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1 de junho de 2019

Schumann: Liederkreis Op. 24; Kernerlieder (Harmonia Mundi, 2019)


Um (Goerne) foi obrigado a cancelar compromissos em consequência de uma inadiável operação ao joelho, o outro também (Ove Andsnes), em virtude de uma lesão no cotovelo e de uma pneumonia ainda mais impostergável, quiçá – como é óbvio, a Harmonia Mundi não poderia desejar cenário mais (in)feliz para fazer chegar este CD ao mercado. Com base em leituras de Heinrich Heine e Justinus Kerner, aí está, então, “Ciclo de Canções” (Op. 24) e “Doze Poemas” (Op. 35), de Schumann – isto é, obras de um perturbado (que passou os últimos dias num sanatório, após uma tentativa de suicídio), a partir de escritos de um pobre sifilítico (que viveu oito anos acamado, antes de falecer) e de um notável estudioso de metapsíquica (que, a perder gradualmente a visão, morreu obcecado por borrões de tinta). São vidas tão comunicantes, aliás, que lendo-se certos versos de Heine (“Sonhando, meio a dormir/ Noctambulo pelo dia”) é no trabalho que Kerner dedicou ao sonambulismo que se pensa, e passando em revista certos versos de Kerner (“Partamos, então, em passo acelerado/ Rumo a essa terra estranha”) é acerca do longo exílio de Heine que se reflete. (Neste contexto, há uma frase de Kierkegaard – contemporâneo desta gente toda – que é como um hino ao Zeitgeist: “Não consigo deixar de me espantar que Kerner seja capaz de interpretar em termos tão conciliadores um fenómeno que me choca desde a primeira vez que o senti: que alguém seja capaz de expressar exatamente o que eu penso.”)

Outra coisa não terá levado Schumann à poesia – numa entrada do seu diário, por sinal, deixou clara a equivalência entre piano e palavra enquanto extensões imediatas da sua própria subjetividade (“Quando recordo a infância, atribuo-lhe tonalidades em Lá menor; quando me vem à memória setembro passado, desencadeiam-se automaticamente dissonâncias em pianissimo. Cada pensamento tem um tom que se lhe ajusta, porque, tal como um teclado precisa de ser tocado antes de soar, também o meu coração sentiu já cada um desses tons nas suas cordas.”) Aqui, ao escutar-se “A cada manhã, levanto-me e pergunto/ Virá, hoje, até mim, a minha amada?” (Heine), “Se me fosse possível louvar-te cantando/ Cantar-te-ia a mais longa das canções” (Kerner), “Mais umas horas e poderei vê-la” (Heine) ou “Canção de peito cheio/ Em tempos tão conturbados, só tu me enches de alegria o coração” (Kerner), logo vem à ideia a ansiedade de Schumann ao longo desse ano em que finalmente se dedicou à canção (1840) e em que contava os dias até se poder casar com Clara contra tudo e contra todos, escondido em cafés para a ver passar. Agora, é Matthias Goerne que prova não ser estranho nenhum à obsessão – principalmente nos poemas de Heine, hoje, não se vislumbra mais ninguém tão apto quanto ele a temperar aquele registo médio de melaço que as canções exigem com o sal da ironia e o vinagre do sarcasmo e a transformar saliva em soda cáustica quando é preciso, lançando indefesas vogais pela ravina da ditongação ou brunindo consoantes que outros teriam preferido esmerilar. Nem se imagina melhor companhia que Andsnes. Tudo, como quem se põe a olhar para o espelho em busca do vulto de Schumann com umas linhas de “Montes e Castelos” (Heine) em mente: “Bem sei – a cintilante superfície que os reflete [do Reno]/ Dá abrigo à morte e à noite.” Talvez por isso tanto se pareça a capa deste disco com metal polido.

12 de agosto de 2017

Schumann: Lieder (Harmonia Mundi, 2017)


Incapaz de beber café sem se pôr a olhar para as borras no fundo da chávena, Robert Schumann via sinais em tudo. E na poesia, desde muito cedo, encontrou uma espécie de intimação do destino, conquanto, hoje, em retrospetiva, pareça algo imprevidente na forma em como resistiu ao impulso de compor para voz. “Oh, Clara, que felicidade em escrever música para ser cantada; não a sentia há tanto”, confessava ele à mulher que amava numa carta de fevereiro de 1840, o prodigioso Liederjahr – o ano das canções. Antecipava já o som dos sinos, pois, como se sabe, após meses de extenuante batalha legal com o pai de Clara, Friedrich Wieck, o casal viria a casar-se a 12 de setembro na véspera do 21º aniversário da virtuosa pianista; isto é, de maneira muito simbólica, quando estava a horas de atingir a maioridade perante a lei. 

Do período, primeiro acompanhado por Vladimir Ashkenazy e depois por Eric Schneider, Matthias Goerne gravou já os ciclos “Liederkreis”, Op. 24 (poemas de Heinrich Heine), “Dichterliebe”, Op. 48 (idem), “12 Gedichte”, Op. 35 (Justinus Kerner) e “Liederkreis”, Op. 39 (Joseph Eichendorff), que agora invoca através de um trio de canções de “Myrthen”, Op 25 (Heine, novamente), e de outra proveniente de “Gedichte aus Liebesfrühling”, Op. 37 (Friedrich Rückert): ‘A Flor de Lótus’, em que a passagem do dia para a noite que acompanha o verso “A lua é a sua amante” raramente alcançou a presente delicadeza, ‘Tu És Como Uma Flor’, em que o barítono se aproxima em bicos de pés dos ritardandos, e ‘A Lágrima Solitária’ e ‘O Céu Verteu Uma Lágrima’, dois casos de pura alquimia. Situados a meio de um alinhamento superiormente consagrado às melancólicas canções dos tardios Op. 89 (Wilfried von der Neun) e Op. 90 (Nikolaus Lenau), com desvios numa glacial ‘Canção Noturna’, Op. 96/1 (Goethe), e numa enganosa ‘Minha Bela Estrela!’, Op. 101/4 (Rückert), é como se, em termos dramáticos, Goerne transferisse Schumann da aurora para aquele crepúsculo do qual não mais saiu. Talvez por isso cante com a fidelidade magoada de um anjo que baixou a guarda e perdeu quem deveria proteger.