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27 de agosto de 2016

Pascal Niggenkemper 7ème Continent "Talking Trash" (Clean Feed, 2016)



Não há uma designação irrevogável para as concentrações de detritos que se encontram à superfície dos oceanos e que possuem como paradigma aquela que se vai apelidando de Grande Depósito de Lixo do Pacífico ou, na caracterização de Charles Moore, Grande Sopa de Lixo do Pacífico. Em “Moby-Duck”, de Donovan Hohn, também Curtis Ebbesmeyer recorre à metáfora, aproximando-a aos giros oceânicos: “É o que acontece quando mexes a sopa com a colher e ela continua a rodar uns segundos”. Falando acerca da acumulação de materiais não biodegradáveis no Giro Pacífico Norte pela ação das correntes marítimas, dizia: “Velejavam por aí conhecidos meus até repararem num frigorífico aqui, num pneu acolá, boias de vidro de antigas redes de pesca a perder de vista, plástico por todo o lado.” A descrição traz à memória a passagem das “Vinte Mil Léguas Submarinas” em que o Náutilus atravessa o mar de sargaços. Também o cartaginês Himilcão terá referido uma zona algácea em que “bestas marinhas se movem vagarosamente”. Hoje, trabalhos de investigação como os de Moore obrigam a substituir os sargaços pelos plásticos e a admitir que mesmo nos oceanos não há besta maior do que o Homem. Numa área superior a um milhão de m2, Moore recolheu amostras desse caldo pestilento que batizou de “sopa plástico-planctónica” e no qual se reconhecem consequências devastadoras para o meio ambiente e para a cadeia alimentar. Na arte, que não apenas no fotojornalismo, a câmara de Susan Middleton retratou a situação ao imortalizar o cadáver de um albatroz que tinha morrido de fome com o bucho cheio, com 250 fragmentos de plástico nas entranhas.

Agora é o contrabaixista Pascal Niggenkemper a deixar-se inspirar por tudo isto, por esta “absurda realidade”, com o objetivo de levar esse “sétimo continente a cantar, chiar, zunir, zumbir e gritar”. O resultado, como se pode imaginar, aproxima-se da música concreta e, até, da música industrial, com os pianos preparados de Eve Risser e Philip Zoubek entremeados de objetos enferrujados e pedaços de madeira, os clarinetes de Joris Rühl e Joachim Badenhorst imitando guinchos de aves marinhas e o conjunto de flautas de Julián Elvira, que mais parece a canalização do Náutilus, como que saído das profundezas. Dotado da fantasia que o tema desmerece, é também deslumbrante.