Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
Mostrar mensagens com a etiqueta Kindred Spirits. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Kindred Spirits. Mostrar todas as mensagens
17 de abril de 2013
8 de setembro de 2012
Le Mystère Jazz de Tombouctou (Kindred Spirits, 2012)
Na crua
exposição nacionalista em que se transformou a música popular do Mali na década
de 70, entre expoentes dados a infinitésima retalhação (observe-se o caótico espólio
de Rail Band e Ambassadeurs du Motel), destacam-se duas séries eminentemente
colecionáveis: a primeira, semeada pelo regime de Modibo Keïta e colhida pelo
de Moussa Traoré, consiste num levantamento de 15 títulos editados pela alemã Bärenreiter-Musicaphon,
entre os quais, sob a designação “Les
Meilleurs Souvenirs de la 1ère Biennale Artistique et Culturelle de la Jeunesse (1970)”, se
agrupou a produção desse ano das orquestras regionais de Ségou, Mopti, Sikasso
e Kayes, da L’Orchestra National ‘A’ e da Rail Band; a segunda, datada de 1977,
publicou-se com o selo Mali Kunkan e, de certa forma, complementa a anterior
registando-lhe dramáticas transformações procedimentais. É desta precisamente
que provém a fascinante Mystère Jazz de Toubouctou, registada neste singular LP
lançado então ao lado de não menos deslumbrantes ensaios de Kéné-Star de
Sikasso, National Badéma, Sidi Yassa de Kayes, Bida de la Capitale, Super Biton
Nationale de Ségou ou Kanaga de Mopti, que, em conjunto, promoviam uma densa
recomposição de códigos tradicionais mandingo, tamaxeque, bobo ou fula (para
quem não compra vinil a preços exorbitantes, adiante-se que só o álbum da trupe
de Mopti está atualmente disponível em CD e que “Mali 70: Electric Mali”
compilou em 2008 um par de temas de cada). No momento em que Tombuctu está a
saque – com a destruição da entrada sagrada na madraça de Sidi Yahya – convém relembrar
este prodigioso manifesto de invenção e tolerância que, daí, por entre
fanfarreados uníssonos de metais e hipnoides ostinato à guitarra elétrica, nos falou um dia de Alá, de mesquitas,
do deserto, da chegada à lua e, naturalmente, de que tudo tem um fim.
Etiquetas:
Ambassadeurs du Motel,
Bida de la Capitale,
Kanaga de Mopti,
Kéné-Star,
Kindred Spirits,
Le Mystère Jazz de Tombouctou,
Mali,
National Badéma,
Sidi Yassa,
Super Biton Nationale,
Super Rail Band
14 de janeiro de 2012
L’Orchestre Kanaga de Mopti “Kanaga de Mopti” (Kindred Spirits, 2011)
Com Ali Farka nas fileiras, constitui-se nos anos 60 enquanto Bani Jazz mas o nominal anglicismo contraria a política de Modibo Keïta, que, à semelhança do que no Senegal e Gana fazem Léopold Senghor e Kwame Nkrumah, encoraja exclusivamente expressões artísticas de pendor “autêntico”. Por isso, já sob a liderança de Sorry Bamba, o grupo adopta a designação de Orchestre Régional de Mopti (é do período um fascinante registo em 1970 lançado na Europa pela alemã Bärenreiter). Só que após o Golpe de Estado de Moussa Traoré, para aparentar a superação ideológica do presidente deposto, as mais populares bandas do Mali são forçadas a mudar de nome, ainda que não se alterassem os condicionamentos à sua produção. E, de facto, a acção de Ambassadeurs du Motel, Rail-Band de Bamako ou Super Djata Band parece então desenhada por um zeloso folclorista. Com esta notável excepção que coloca a hipocrisia estatal a descoberto. Porque ao assumir para a Régional de Mopti uma identidade axiomática e etnicamente filiada num ‘obscuro’ povo (kanaga é uma das máscaras cerimoniais dos dogon), Bamba prova que a tutela sabe menos acerca da cultura do seu país do que, por exemplo, sobre danças cubanas: no ano seguinte ao da gravação de tão singular obra, na Biennale Culturelle de 1978, o júri do regime penaliza bandas que incluem ritmos latinos nas suas apresentações mas nada aponta aos sintetizadores e pedais de efeitos usados pela Kanaga de Mopti, presumindo, talvez, que tão invulgar proposta dependeria de conhecimentos profunda e esotericamente ancestrais mas inquestionavelmente malianos. Quando, na verdade, ainda que num irrepetível dispositivo formal (pois nunca mais gravaram Bamba ou a orquestra nestes moldes), da irredutibilidade geográfica se partia já para o cosmos e com o desconhecido se desassombrava uma ingrata realidade.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


