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22 de junho de 2019

Lekeu: Music For Violin, Cello And Piano (Brilliant, 2019)

Em 1913, com o lançamento do primeiro volume de “Em Busca do Tempo Perdido”, imagina-se a frustração dos empregados de balcão nas mais prestigiadas casas de partituras de Paris: “A ‘Sonata de Venteuil’? Desconheço.” Bom, senão isso, qualquer coisa assim do género, pois, na verdade, consciente, quiçá, de que uma dieta à base de madalenas teria um efeito limitado no hipocampo dos seus leitores, Marcel Proust tinha-a efetivamente inventado. Pior, na altura, só Fritz Kreisler, que fazia passar originais seus por peças perdidas de Couperin, Tartini ou Boccherini – ou, 80 anos mais tarde, Zbigniew Preisner e Krzysztof Kieslowski, que, em reação à música de “A Dupla Vida de Véronique”, puseram plateias do mundo inteiro a esquadrinhar lojas de discos à cata de um tal Van Den Budenmayer. O impulso será mais ou menos o mesmo – afinal, quantas vezes não damos na arte por uma plenitude de significados ou por uma completude de variáveis naquilo em que vicariamente largamos o peso dos nossos receios e convicções? Em Proust era assim, e essa sonata imaginária permitia a seguinte reflexão: “Pereceremos, mas faremos reféns dessas divinas cativas [frases musicais]. E com elas a morte será menos amarga, menos inglória, menos provável, talvez.”

Isto, claro, por tornar espiritualmente real aquilo que nenhuma faculdade intelectual poderá admitir: a eternidade. Muito precocemente, aos vinte e poucos, nada mais que essa total aversão ao efémero intimava Guillaume Lekeu (1870-1894) quando compôs estas figuras de retórica cuja inegável expressividade deriva de procedimentos algo fantasiosos e cuja unidade temática, diz agora Bruno Monteiro [na foto], cria uma “espécie de estrutura psicológica constante”. Por isso, há quem insinue que Proust nele se inspirou ao descrever uma obra que “oculta o mistério da sua incubação” mas que possibilita a quem a escuta reconhecer “secreta, sussurrante e fragmentariamente” a música que mais ama. Lekeu não teve tempo para ler Proust, mas leu Mallarmé, que sugeriu que há “estados de alma” que apenas atingimos ao “decifrar totalmente um objeto” – isto é, quando a nossa mediação não coarta o impacto das suas ambiguidades. Lembra este belíssimo disco que foi exatamente isso que Lekeu tentou fazer à música de câmara.

23 de novembro de 2013

Mostly Other People Do the Killing “Red Hot” (Hot Cup, 2013)

Um dos mais sugestivos álbuns de 2011 foi “Science of the Sea”, reedição da música criada, em 1979, pelo biólogo marinho Jürgen Müller para servir de banda-sonora em filmes com expedições subaquáticas. Numa diáfana tessitura tão sedante quão sujeita a espumosos arpejos, dir-se-ia a mais poética representação do mar desde Debussy. Mas tratava-se de uma efabulação, imputada, desde então, ao produtor contemporâneo Panabrite. O seu ato de imaginação – mas, mais ainda, uma receção que indicia que os melómanos preferem boas estórias a boa música – trazia à memória a frase com que, em 1935, Fritz Kreisler, após assunção de que tinha sido ele, de facto, o autor de peças atribuídas a Couperin ou Vivaldi, respondeu aos reclamantes: “podem mudar o nome que o valor se mantém o mesmo”. Ou seja, substituiu uma fabricação universal, reconhecida como autêntica, por outra particular, logo tida como falsa. Mas o que estes testemunhos apócrifos provam é que sem eles não se compreende totalmente o contexto histórico a que se referem, nem, muito menos, aquele em que são gerados – além de possuírem semelhante importância devocional à que se desenvolve na apreciação do dogma. Talvez por isso, inexcedíveis em vaidade e descaramento, reincidam uns ampliados MOPDtK (adicione-se Brandon Seabrook, Ron Stabinsky e David Taylor a Moppa Elliott, Kevin Shea, Jon Irabagon e Peter Evans) na ‘arquivologia mágica’, reavivando aqui a obra dos ficcionais Brimstone Corner Boys, cuja atividade escrutinam num livreto que cruza lendas da Grande Depressão com relatos de combustão humana espontânea e evocações das cidades-fantasma da Pensilvânia. O modelo – atente-se numa capa que mimetiza a da antologia “Birth of the Hot” – é o dos Red Hot Peppers, de Jelly Roll Morton, nivelados pelo rolo compressor de décadas de convulsões artísticas. Perfeitamente voltaico.