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4 de agosto de 2018

Dexter Gordon Quartet “Tokyo 1975” (Elemental, 2018)


No que parece um quarto esconso de uma modesta pensão na zona de Nova Iorque, logo a abrir o filme, naquele seu característico tom cavo e enfisemático, atravessado por dióxido de carbono e poluído por muitas mágoas, Dexter Gordon – ou melhor, Dale Turner, o extraordinário composto dramático a que o músico deu corpo em “À Volta da Meia-Noite” (Bertrand Tavernier, 1986) – despede-se de um velho amigo dizendo-lhe que está de partida para Paris: “O que é que isso vai resolver?”, pergunta o outro, “Não vai mudar a maneira como tocas”. Dale hesita, esboça um sorriso reservado como quem receia que até a alegria lhe tirem, e responde do modo mais convicto possível: “Não há olhares frios em Paris.” Podia estar a falar por experiência própria, claro. Aliás, numa “Down Beat” de finais de 1976, numa altura em que se preparava para encarnar a personagem de Ulisses (apropriadamente, o LP que viria a gravar no Village Vanguard antes do ano fechar chamar-se-ia “Homecoming”), Dexter explica-se assim: “Fui para a Europa e vivi uns anos em Paris. Mas na última década estabeleci-me em Copenhaga. É mais ou menos o meu lar, hoje em dia. Pode dizer-se que me tornei uma espécie de dinamarquês, o que é bom. Como é óbvio, aprendi muito. É outro estilo de vida, outra cultura, outra língua. Gostei. Ainda gosto. Depois, naturalmente, não havia discriminação racial, nem nada desse género. Além de que significa alguma coisa ser artista na Europa. Somos tratados com muito respeito. É uma outra mentalidade.”

Não obstante o tanto que longe do seu país encontrou – apreço, admiração, ânimo, inclusivamente audácia, para não falar já da família que constituiu –, Dexter Gordon notabilizou-se exatamente por jamais reprimir as memórias americanas que marinavam no som do seu instrumento. Ouvi-lo, então, e também, seria honrar aquilo que de mais belo havia sobrevivido à ruína de vidas inteiras, a materialização de um milagre, a forma de adorar o período em que o saxofone foi marcado por Herschel Evans, Dick Wilson, Chu Berry, Charlie Parker, Wardell Gray ou Lester Young, gente que nem à meia-idade chegou. Como não poderia deixar de ser, seria ainda uma advertência quanto à futilidade de planear o futuro, por exemplo. Mas igualmente, e incrementalmente, quanto a um facto que a geração de Gordon logo intuiu: de que, mais cedo ou mais tarde, para o bem ou para o mal, haveremos todos de sentir na pele o exílio. Por tudo isso, entre muitas coisas mais, um solo de Gordon era ao mesmo tempo mediúnico e votivo, um contínuo ato de condenação e absolvição, a tomada de consciência de que viver longe de casa não quereria necessariamente dizer que não se pertencia a lugar nenhum. Seja como for, Dexter voltou – e nesta edição, como bónus, surge ‘Old Folks’, gravado em 1977, quando tinha regressado de vez aos EUA e deixado a um continente de distância um dos melhores grupos com que havia tocado, que é precisamente o que se escuta neste concerto de outubro de 1975 em Tóquio, com Kenny Drew, Niels-Henning Orsted Pedersen e Albert “Tootie” Heath agradecendo aos mortos todo o espaço que deixaram aos vivos.

25 de julho de 2015

Xanadu Master Edition Series (Elemental, 2015)


[Albert Heath “Kwanza (The First)”; Barry Harris “Plays Tadd Dameron”; Jimmy Heath “Picture of Heath”; Al Cohn & Jimmy Rowles “Heavy Love”; Sam Most “From the Attic of My Mind”; Al Cohn, Billy Mitchell, Dolo Coker, Leroy Vinnegar, Frank Butler “Night Flight to Dakar” + “Xanadu in Africa”]
 
Dentro da cinta murada de Xanadu, segundo Marco Polo, um faustoso palácio de mármore envolvia-se em mantos frondosos e lençóis de água fresca. Recheada de riquezas, era a capital de verão de Kublai Khan e o mais literal dos modelos históricos para quem crê que a casa de um homem é o seu castelo. De modo crucial, para Don Schlitten, também assim que se chamava a mansão de Charles Foster Kane em “O Mundo a Seus Pés”, de Orson Welles. “Por isso, tem sido um nome que associamos à beleza artística e à felicidade”, diz agora o produtor a Zev Feldman, da Elemental, lembrando o batismo da empresa que fundou em meados dos anos 70 e, de certa maneira, abençoando a corrente operação de resgate. Porque a verdade é que parte deste património estava em risco de se perder. Aliás, sem entrar em pormenores, Feldman conta como muitas das matrizes fonográficas e fotográficas da editora se destruíram à passagem do furacão Sandy, em 2012.

Era uma iniciativa há muito devida. Afinal, no mercado discográfico norte-americano do período, a par de contemporâneas como a Mainstream ou a Muse – com a qual Schlitten colaborou –, a Xanadu revelou-se um destino fundamental para o jazz que fez a creche no bebop. De todas, pese embora Peter Sprague, foi até a que menos pôs o pé no esoterismo e a que mais resistiu a modas, com Sam Noto, Sonny Criss, Al Cohn, Charles McPherson, Jimmy Raney, Barry Harris ou Sam Most firmando-lhe a reputação. O flautista, por exemplo, conforme confessava em “Sam Most, Jazz Flutist”, um documentário de 2001, tinha já “caído em esquecimento”. Só de originais, “From the Attic of My Mind”, de 1978, é um exponencial exercício de controlo idiomático. No filme declarava ter telefonado a Schlitten averiguando acerca da disponibilidade em CD destes discos, tendo-lhe respondido o produtor: “Vivamos nós o suficiente para o ver”.

Como Most, também Al Cohn e Jimmy Rowles se foram antes da reedição de “Heavy Love”, uma das pérolas do catálogo. Se “As Cidades Invisíveis”, de Italo Calvino, um livro baseado nas conversas entre Polo e Khan, representa em diálogo a arquitetura da imaginação, estes duetos de 1977 não fazem por menos. Com a medida certa de escuro e a dose exata de claro, outro clássico na Xanadu é a investida de Barry Harris na dameronia, de 1975, cumpriam-se então dez anos sobre a morte do dedicatário. Trata-se de uma arte em que tudo se transforma, afirmava Jimmy Heath. O seu “Picture of Heath”, de 1975, é disso mesmo um retrato, ao regressar ao passado e ao incluir um antitético mas não menos holístico ‘Body and Soul’, em que a parte do corpo é tocada ao saxofone soprano e a da alma no tenor. “Kwanza”, do caçula dos Heath, em 1973, narrava uma estória dentro de outra e tinha a mente em África, ainda que “Tootie” tornasse de uma temporada europeia. Até solo africano conduziu Schlitten uma comitiva em 1980, resultando daí um par de álbuns que neste lote se incluem por razões puramente simbólicas. É longo o caminho para Xanadu. Venham as próximas paragens.