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10 de agosto de 2019

Kokoko! “Fongola” (Transgressive, 2019)

Em março de 2009, em conversa, e a propósito da estreia em disco de Staff Benda Bilili, o produtor Renaud Barret recordava o momento em que pela primeira vez tropeçou na trôpega trupe: “Já [me] tinham falado de uma banda completamente louca de paralíticos e deficientes motores que tocava uma espécie de blues diferente e que normalmente dormia pelas ruas. Até que numa noite no bairro La Gombe lá estavam eles a pedir esmola junto a um restaurante caro, poiso habitual de expatriados brancos em Kinshasa. Comecei a acompanhá-los e a conhecer as suas famílias e os guetos onde viviam – foi arrasador. Mas havia música por todo o lado: reggae, hip hop, funk, rumba, estilos que misturavam com canções tradicionais e que tocavam em instrumentos construídos a partir disto e daquilo.” Dez anos depois, a comprovar que a necessidade aguça o engenho, é precisamente daí que vêm estes Kokoko!, prontos a bater à porta de todos quanto Nietzsche descreveu no célebre tratado “Culpa, Má Consciência e Afins” – aliás, na língua franca congolesa, o lingala, com a mesma origem onomatopaica, kokoko equivale ao nosso truz-truz – através de um engenhoso bric-à-brac em que se distinguem cabos de vassoura, latas de atum e de leite em pó, garrafas de plástico, embalagens de detergente, torradeiras, máquinas de escrever e baldes de tinta reprocessados. Como dizia o outro, no Congo plus ça change… Afinal, trata-se de uma terra sangrenta – a mesma que observadores internacionais juram estar a ser palco do mais cruento conflito armado no mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Na sua capital, aliás, onde se diria que a noção de apocalipse faz parte integrante do quotidiano, esteve recentemente em voga a dança la salle des morts, em que bailarinos se mexem como os zombies de “Walking Dead”, reencenando nas ruas aquela antiga ligação entre movimento e morte que Michael Peters coreografou para o teledisco de ‘Thriller’ – como se tamanho ato de libertação não se pudesse jamais confundir com a vida, reciclando-se o corpo, se preciso.

Barret completou há pouco “System K”, um documentário sobre os desapossados, desabonados e desalinhados criadores da cidade que em nome da arte andam à deriva por depósitos numa demanda por materiais descartados – entre eles encontram-se os Kokoko!, gente que vê no gesto uma metáfora para o esbulho a que o seu país é sujeito. Foi Barret que os apresentou ao produtor francês Débruit (Xavier Thomas), que por sua vez foi responsável pela principal consequência de “Fongola”: tornar-se no mais visceral e surrealmente bem-sucedido encontro entre Europa e Congo desde que Hector Zazou, Bony Bikaye, Claude Micheli e Guillaume Loizillon gravaram “Noir et Blanc”. Em 2009, quando lhe perguntei por que razão vivia em Kinshasa, Barret afirmou não conseguir livrar-se da ambígua sensação que aí o cercava: que era “a beleza no caos ou o caos na beleza” das suas artérias, nem ele sabia bem. Agora, basta ouvir este incoercível disco para perceber perfeitamente o que queria dizer.

23 de setembro de 2017

"Pop Makossa: The Invasive Dance Beat Of Cameroon, 1976-1984" (Analog Africa, 2017)


Em meados de 1975 “o disco sound explodiu a sério”, conta James Brown na sua autobiografia. “Era uma simplificação de muito daquilo que eu andava a fazer, ou pelo menos daquilo que eles pensavam que eu andava a fazer. Mas o disco é só um pequeno aspecto do funk. É o final da canção, a parte repetitiva, a malha”, esclarecia. Depois, se fosse em banda desenhada, rematava com um daquelas frases que estão mesmo a pedir um Ba-Dum-Tss num balão: “Aquilo não passa da superfície. É que eu ensinei-lhes tudo o que sabem mas não tudo o que sei.” Perguntassem-lhe o que achava do primeiro single africano – e, já agora, o primeiro single de disco sound – a entrar no Top40 norte-americano (‘Soul Makossa’, de Manu Dibango, em 1973, muito à custa do proselitismo de David Mancuso na discoteca Loft) e é provável que Brown declarasse algo do género. Aliás, nem se esperaria outra coisa. Quer dizer, nas batalhas de influência cultural, para se referir à relação entre a sua música e a do resto do mundo, que considerava hegemónica, não se imagina o ‘Padrinho da Soul’ a reconhecer, como Horácio, em Roma, que a Grécia conquistada conquistou o seu conquistador. Provou-o, em 1975, ao gravar ‘Hustle!!! (Dead on It)’, uma canção tão à vontade entre os porto-riquenhos do Bronx, em Nova Iorque, quanto por entre os camaroneses do bairro de Château Rouge, em Paris. Verdade seja dita, em relação a estes últimos, quiçá demasiado à vontade. Um deles, o compositor e intérprete André-Marie Tala (por sinal, um protegido de Dibango), ao escutá-la, percebeu tratar-se de um plágio da sua ‘Hot Koti’. Meteu-lhe uma ação em tribunal e ganhou o processo em 1978, sem ressentimentos (“Quem não desejaria ver-se um dia imitado por James Brown?”, interrogava-se numa entrevista de há uns anos a “The Boston Globe”). Nesse particular, Tala teve quase tanta sorte quanto Dibango, que em 80 e picos foi compensado num acordo extrajudicial por Michael Jackson (basta pôr a tocar ‘Soul Makossa’ e ‘Wanna Be Startin’ Somethin’’, o tema de abertura de “Thriller”). Ora exogâmicos, ora endogâmicos, são enlaces absolutamente cruciais para o entendimento do que se escuta neste “Pop Makossa”, com os obscuros Bernard Ntone, Olinga Gaston ou Nkodo Sitony, a par dos mais conhecidos Bill Loko, Pasteur Lappé ou Eko Roosevelt, a operar nestas tangentes e a sugerir muitas outras mais, com suficiente confiança em si por saberem que, na altura, alguma da melhor música do planeta não passava sem um cheirinho de makossa para ser feliz.