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4 de maio de 2019

Friends & Neighbors “What’s Next?” (Clean Feed, 2018)

Porque “New York is Now” se provaria geográfica e cronologicamente confuso, presume-se, este quinteto norueguês foi buscar o nome a outro disco de Ornette Coleman: “Friends and Neighbors: Ornette Live at Prince Street” (1970). Aquele, lá está, que abria com um coro de amigos e vizinhos cantando alegremente: “Friends and neighbors/ That’s where it’s at/ Friends and neighbors/ That’s a rap/ Hand in hand/ That’s the score/ All the world/ Small, small, small.” E um bacharel em ciências sociais diria que também aqui se propõe criar um espaço de permanente atrição entre o local e o global, entre o pessoal e o coletivo, o público e o privado, o abstrato e o material, o sagrado e o profano, etc. Isto, porque este Friends & Neighbors não será indiferente à premissa essencial de Ornette: a passagem a um bem de consumo universal e sem prazo de validade de uma prática artística circunscrita a um certo tempo e a um certo lugar. No caso, ao famoso loft de 325 m2, sito no número 131 da Prince Street, no SoHo, no qual Ornette, entre 1968 e 1974, tentou contrariar uma impressão de Nova Iorque com que tinha ficado e que havia resumido assim: “[Esta cidade] tem o preconceito embutido. Primeiro na riqueza, depois na cor da pele. E tudo o que se faz na área da música é avaliado exclusivamente em termos de rentabilidade” (in “Four Lives in the Bebop Business”, de A. B. Spellman). 

Claro que Thomas Johansson (trompete), André Roligheten (saxofone tenor e clarinete baixo), Oscar Grönberg (piano), Jon Rune Strom (contrabaixo) e Tollef Ostvang (bateria) são sensíveis ao comentário social do seu mentor, mas acima de tudo dir-se-iam influenciados pela maneira em que ele revolucionou estruturas de poder na música. Neste “What Next?” (no fundo, apenas outra forma de dizer “Tomorrow is the Question!”), em servil imitação, estão as melodias sinuosas, os ritmos irregulares, o sentimentalismo armazenado em ar comprimido de Ornette, sim, mas está igualmente a maior lição que nos deixou: um modo de organização musical comum a um conjunto de pessoas no qual cada uma pode tocar o que quiser, desde que não deixe de expressar em simultâneo aquilo que efetivamente lhe permite estar a tocar em grupo, bem como as razões pelas quais, aí e então, não está a tocar sozinha. Não é fácil de ler, quanto mais de fazer. Os Friends & Neighbors conseguem-no.

19 de setembro de 2015

Universal Indians w/ Joe McPhee “Skullduggery” (Clean Feed, 2015)



McPhee inventaria humores de modo expletivo e cospe sílabas como quem se quer ver livre de uma mordaça. A ideia que fica é que não consegue expelir o ar dos seus pulmões e, quando se dá por ele, o tom do seu trompete de bolso não é mais que um silvo. Acompanha-o o contrabaixo de Jon Rune Strom, rugoso e cheio de nós, um contorcionista feito de madeira e tripa a que se cola o som do saxofone de John Dikeman, tão intenso que, se fosse possível apanhá-lo, numa fotografia sairia sempre tremido. Entretanto ganha-se consciência das ruminações de Tollef Ostvang à bateria que, passe a redundância, lembra um batedor a abrir caminho a uma patrulha. Vão-se contando os minutos pelos dedos de uma mão e dá-se um daqueles uníssonos que se associam mais ao culminar de um concerto do que propriamente ao seu início (“Skullduggery” foi gravado ao vivo em junho de 2014). Também McPhee, aos 75, depende tão pouco de rotinas que se diria estar agora a começar a sua carreira. Noutro paradoxo, mais se enche com a música dos outros não obstante ser apenas a sua que parece tocar. É um romântico que, em 1981, por ocasião do lançamento de “Topology”, formulava as coisas desta maneira: “Os músicos encerram, em si mesmos, todas as formas concebíveis, abstratas e multidimensionais”. O escrúpulo com que procede com estes Universal Indians terá algo a ver com isso. Ou, até, com uma qualidade que disse já apreciar: a do som que se “torna praticamente tátil”. A meio do tema titular evoca ‘Knox’, um fantasma de “Tenor” (1977), e é tudo tão acrecivo que de repente não se imagina uma história do jazz antes de si.