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15 de fevereiro de 2014

Joseph Kabasele “Le Grand Kallé: His Life, His Music” (Sterns, 2013)



Antes de mais, uma correção: ‘African Jazz Mokili Mobimba’ e ‘Miwela Miwela’, duas canções de 1962, a primeira das quais inconfundível e particularmente emblemática, estão nesta antologia gráfica e fonograficamente dispostas por ordem inversa. Trata-se de um pequeno descuido que em nada compromete o que, de outra forma, se entende por irrepreensível. Aliás, impecavelmente subintitulada enquanto “Joseph Kabasele and the Creation of Modern Congolese Music”, esta coletânea de 38 temas gravados entre 1951 e 1970, que inclui dez inéditos em CD e uma monografia de 104 páginas, em inglês e francês, consagrada a esse a quem chamavam “Le Grand Kallé”, vem não só emendar uma desatenção histórica como, também, apresentar de modo finalmente organizado o alvor discográfico da estelar African Jazz, pioneiro engenho que os livros recordam como a charanga de serviço no coreto da independência congolesa – relembre-se ‘Indépendance Cha Cha’, de 1960, praticamente composto à mesa das negociações no Hotel Plaza, em Bruxelas – e cujo novelo das idas a estúdio ficou ao longo dos anos irremediavelmente emaranhado por inúmeras compilações governadas pela aleatoriedade. Assim, e de uma assentada, contraria-se aquilo que, no que a esta música diz respeito, anda muitas vezes de mão dada: o desprezo editorial pelos arquivos e a mania que os curadores têm de escolher os caminhos mais arrevesados. Aqui, como numa parábola, vai-se desfiando coerentemente a meada narrativa a que se agarrou o bolor da colonização, da superstição e das oportunidades perdidas até se encontrar o resíduo em que originalmente se teceu o pano da emancipação política, do desassombro espiritual e da esperança, matéria-prima para um mundo que, de facto, nunca chegou.
 
A Orchestre African Jazz em Bruxelas, 1960;  atrás, da esq. para a dta: Pierrot Yantula, Nico Kasanda, Armando Brazzos e Dechaud Mwamba; na frente, da esq. para a dta: Vicky Longomba, Roger Izeidi e Joseph Kabasele

1 de agosto de 2009

"The World is Shaking: Cubanismo from the Congo, 1954-55"

De volta às trevas. E ao território em que se renovam. Ainda que, por uma vez, recordando instantes de esperança. Porque em meados dos anos 50 aí se contrariou a única evidência de séculos: a expurgação da vida humana. E na margem do rio Congo – em Léopoldville (actual Kinshasa) – mais do que duplicaram as almas. Por isso, relativizando (pois logo chegaria Mobutu), se poderá hoje falar de prosperidade. E desse tempo em que à cidade – vindos do campo, de países vizinhos ou distantes – acorreram com as suas canções milhares de emigrantes como se efectivamente tivesse chegado o amanhã. Evoca-se assim o tumulto que então se erguia fora da branca ville colonial – para lá do chamado cordon sanitaire constituído pelo Jardim Zoológico e Campo de Golfe – e que pela noite dentro crescia por bares e salões de baile da negra cité indigène. O momento preciso em que, também na rádio Congolia, artistas locais ultrapassavam o sucesso de Louis Armstrong, Trio Matamoros ou Sexteto Habanero. Tudo enquanto num passo de dança se discutia independência e liberdade. Sublinhando-o, o que se ouve nestas gravações é o som de um povo que se inventa, modernizando-se à força de não se querer deixar arrastar pela ingratidão da sua própria História. Conhece-se o que no período fizeram pioneiros da música congolesa como Henri Bowane, Joseph Kabasele, Nico Kasanda, Vicky Longomba ou Franco, aqui ausentes. E um ano mais tarde já African Jazz e O.K. Jazz precipitariam a chegada de uma nova era. Mas destes – como Adikwa Depala ou Laurent Lomande, obscuros e absolutamente inéditos em CD – nada se sabia e o mais importante se passa agora a saber: ao que soam os mortos quando regressam à vida.