Mostrar mensagens com a etiqueta Fred Hersch. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fred Hersch. Mostrar todas as mensagens

4 de abril de 2020

Lugares [Agenda virtual]

Há exatamente uma semana, no canal de YouTube da Deutsche Grammophon, desde Belgais, ou, como ela dizia, “no meio do nada”, Maria João Pires servia de anfitriã numa maratona de streaming de pouco menos de quatro horas aproveitando para falar acerca desta “terrível crise que atravessamos”: avisava que era útil refletirmos sobre o futuro, sobre como podemos “cuidar melhor de nós, do planeta e uns dos outros”, “respeitando-nos mais, partilhando mais”. Depois, pelo muito que temos a aprender com o seu exemplo, presume-se, explicava que tinha decidido tocar Beethoven: um “homem de fé e de esperança, que sempre lutou pela justiça com muita compaixão – uma alma pura.” E tocou o quê? Pois, a “Sonata para Piano Nº 8”, vulgo Pathétique – seria cómico se não tivesse sido tão comovente. Seguiu-se-lhe, por ordem de entrada em cena, e quase sempre a partir das respetivas casas, Víkingur Ólafsson, Joep Beving, Rudolf Buchbinder, Seong-Jin Cho, Jan Lisiecki, Kit Armstrong, Simon Ghraichy, Evgeny Kissin e Daniil Trifonov, que, por sinal, tocou de luvas, o que não se via há coisa de 15 anos, desde um recital de Jorge Lima Barreto. De certa forma, o mote tinha sido dado por Philip Glass, citado por Ólafsson: “A música é um lugar tão real quanto outro qualquer – e assim que souberem onde é esse lugar podem lá ir sempre que quiserem”, lê-se nas suas memórias. Dito e feito: antes de Trifonov tocar a última nota de “A Arte da Fuga”, o vídeo atingia já as 250.000 visualizações. Hoje, e até terça, sempre às 5 da tarde, um desses lugares é a sala de estar do violinista Daniel Hope, em Berlim, a partir da qual tem tocado todos os dias em direto (as transmissões são no YouTube da DG e no site do canal Arte). Quem também continua a tocar a partir da sua sala de estar em Berlim é Igor Levit (através da sua conta no Twitter) e, em Nova Iorque, Fred Hersch (na sua página de Facebook) – na semana passada, por fatalidade, tocaram ambos ‘And so it Goes’, de Billy Joel, tema que começa assim: “In every heart there is a room/ A sanctuary safe and strong”. Será a algo do género que remete um festival virtual a decorrer diariamente, até terça, chamado Live from our Living Rooms – entre outros, envolve gente como Chick Corea, Joe Lovano, Bill Frisell, John Patitucci ou Dave Liebman. Como se não bastasse, hoje, pela noite dentro, Vijay Iyer improvisa em direto a partir do auditório do Centro de Artes de Caramoor (no canal de YouTube da instituição) e, terça, pouco antes da meia-noite, Jeremy Denk [na foto] apresenta seleções de “O Cravo Bem Temperado”, de Bach, no site do Greene Space, a sala da rádio pública nova-iorquina. Lugares e mais lugares, pelo menos até ao dia em que façamos como aquela personagem de “O Quarto”, de Herberto: “Fecho as portas da casa, a porta de saída e as portas dos quartos entre si. E fico no quarto sem soalho e deito-me no chão. Ouço o mar e o vento à frente e atrás da montanha solitária e poderosa. Depois encosto a cara à terra profundíssima para escutar o seu húmido sussurro atravessando-a toda e passando por mim.” Depois a música acaba.

28 de março de 2020

À janela [Agenda virtual]

Em entrevista, há uns bons 25 anos, inquirido acerca dos seus hábitos de audição caseiros, Cecil Taylor dizia assim: “Escuto muitas coisas diferentes. Hoje, por exemplo, ouvi música clássica chinesa, cantos islâmicos e a Orquestra de Duke Ellington, por volta de 1945 – um dos temas era absolutamente incrível. Ouvi a Victoria de Los Ángeles no ‘Dido e Eneias’, de Purcell, e, depois, o Gary Graffman a tocar o primeiro andamento do ‘Concerto para Piano Nº 1’, de Brahms – é qualquer coisa, deixa-me que te diga. A seguir, fui ouvir a Leontyne Price a cantar a cena final de ‘Salomé’, de Richard Strauss – bem… foi, assim… wheeew. E, claro, ouço diariamente qualquer coisa de Ligeti – hoje foi ‘Ramificações’, outra peça coral qualquer e ‘Atmosferas’. Também ouço todos os dias Marvin Gaye, como é óbvio. Ainda pus no gira-discos Sarah Vaughan e, por fim, Xenakis, uma peça orquestral – esse sacana é demais!” Tudo isto, pasme-se, sem que tivesse sido decretado o estado de emergência, sem que tivesse a sua subsistência, para não dizer, já, a sua própria sobrevivência, ameaçada e, claro, sem acesso à internet, o que não é menos espantoso. Imagine-se o que faria com tudo o que nos é agora subitamente colocado à disposição: talvez começasse pela vizinhança, dando um salto à página de Facebook de Fred Hersch [na foto], por exemplo, que à nossa hora do chá tem dado pequenos recitais aos seus seguidores; aí, talvez tropeçasse em #fightcoronaseries, em redor da qual se têm vindo a agremiar músicos de todo o mundo, aproveitando para amaldiçoar pela primeira vez o seu fornecedor de banda larga; nesse domínio é provável que recebesse uma chamada de atenção para a “Spring 2020 Jazz Series”, da Firehouse 12, em transmissão exclusiva no canal de YouTube da sala (em abril, estão agendadas atuações de Allison Miller e Carmen Staaf, Daniel Levin e Mat Maneri, de Lioness e do sexteto de Allen Lowe); mas, conhecendo os seus gostos, seria muitíssimo provável que, hoje, despedindo-se de Hersch, se ligasse ao site da Ópera de Viena para apanhar a retransmissão gratuita de “O Crepúsculo dos Deuses”, de Wagner, e que, amanhã, à meia-noite, acedesse ao da 92|Y para ver e ouvir Anthony de Mare a tocar Stephen Sondheim ao vivo; ao longo da semana, assistiria aos Nightly Met Opera Streams e perder-se-ia nos arquivos escancarados do Wigmore Hall, da Ópera de Berlim e da Filarmónica de Berlim ou na plataforma Marquee TV; além de que, no Twitter ou Instagram, instrumentistas como Yo-Yo Ma, Gautier Capuçon, Igor Levit ou Alisa Weilerstein descobriram o televangelista que tinham em si – raios partam, que isto está mais para o Sol e Dó do que para a solidão! Apesar das indicações em contrário, é o que tenho sentido nos últimos dias, sentado ao computador, a abrir janelas atrás de janelas até me vir à memória aquela canção do Roberto – ‘À Janela’, precisamente – em que ele cantava “Quantas vezes eu pensei sair de casa/ Mas eu desisti/ Pois, eu sei, lá fora eu não teria/ O que eu tenho agora aqui” e me tentar convencer de que o que ele diz é verdade.

31 de agosto de 2019

Fred Hersch & The WDR Big Band “Begin Again” (Palmetto, 2019)

Como é que dizia a canção de Ivan Lins e Vítor Martins? “Começar de novo/ E contar comigo/ Vai valer a pena/ Ter amanhecido/ Ter me rebelado/ Ter me debatido/ Ter me machucado/ Ter sobrevivido”. Podia ser o mantra de Fred Hersch, que, após ter entrado em choque séptico, em 2008, passou dois meses em estado larval, tendo sido sujeito a uma traqueostomia e a tratamentos diários para a insuficiência renal, com mais tubos que um parque aquático, até, por fim, acordar sem sequer saber se voltaria a falar, a ingerir sólidos, a andar ou, como é óbvio, a tocar piano. Faltando só um livrinho de Oliver Sacks, trata-se de uma provação documentada em “My Coma Dreams” (um DVD), em “Good Things Happen Slowly” (a sua autobiografia) e em “The Ballad of Fred Hersch” (um documentário), mas, desde então, numa boa dezena de álbuns a solo, em duo e em trio, com nenhuma ou pouca representação em disco. Daí entender-se este “Begin Again” não tanto quanto a fase inicial de um processo de reabilitação mas, sim, como a prova da sua transcendência, no sentido em que mais do que recuperar funções perdidas, o que fez há muito, Hersch dá mostras de as superar, aceitando um convite para fazer algo que nunca tinha feito antes: tocar com uma Big Band.

Pegando em mais uma canção de Lins e Martins (‘A Outra’, a cujo refrão, por sinal, o pianista alude em ‘Song Without Words #2’), é como se declarasse: “Nem só o que aparento/ Eu gosto/ Nem tudo que represento/ Eu mostro”. Nessa perspetiva, logo à primeira, teve mais sorte que Bill Evans (ainda e sempre um bom termo de comparação para se entender as capacidades transformativas da sua ação), que nunca se mostrou realmente confortável em discos gravados com formações alargadas (como aquelas dirigidas por Gary McFarland, George Russell e Claus Ogerman). Mérito da WDR Big Band, claro, do orquestrador e maestro Vince Mendoza (que se aproxima, aqui, da sensibilidade demonstrada em “Both Sides Now” e “Travelogue”, de Joni Mitchell) e do próprio Fred Hersch – não apenas por ter decidido tocar exclusivamente temas da sua autoria mas, também, por lhes estimular como nunca os lobos temporais. Há 40 anos, de modo premonitório, o primeiro disco em que participou chamava-se “The Awakening”.

11 de agosto de 2018

Fred Hersch Trio “Live In Europe” (Palmetto, 2018)

Como disse um dia Tom Piazza acerca dos habitantes de Nova Orleães (em “City of Refuge”), Fred Hersch insistiu em prevalecer – ou seja, foi capaz de transformar as suas muitas privações em ativos. Aliás, é nesses termos que o novelista resume o livro de memórias que Hersch publicou no ano passado: como uma história de superação. E também Jason Moran escrevinhou qualquer coisa do estilo, referindo os obstáculos com que Hersch lidou dentro e fora do palco, em relações amorosas ou na sua recuperação: “No jazz, um intérprete partilha tanto as suas virtudes quanto as suas falhas – é como o reflexo do mundo; e ao improvisar – o princípio elementar [do género] – é capaz de fazer do infortúnio fonte de inspiração.” Enfim, Hersch é defumado com incensos desde que vive com a síndrome da imunodeficiência adquirida. Mas muito de vez em quando somos relembrados que ele nunca foi propriamente um moralista.

Numa entrevista recente (na edição do mês passado da revista “The New York City Jazz Record”), observe-se com atenção o modo como se refere a Cecil Taylor: “[Um pianista] brilhante, muitíssimo organizado, e uma enorme influência em músicos como Craig Taborn ou Jason Moran. Uma figura imponente que soube fazer as coisas à sua maneira. O facto de ser gay foi uma mera nota de rodapé. Por sinal, ele soube contradizer exemplarmente aquela ideia feita de que se és gay, então, tens de tocar música bonitinha.” Pois bem, não se podendo, por um segundo, afirmar que se trata do contrário de bonito, este “Live in Europe” (registado em Bruxelas, em novembro último, na reta final de uma digressão de três semanas com John Hébert na bateria e Eric McPherson no contrabaixo) será igualmente a tentativa de Hersch tornar claro que a presença do HIV na sua vida nunca poderá deixar de se confundir com um mau augúrio, negro catalisador do caos emocional e psicológico, origem de um ubíquo receio de alienação. São originais de irreconciliáveis tensões (dedicados a John Taylor, Sonny Rollins ou, lá está, Tom Piazza), e que obrigam quem os escuta a partilhar de uma responsabilidade algo esmagadora. Pelo meio, como se fosse possível recomeçar do zero, temas de Monk e Shorter. E Hersch a vender saúde.

23 de setembro de 2017

Fred Hersch “Open Book” (Palmetto, 2017)


Ao jeito de Caetano Veloso, que há 20 anos fazia chegar às lojas um CD chamado “Livro” no momento exato em que publicava as suas memórias, também este “Open Book” concorre com o lançamento do autobiográfico “Good Things Happen Slowly: A Life In and Out of Jazz”. Mas há mais: Hersch regressou na semana passada ao programa do Jazz at Lincoln Center com “Leaves of Grass”, o espetáculo em que Kurt Elling e Kate McGarry dão voz à sua adaptação de poemas de Walt Whitman (nomeadamente àquele que começa por “Celebro-me e canto-me/ E aquilo que assumo tu deves assumir/ Pois cada átomo que a mim pertence a ti pertence também”), e prepara-se a edição de “The Ballad of Fred Hersch”, o documentário de Charlotte Lagarde e Carrie Lozano consagrado à sua vida em ambulatório desde que contraiu o vírus do HIV (parte “Silverlake Life: The View from Here”, sem o terrível e fatal desenlace, parte ‘Medici’, o terceiro capítulo de “Caro diario”, de Nanni Moretti, tivesse sido Moretti pianista de jazz). 

Tudo isto, bem como o título deste seu novo álbum, contribui para uma certa ideia de transparência, ou pelo menos de revelação, que também no seu caso poderá dever ao poema “Queer”, de Charles Bidart: “Para cada jovem gay que viveu a adolescência/ Na América dos anos quarenta ou cinquenta/ O dilema principal, crucial/ Permanente e constante é a saída do armário – ou não/ Ou não/ Ou não/ Ou não”. Oh, sim, diria Hersch, e mais ainda num meio artístico alimentado a testosterona, não obstante de presumida liberdade, e pese embora a sua experiência tardia (nasceu em 1955). Aliás, pelo que tem dito ao longo dos anos, naquele tempo, para o bem e para o mal, cruzar-se no circuito do jazz com um homossexual deveria ser parecido com o complexo de emoções que toma conta dos mutantes dos X-Men assim que se apercebem que há mais gente igual a si no mundo. Agora, há muito que Hersch saiu do armário, claro. Mas talvez seja verdade que esse rito de passagem nunca se traduziu tão bem, com Hersch tão solto e ao mesmo tempo tão só, ora espontâneo, ora difícil de entender (escutem-se os 20 minutos do algo grimmiano ‘Through the Forest”), invulnerável quando vacila, seguro quando se mostra mais sensível. Ouvindo-o, pensa-se mais uma vez em Whitman, que escreveu: “Nunca haverá mais perfeição do que agora”.