Trata-se,
à primeira vista, de uma tácita adesão de Evans ao universo da ficção
científica, através da evocação da obra de Frank Herbert, autor de “Dune”.
Publicado em 1966, esse “Destination: Void” original visava a controvérsia,
prenhe de tentações prometeicas e alertas proféticos em polémicos temas como os
da clonagem ou inteligência artificial que as suas personagens acareavam de
modo complexo e dos quais sobressiam conceitos eminentemente comparáveis: conspiração
e culpa, ética e experimentação, moralidade e mortalidade, senciência e
sociobiologia, forma e função. Mas, neste caso, conquanto dessas problemáticas comungue,
talvez se cuide antes de prevenir o ouvinte, asseverando que, por mais
extraordinário que pareça, nada disto é absolutamente imune à lógica. E ainda
que para o disco alguma coisa se tenha transferido da sensação de claustrofobia
e catástrofe iminente que se imputa a Herbert, o interesse aparenta ser outro:
propor um paradigma de sustentabilidade orgânica para o que se terá de apelidar
como jazz eletroacústico. É, assim, tão fisiológico quão ontológico, o sucessor
de “Ghosts”. É como a nave do “Alien”. E embora dependa de uma disposição de
tal maneira augural que se diria transcender a própria compreensão, nele, Evans,
Sam Pluta, Ron Stabinsky, Tom Blancarte e Jim Black tocam com tamanha exatidão
que dão mostras de tudo tornar inteligível. É um paradoxo que percorre as
criações do trompetista, aqui dado a uma congregadora visão de conjunto que o
distancia de testemunhos deixados em palcos portugueses, onde se costuma comportar
como aquele rapaz penteado de credencial ao peito que, na rua, pede uns minutos
da nossa atenção. Por ora, volta a ser um estranho numa terra estranha. Bem como
o queremos.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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20 de dezembro de 2014
27 de abril de 2013
Peter Evans “Zebulon” (More is More, 2013”)
Acaba de se confirmar a sua presença
em Portugal no próximo “Jazz em Agosto” – no qual tocará na versão ampliada do
trio The Thing, de Mats Gustafsson, e depois enquanto líder de um octeto – e ainda
há pouco andou por cá, convidado por Rodrigo Amado para uma atuação e gravação
com o Motion Trio. Nessa ocasião, no Teatro Maria Matos, revelou-se um soprador
tão ruminante quão expressionista, sonorizando cada nota desde o seu gasoso
despontar bronquial até à sua liquefação em ruidosas cusparadas. Evans aparenta
saber que uma contorcionista demonstração de técnica, ainda que frívola, se
pode provar irresistível, e, sob essa perspectiva, mais não fez do que prolongar,
no trompete, uma tradição que privilegiou frequentemente o episódico e o
anedótico, o dito mordaz, o aparte humorístico, mas também, porventura de forma
punitiva no contexto de uma manifestação coletiva, a mais loquaz tagarelice. Quanto
muito, correspondendo em palco ao preceito com que nomeou a sua própria editora
– a More is More –, procedeu com zelo maximal até quando examinava o potencial
expressivo dos pistões e do bocal do seu instrumento, numa polifónica autópsia
a hálitos e humidades. Mas, na verdade, esse será apenas um aspeto – talvez
conscientemente superficial – na sua idiomática articulação. Porque “Zebulon”,
um empático registo ao vivo com o baterista Kassa Overall e o contrabaixista
John Hébert, sustenta o argumento de que é através de uma construção mais esquematicamente
arquitetónica e narrativa que, na circunstância da improvisação, melhor exprimirá
uma distinta filosofia de valores morais. Aqui, em quatro longos temas, expõe
um denso fluxo de ideias de maneira irrevogável, numa epidémica coligação de
materiais canónicos e cuidadosamente compostos, cuja rapidez de execução sugere
espontaneidade mas que dependem antes de uma astuta e fulgurante deliberação.
Puro jazz.
20 de março de 2013
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