Há
inventários fonográficos que se revelam perfeitamente paradigmáticos. No caso
de Pieranunzi pode até concluir-se que só o estabelecimento da Cam Jazz, na
qual entretanto gravou vinte discos, possibilitou uma leitura estruturada da
sua produção, facilitou o reconhecimento de traços comuns na sua escrita, proporcionou
a identificação dos modelos a partir dos quais as suas improvisações derivam (quase
sempre uma ação secundária cuja apreciação da principal em tudo depende) e conferiu
um parâmetro narrativo ao seu entendimento das relações humanas (pense-se na
longevidade do trio que constituiu com Marc Johnson e Joey Baron). Parece estar
a discutir-se literatura mais do que música. Também as notas de apresentação de
“Proximity”, redigidas por Brian Morton, seguem nessa bitola, com o crítico a registar
“o grande contributo de Pieranunzi ao longo dos anos”: resumindo, a consciência
de que só quem vive efetivamente a história se consegue em absoluto libertar dos
condicionamentos que ela impõe. O que deverá explicar a contínua revisão que o
pianista promove das suas próprias peças: aqui, ‘Simul’ provém de “Current
Conditions” (2003), ‘Sundays’ de “Ballads” (2006), ‘Five Plus Five’ e
‘No-Nonsense’ de “Dream Dance” (2009) e ‘Within the House of Night’ de
“Permutation” (2012), e a impressão que fica é a do autor de uma peça de teatro
que se apercebe, com o passar do tempo, que os seus textos se vão apegando às
personalidades dos que a palco uma e outra vez os conduzem e que só ficam
melhores por isso. Trata-se de uma dramatização que circula em duas vias, pois
também Ralph Alessi, Donny McCaslin e Matt Penman – note-se a ausência de baterista – se entregam a estes temas de um lirismo praticamente mediterrânico confessando
o que de outro modo talvez nunca viessem a dizer. É mais uma forma de falar de proximidade.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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22 de janeiro de 2016
8 de março de 2014
John Taylor "In Two Minds" (Cam Jazz, 2014)
Brian Morton, reputado avalista
que, nomeadamente através do “Penguin Guide to Jazz”, de que é coautor, há
décadas interpreta tudo o que nessa música há de intangível, principia assim a
apresentação de “In Two Minds”: “Quanto mais extensamente viaja um inglês pelo
estrangeiro, mais vívidas se vão tornando as evocações que faz das delicadas
belezas e discretas harmonias do seu país.” Isto é, ainda mais ânglico fica o
seu mundo interior. De seguida – o texto inclui-se no livreto deste CD – propõe
que possui o seu título algo daquilo que Keats descreveu como “capacidade negativa”, ou seja, a possibilidade de “o homem existir entre incertezas,
mistérios, dúvidas”. Curiosamente, uma convicção mantém John Taylor, quando, traçando
um plano de intenções na sua própria introdução a esta gravação, sublinha: “Tocar
‘dentro’ do piano, um desporto popular nos dias que correm, está decididamente
fora de questão.” Ou seja, não vai o pianista aderir ao que não acha natural
apenas por ter receio de parecer intelectualmente incompetente. Há, de novo,
qualquer coisa de Keats, aqui; olhando para a “Ambleside Suite” que domina
metade do disco, do Keats, quiçá, que passeava pela região dos Lagos, na
Cúmbria, admirando vistas ainda frescas nas telas de Turner, por exemplo, e visitando
Wordsworth. A associação não é inocente: Taylor é há 20 anos professor no
Conservatório de Colónia, cidade pela qual 200 anos antes havia passado
Wordsworth numa temporada alemã que lhe despertou saudades de casa. Porventura
é disso que fala Morton. E disto que o antigo paisagista ao serviço dos Azimuth
faz neste seu terceiro disco a solo para a Cam: pôr a potência da imaginação a
par com a da natureza.
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