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7 de março de 2020

Haydn: Tullochgorum – Scottish Songs (BIS, 2019) & “The Contrast – English Poetry In Song” (BIS, 2019)

Saído da boca de Nicola Sturgeon, incumbente chefe de governo do país, e na ressaca das eleições antecipadas de 12 de dezembro, ainda há pouco se ouvia: “Não se pode manter a Escócia presa ao Reino Unido contra a sua vontade”. Dito e feito, antes de acabar o ano, num postal de Natal que Boris Johnson terá evitado pôr com os outros na consola da lareira, a líder do Partido Nacional Escocês requeria autorização a Westminster para referendar a independência. Realmente, não se imagina outro par de CD que tão bem ilustre o que deveriam ser os hábitos de audição da senhora. Por um e outro disco representar, sobretudo, um período de voraz e veemente cosmopolitismo nas respetivas nações, sim, mas igualmente por, em essência, simbolizar cada qual uma maneira radicalmente distinta de o entender: no caso escocês, e simplificando, como forma de conferir prestígio à cultura popular das classes mais desfavorecidas; no caso inglês, numa das suas muitas reificações, grosso modo, como exercício de soberania das classes privilegiadas.

Pegando em “Tullochgorum” e em “The Contrast”, de facto, escutar, no primeiro, o arranjo de Haydn para ‘The Mucking of Geordie’s Byer’, em que uma camponesa se orgulha de ter casado por amor, mesmo que tal implique passar a vida a limpar estrume na vacaria do marido, estabelece o cosmopolitismo como uma aspiração voluntária tanto quanto, no segundo, ouvir, em ‘The Lord Mayor’s Table’, de William Walton, a descrição de abundantes taças de vinhos de Bordéus, Canárias ou Reno à mesa do poder londrino o remete para o domínio dos atributos inerentes. Embora estas coisas sejam muitíssimo mais complicadas – no tempo de Haydn, a sujeição do dialeto de Robert Burns, digamos, ao idioma poético-musical vienense chegou a ser visto como crime de lesa-pátria e, já agora, os elementos menos anglicanos na obra de Walton, por exemplo, nunca foram exatamente do gosto das elites –, são também suficientemente universais para que não se dê por elas. Como estas canções, que não ambicionam a mais que ser canções e nós não deixamos em paz por nada deste mundo, pondo-as umas contra as outras tal como nos pomos, a nós, uns contra os outros. Não há cosmopolitismo que aguente.

15 de fevereiro de 2020

Evan Parker/Paul Lytton “Collective Calls (Revisited) (Jubilee)” (Intakt, 2020)


Como é que se lê, em Levítico 25:10? “Santificareis o quinquagésimo ano, proclamando na vossa terra a liberdade de todos os que a habitam. Este ano será para vós um Jubileu: cada um de vós voltará à sua propriedade e à sua família.” Certo. Mas, pelos vistos, e como costumam dizer os ingleses, algo que é, também, mais fácil de dizer do que fazer. Talvez por isso, por estarem atentos aos cabeçalhos dos jornais, e decorridos que estão 50 anos desde a sua primeira atuação pública conjunta, tenham ido Parker e Lytton buscar inspiração a um livro de Elias Canetti que reporta a acontecimentos decorridos durante a Segunda Guerra Mundial e que inclui frases tão desconcertantes quanto esta: “Em pleno dia, olhava-se para o céu e seguiam-se os rastos dos aviões como um evento esportivo. Era tão excitante!” No original, chama-se “Party im Blitz” – e trata-se, segundo os seus editores brasileiros, que o colocaram no mercado com a designação de “Festa sob as Bombas”, de uma “colcha de retalhos social tecida com fina ironia, com seus nobres decadentes e vaidosos, artistas presunçosos, emigrados e refugiados sem tostão ora deprimidos ora eufóricos.” Não admira, na era de Boris, que lhes venha à memória – logo a eles, que sempre fizeram profissão de fé na abolição de fronteiras – e que trechos aí sacados sirvam agora para batizar os temas deste CD: de ‘A Little Perplexing’ e ‘Confused About England’ a ‘What Has it Become Entangled with Now?’ e ‘England Feels Very Remote to Me’. Que é, claro, o tipo de comentários que promoviam nas plateias de há 50 anos atrás – em notas de apresentação incluídas em “Three Other Stories (1971-1974)”, Martin Davidson recordava como “despertavam a ira das falanges mais conservadoras por recorrerem àquilo que era entendido como ruído” (Lytton, aliás, militava nos White Noise)! E como é bom perceber que tanto tempo depois de “Collective Calls (Urban) (Two Microphones)”, explorando as dinâmicas de sax tenor e bateria, insistem em pôr parênteses à frente daquilo a que coletivamente chamamos música!