Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
Mostrar mensagens com a etiqueta Joe Lovano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Joe Lovano. Mostrar todas as mensagens
5 de fevereiro de 2021
Joe Lovano – Trio Tapestry “Garden of Expression” (ECM, 2021)
No livreto, umas linhas, que começam: “A música da
vida é repleta de momentos preciosos no jardim da expressão.” De facto, no
jazz, não havia um disco tão exposto a ervas aromáticas desde que Cecil Taylor
gravou “Chinampas”, palavra nauatle que remetia para a técnica de cultivo dos
“jardins flutuantes” nas áreas lacustres do Vale do México. Aí, o pianista
abdicava do piano, recitava poemas, acumulava espuma esotérica nos cantos da boca
e a sua voz ia sendo pontuada pelos ding,
plim, blong e dong dos sinos e
gongos, mais ou menos o que aqui faz Carmen Castaldi – alguém que, cercado de
chapas circulares suspensas, como móbiles, sabe reter a mais extraordinária
espontaneidade. Em temas abertos, soltos, marcados por estruturas vaporosas e
andamentos vagarosos, também Joe Lovano e Marilyn Crispell parecem reagir à
complexidade da música que sempre praticaram buscando abrigo num corpo
hermético, num metafórico jardim – e, tal como o Mal Waldron de ‘The Stone
Garden of Ryoanji’, por exemplo, vêm dar expressão àquela ideia batida de que a
infinitude do universo se vê amiúde reproduzida no mais ínfimo dos espaços. Ao
mesmo tempo, dir-se-ia quererem acercar-se o mais possível do som – ‘Chapel Song’,
‘Sacred Chant’, ‘Zen Like’, o ponto em que equilibram fórmulas altamente
concentradas, como se descobrissem uma música dentro de outra. Nessa
perspetiva, “Garden of Expression” é mais ecuménico do que evangélico, ao invés
de ‘The Garden of Souls’, de Ornette, digamos, embora tenha presente que mesmo
a mais serena das preces pode servir de arma de arremesso. Aliás, como quem se
retira para um jardim de pedras japonês com o livrinho dos pensamentos de Musô
Soseki debaixo do braço, o Trio Tapestry relembra que originalmente não há
grandeza nem pequenez nas coisas do universo, que o árido não tem de ser
sinónimo de estéril, que o espiritual não equivale obrigatoriamente ao
transcendental. Tocam, e o que vem à memória é um haiku, de Bashô: “Silêncio:/ As cigarras escutam/ O canto das
rochas.”
1 de novembro de 2019
Agenda: Guimarães Jazz
No ano
passado, era tudo sobre o espaço – com a organização do festival vimaranense atenta
no aeroporto Francisco Sá Carneiro aos horários de chegada de voos provenientes
dos “Estados Unidos, Brasil, Israel, Alemanha, Áustria…”. Este ano, ao que
parece, a preocupação é o tempo: “Em 2019, e já na sua 28ª edição, o Guimarães
Jazz cumpre mais uma etapa de um percurso de quase três décadas de divulgação
do jazz de todas as épocas”, lê-se na sua apresentação. Realmente, mais
referências à quarta dimensão, numa única frase, só em ‘Oração ao Tempo’, de
Caetano: “E quando eu tiver saído/ Para fora do teu círculo/ Tempo, tempo,
tempo, tempo/ Não serei nem terás sido/ Tempo, tempo [etc].” E, já que, de todos quanto programa, é o mais avançado em
idade, começa de modo apropriado, com Charles Lloyd – logo ele, que passou
grande parte da carreira a bater o pé ao maniqueísmo, e que sempre que tocava ‘Tales
of Rumi’ (1997), por exemplo, aproveitava, como dizia o poeta, para sugerir que
“Cem mil anos e sessenta minutos são uma coisa só”, que para aqueles que se
deixam absorver pela verdade não há princípio nem fim, só a “graça do presente”
(talvez por isso lhe seja tão fácil tocar num grupo como este, os Kindred
Spirits, em que a presença do guitarrista Marvin Sewell traz à memória a altura
em que Lloyd esteve ao serviço de gente como Howlin’ Wolf ou B. B. King).
Rumi
falou também acerca de uma categoria de pessoas que se deixa consumir pelo
mundo material em virtude da sua profunda ignorância e imensa falta de
consideração – Donald Trump será uma delas, diz Antonio Sánchez, que, de acordo
com o seu mais recente álbum, subirá a palco de hoje a oito dias para traçar
“Lines in the Sand” (no CD, em alusão à vil articulação do presidente
norte-americano, dá-se por um tema chamado ‘Bad Hombres y Mujeres’). Sánchez
dirige-se àqueles que vêem o seu tempo na terra das oportunidades a esgotar-se
– e o jazz chama a atenção para coisas destas desde que há 70 anos Bud Powell
transformou a locação latina tempus fugit
em ‘Tempus Fugue-it’. No sábado, sosseguem os espíritos, que voltamos a rodar como
dervixes. Primeiro, às 17h, com o trio de Stéphan Oliva, Sébastien Boisseau e
Tom Rainey, cujo recente “Orbit” inclui em sequência temas como ‘Cercles’ e ‘Spirales’,
e à noite com duetos de piano de Vijay Iyer e Craig Taborn organizados sob a
égide de uma sugestiva frase de Cecil Taylor: “Somos animais, parte integrante
da natureza. Somos os poemas transitórios,” afirmou o maestro, em 1994. Falava do ciclo da vida. Quem chamou “The Circle
Game” a um dos seus primeiros livros de poesia foi Margaret Atwood – e será com
“The Atwood Suites”, e o Andrew Rathbun Large Ensemble, que encerra o Guimarães
Jazz, de amanhã a quinze dias, reunindo até lá tempo mítico, tempo histórico,
tempo geológico, tempo pessoal, o que se quiser – enfim, antes que não tenha
tempo, destaque, ainda, para a ICP Orchestra (11) e para Joe Lovano (13)!
Etiquetas:
Andrew Rathbun,
Antonio Sanchez,
Caetano Veloso,
Charles Lloyd,
Craig Taborn,
Donald Trump,
Guimarães Jazz,
ICP Orchestra,
Jazz,
Joe Lovano,
Margaret Atwood,
Rumi,
Stéphan Oliva,
Vijay Iyer
4 de outubro de 2019
Enrico Rava/Joe Lovano “Roma” (ECM, 2019)
À boleia de Julio Cortázar, Rava chamou ao seu primeiro álbum
“Il giro del giorno in 80 mondi” (Fonit Cetra, 1972). É algo que salta à
memória, agora que fez 80 anos, em agosto – e a verdade é que audição deste
“Roma” traz à lembrança as linhas iniciais do livro, quando o argentino confessava
ter sentido “mais do que nunca aquilo que torna tais os grandes do jazz, aquela
invenção que permanece fiel ao tema enquanto o combate, o transforma e o irisa”.
Serve isto para dizer que, não, contrariando as piores expetativas, o encontro
de Rava com Lovano na capital italiana não serviu, de facto, para uma cedência
total àquela superabundância de humores que possui aí o seu nicho ecológico. Ou
seja, o Rava de “L’Opera Va” (Label Bleu, 1993) e o Lovano de “Viva Caruso”
(Blue Note, 2002) não são para aqui chamados. Aliás, o trompetista piemontês e
o saxofonista de ascendência siciliana nem estão para frases feitas – e seria
óbvio dizer que cada um decidiu percorrer a menor distância entre dois pontos
para ir ao encontro do outro.
Ao invés, pressente-se em “Roma” a adesão
incondicional ao jazz como motor para transcender fronteiras, nem que seja pela
evocação simbólica de um lugar dali muito distante no mapa: Fort Worth, no
Texas, a cidade que viu nascer – e que logo rapidamente perdeu – gente como John
Carter, Prince Lasha, Dewey Redman ou Ornette Coleman. Nessa medida, reagindo
ao que fazem, talvez sempre se possa recorrer a uma maneira de falar consagrada
pelo uso, sugerindo que Rava e Lovano, cada qual à sua maneira, nunca
permitiram que se ignorasse o quanto desta história se fez de exclusão e de
inclusão, o muito da sua música que se teve de ir alimentando a dor e a afeto
em partes iguais. Com Giovanni Guidi (piano), Dezron Douglas (contrabaixo) e
Gerald Cleaver (bateria), nesta gravação ao vivo de novembro passado, tocam
‘Interiors’ e ‘Secrets’ de Rava (que troca a trompete pelo fliscorne), ‘Fort
Worth’ de Lovano, lá está, e o original ‘Divine Timing’ (também do saxofonista)
que diz tudo sobre a relação entre os músicos. Em “Note necessarie”, a sua
autobiografia, Rava terminava com um lamento: “Quem será ainda capaz de
reconhecer o valor da poesia, no jazz?” Quem escutar “Roma” andará mais próximo
de lhe responder.
Etiquetas:
Dewey Redman,
Dezron Douglas,
ECM,
Enrico Rava,
Gerald Cleaver,
Giovanni Guidi,
Jazz,
Joe Lovano,
Julio Cortázar,
Ornette Coleman,
Prince Lasha
2 de fevereiro de 2019
Joe Lovano "Trio Tapestry" (ECM, 2019)
Tinha
Lovano uns 18-19 anos, nos seus tempos de estudante, em Berklee, não havia
rádio universitária que não passasse duas canções chamadas ‘Tapestry’: uma, a de
Carole King, falava de uma tapeçaria que se podia “ver e sentir” mas que, ainda
assim, como uma mortalha, permanecia “impossível de agarrar”; a outra, a de Don
McLean, repetia mais ou menos o que Rilke havia escrito em “Cartas a um Jovem
Poeta”, que “o destino é como um tecido maravilhoso, amplo, no qual cada fio é
conduzido por dedos de uma delicadeza infinita, posto ao lado de outro fio” e,
por fim, “ligado a centenas de outros que o sustentam”. Ai, o que esta gente
não teria dado para ficar de molho no Ganges a ler a poesia de Rabindranath
Tagore: “A mesma torrente de vida/ Que dia e noite percorre as minhas veias/
Também percorre o mundo/ E dança em ritmo perfeito/ É a mesma vida que o fluxo
e refluxo do mar embalam/ O berço do nascimento e da morte.” Lovano não foi ao
Ganges, mas pelos vistos chega-lhe o Hudson e é daí que agora apresenta esta
“tapeçaria musical” pronta a entrelaçar “atmosferas e estados de espírito” e
temas de “natureza serena”. Como concluiu Borges, “a história universal talvez seja
a história de umas tantas metáforas”.
Então, numa leitura praticamente
ontológica, não é de estranhar que o disco de Lovano que menos deve à tradição do
jazz seja o mesmo que mais se dedica a refletir sobre a origem das coisas,
embora o seu autor, nos materiais promocionais da ECM, venha falar de uma
gravação que não só indica “onde estou” como também “onde estive e onde poderei
vir a estar” – devia ter na capa uma representação de Jano, o deus grego do
tempo, da mudança e da transição, com uma face virada para o passado e outra
para o futuro. Talvez por isso tanto se detetem aqui as marcas da cerimónia: em
lentas procissões guiadas por gongos, em longos sopros que se diriam durar o
tempo que demora um pau de incenso a arder, em suaves acordes que agitam as
doze notas da escala cromática como que se fossem as doze pétalas do chakra do coração. Artificioso para uns,
mas absolutamente adequado para Joe Lovano, Marilyn Crispell e Carmen Castaldi,
trio que sabe que há muitas maneiras de se chegar à fonte.
Etiquetas:
Carmen Castaldi,
Carole King,
Don McLean,
ECM,
Jazz,
Joe Lovano,
Jorge Luis Borges,
Marilyn Crispell,
Rabindranath Tagore,
Rainer Maria Rilke
23 de junho de 2018
Joe Lovano & Dave Douglas Sound Prints “Scandal” (Greenleaf, 2018)
Lovano
e Douglas entraram em estúdio a 4 de setembro de 2017 para gravar este disco,
que batizaram “Scandal”. E, de facto, tinha sido um verão perfumado por
incontáveis ofensas ao pudor. Bastava seguir o que um títere como Trump dizia pela
cimeira do G20, pela visita oficial a Paris ou pela conta de Twitter: o Presidente
declarava-se vítima de fraude eleitoral, repudiava Putin, provava-se
transfóbico, atacava o ‘Obamacare’, sancionava Maduro, condenava a “violência de
ambos os lados” em Charlottesville e ameaçava “fechar o governo” se o Congresso
não financiasse o muro ao longo da fronteira mexicana. Mas seria outro
escândalo que os músicos tinham em mente: “Nós não estamos a seguir as regras
do jazz”, explicava Douglas, num comunicado da sua editora. “O ‘escândalo’ em
questão”, prosseguia, “refere-se a esta nossa capacidade de colocar continuamente
em causa tudo aquilo que se supõe ser a improvisação”. Até porque, conforme
concluía, lidar com o “desconhecido tornou-se hoje tão raro quão arriscado”. Afinal,
sempre se está a falar de política. Por isso, porque se trata de alguém que,
diz Lovano, “na música e na vida nos inspira a sermos quem somos independentemente
das lutas sociais que tenhamos de travar”, mantêm este quinteto sob a tutela
artística de Wayner Shorter – a quem agradecem, em notas de apresentação, a
“destemida liderança em tempos tão tumultuosos”.
Aliás, em setembro de 2013,
quando Douglas, Lovano, Baron, May Han e Fields tocaram ao vivo pela primeira
vez, no Festival de Monterey, estrearam duas peças de Shorter, ‘To Sail Beyond
the Sunset’ e ‘Destination Unknown’ – daquelas cujos títulos parecem saídos do
diário de bordo da USS Enterprise, quando em “Star Trek” se anunciava que a sua
missão era “audaciosamente ir onde nenhum homem alguma vez foi” (alertem-se as
feministas: a enfermeira Chapel e a tenente Uhura também faziam parte da
tripulação). “É trabalho para uma vida inteira”, dizia Shorter, ao Expresso, em
2014, referindo-se ao facto de ser indispensável entender a “diferença entre o
bem e o mal (…) quando se exerce um ofício que nos obriga à total cumplicidade
com o momento”. E, depois, tirava a seguinte ilação: “Exprimimo-nos em termos
dualísticos mas a mim preocupa-me mais sublinhar o que há de comum em tudo
aquilo que nos separa.” Não há maior motor para o que faz, aqui, este quinteto
(que, de Shorter, toca ‘JuJu’ e ‘Fee-Fi-Fo-Fum’): cantar em honra dos que insistem
em contemplar as estrelas quando passam o dia a olhar para o chão.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







