terá deixado subjugar inteiramente por aquilo que, um dia, Tom Zé definiu como “complexo de épico”. No entanto, nem a agilidade das suas cadências, o exotismo das suas modulações ou o sotaque dos seus solistas compromete a coesão de uma expressão coletiva que se arrisca a ficar para a história.

19 de outubro de 2013

Tim Berne’s Snakeoil “Shadow Man” (ECM, 2013)



Houve sempre algo de descoroçoante nas extensas improvisações de Tim Berne. Como se o seu heroico voluntarismo fosse na realidade uma forma distorcida de sonegação. Beneficiando de uma conjuntura – a do pós-punk – em que imprevisibilidade e incoerência se confundiam, mesmo nos seus mais dispersos registos se identificava um teor vingativo praticamente compulsório embora perversamente cativante. Só em “Mutant Variations” (1984) ou “Sanctified Dreams” (1988) pareceu tecnicamente à altura das suas ambições, justapondo materiais até níveis hemorrágicos mas igualmente capaz de desobstruir artérias com aparente facilidade. “Fractured Fairy Tales”, título do seu LP de 1989, mantém-se um retrato exato das suas composições. Seguiram-se-lhe álbuns cruciais com Caos Totale ou Bloodcount, nos quais a sua intransigência se provou ilimitada, a roçar o ensimesmado onirismo, e em que ensaiou estratégias dignas de fascinar um morfologista. Até que tudo o que de mais climatericamente volátil havia esboçado ganhou consistência em “Science Friction” (2002), escultórico, denso, de um inusitado sentido de justiça. Foi à porta de um dos responsáveis por essa façanha – o atmosférico guitarrista e produtor David Torn – que Berne foi agora bater para o segundo tomo do seu quarteto na ECM. É uma redundante artimanha, que deprecia ligeiramente a entrega, estrenuamente testada, de Matt Mitchell (teclados), Oscar Noriega (clarinetes) e Ches Smith (percussão), pondo a descoberto uma escrita com carências. Ou melhor, como quem retoma um antigo vício, e apesar de, a espaços, se atingir aqui a estruturada fluidez da obra-prima “Snakeoil” (2012), quanto mais Berne conjetura menos interessante se torna, e chega a soar rapsódico por tanto aspirar à monumentalidade. São vicissitudes naquilo que se destina a viver à sombra de um clássico.