Foi através de um par de livros publicados na última década – “The Dark
Tree: Jazz and the Community Arts in Los Angeles”, de Steven L. Isoardi, e “Improvisation,
Identity and Tradition: Experimental Music Communities in Los Angeles”, de
Charles Michael Sharp – que melhor se ficou a conhecer a ação de todos aqueles que
cerraram fileiras nas Underground Musicians Association, Pan Afrikan Peoples
Arkestra ou Union of God’s Musicians and Artists Ascension. E,
especialmente no caso da monografia de Sharp, por seu intermédio muito se
revelou acerca das contribuições específicas de Carter e Bradford para a vanguarda
criativa da cidade logo após os Tumultos de Watts. Este “Self Determination
Music”, lançado em 1970 pela Flying Dutchman, é uma peça crucial nessa história
e permite que se compreendam mais claramente as relações então estabelecidas
entre cultura e ideologia ou identidade e comunidade sob o prisma daquilo que
de mais integrativo e fundacional, no jazz, subsiste no ato da improvisação. Com
o saxofonista e o trompetista estavam Bruz Freeman à bateria e dois
contrabaixistas, Tom Williamson e Henry “The Skipper” Franklin, e dir-se-ia que
tanto propunham um manifesto de liberdade individual quanto um exaustivo
inquérito às peculiares formas de o comunicar em grupo. Por isso, os enunciados
dos seus temas são ágeis como um capricho enquanto as suas exposições se movem
tão rapidamente quão possível é forjar à pressa uma ética coletiva. O modelo, como
é óbvio, era o de Ornette Coleman, em que se tentava excluir a competitividade
da ecologia artística e ainda assim sobreviver.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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11 de abril de 2015
28 de janeiro de 2012
Luis Gasca “Collage” (BGP, 2011)
Ao serviço da orquestra de Count Basie, que acompanhava então Tony Bennett, Luis Gasca teve a sua dose de interpretações de ‘I Left My Heart in San Francisco’. Mas só anos mais tarde ecoou no seu íntimo essa história de um saudoso coração deixado no alto das colinas. Numa entrevista de 2002 para o site Jazz Review (já depois de ter sido dado como morto na biografia de Carlos Santana escrita por Simon Leng) referia-se assim à cidade californiana: “São Francisco tinha tudo o que eu precisava: mulheres, droga, música… Gastava o dinheiro todo em sexo e cocaína. Além de que era alcoólico, por isso tinha um diabo em cada ombro”. E, no entanto, aí deixou marcas num tempo que não foi só de praias loiras, mulheres douradas e drogas brancas: entre 69 e 72, o seu trompete – entre a poética deriva de Miles Davis e a agressividade harmónica de Freddie Hubbard – marcou discos de Janis Joplin, Santana, Van Morrison ou Bob Weir; uma nota de rodapé que, pela crónica inacessibilidade dos quatro álbuns gravados em nome próprio e em consequência de uma peripatética existência que fez com que durante décadas nada de si se soubesse (hoje, ao menos, tem uma página no Facebook), se confundiu com o essencial da sua produção. Mas basta ouvir “The Little Giant” (Atlantic, 69), “For Those Who Chant” (Blue Thumb, 72) ou “Born To Love You” (Fantasy, 74), nos quais combinou esforços de Herbie Hancock, Joe Henderson, Stanley Clarke, Jack DeJohnette ou Dave Holland, para se compreender que poderia ter sido outro o seu destino. O derradeiro “Collage” (Fantasy, 76), agora reeditado em CD, acentua a impressão numa majestosa sublimação do jazz latino (com arejados arranjos de Don Menza envolvendo Bobby Hutcherson, Patrice Rushen ou Harvey Mason) que se impõe simultaneamente como um adeus ao passado e uma dramática suspensão do futuro.
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