Afinal,
não tinha ficado tudo dito, longe disso, pese embora se prossiga pelo caminho indicado
por Alton Ellis em ‘Black Man’s Pride’ precisamente, há coisa de um ano
incluído no primeiro volume desta série. Aí, escutava-se a sua voz e o que
saltava à memória era o canto do rouxinol em “A Terra Devastada”, de Eliot,
basicamente a pregar no deserto, distante do mundo dos homens, inviolável mas
incompreensível. Trata-se de um sentimento extensível a muitos dos que aqui se
ouvem, a tradução de uma monstruosidade literalmente tatuada na pele (“Oh, eu
não nasci para vencer / Pois sou um homem negro”, lamentava-se Ellis): de que viver
tão longe do sítio de onde se veio é o mesmo que morrer no meio de lugar nenhum.
Daí, quiçá, para cobrir tal distância, esta arregimentação sem precedentes
entre os desapossados de Kingston, parte de uma tribo em tudo periférica – que não
invisível – ao planeamento urbano: os rastafári. Ou seja, regressa a Soul Jazz ao
Studio One como terreno fértil para analisar o impacto da modernização nas
estruturas sociais jamaicanas, espécie de balão-de-ensaio para as experiências
mais dissociativas, através de gente como Ellis, novamente, Horace Andy, Heptones,
Gladiators, Ernest Wilson, Prince Lincoln ou Count Ossie, à frente de um
pelotão de desconhecidos que, não obstante, soube reclamar a sua quota-parte
neste ato de imaginação coletivo: o da cidade enquanto centro cívico, comercial
e cultural. Por enquanto, claro, ali entre os anos 60 e 70, entrincheirada em
bairros de lata, estava longe de o ser – mesmo se o planeta inteiro começava a
mostrar-se sensível às palavras de Bob Marley, Bunny Wailer ou Peter Tosh, cronistas
da desigualdade social com sede nas barracas de Trench Town. Aliás, volta-se à compilação
e percebe-se que, conquanto nada peregrina, a verdadeira questão, aqui, é: como
é que o lugar a partir do qual se lança a semente da transformação no mundo é o
mesmo que resiste mais a qualquer mudança? É essa a tragédia da Jamaica. E a nossa.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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18 de agosto de 2018
11 de fevereiro de 2017
Studio One Rocksteady Volume 2: The Soul of Young Jamaica (Soul Jazz, 2017)
Em notas
de apresentação, Steve Barrow, eminente cronista, historiador e zelador da
narrativa audiovisual jamaicana, esclarece que “este repertório procede direta
ou indiretamente da música soul norte-americana dos anos 60”, não obstante, a
espaços, certos temas transitarem da condição de imigrantes a indígenas. Não
está equivocado, claro. E não há assim tanta gente a saber da poda como ele.
Afinal, em 2001, na sua Blood and Fire, coligiu a obra-prima do género: “Darker
than Blue: Soul from Jamdown 1973-1980”. Mas, já agora, convirá adiantar que
nem tudo o que aqui se escuta é derivativo. Além de que no turbilhão social da
Kingston do período emerge uma diáspora urbana capaz de assimilar modas em anos
de gato. Curiosamente, por entre tamanha vertigem, o rocksteady tratava de refrear o ímpeto do ska, permitindo, entre inúmeras outras coisas, a emancipação do
baixo na secção rítmica e a introdução na lírica de assuntos dignos de ilustrar
as dores de crescimento de uma nação que se libertava do poder paternal. Nessa
perspetiva, o Studio One, de Clement “Coxsone” Dodd, era simultaneamente
consumidor e produtor de uma nova cultura que se projetava como mundana,
moderna e em constante movimento. Ouçam-se, aqui, Alton Ellis (e a sua irmã,
Hortense), Owen Gray, Slim Smith, John Holt (a solo e com os Paragons), Larry
Marshall, Heptones, Gaylads ou Delroy Wilson que logo se entenderá o impulso
básico daqueles que convertiam estímulos exteriores em experiências pessoais, dos
que se entregavam ao licencioso prazer da construção da identidade. Ou seja,
Dodd e os seus acólitos não se limitavam a olhar com inveja para a música soul.
Estavam igualmente a fazê-la. Nem se adaptavam por mimetismo a uma realidade
importada. Participavam, isso sim, de um ato de imaginação coletivo que tinha,
ainda, a vantagem de ser idealizado para as noites de baile: passado, presente
e futuro subitamente materializados no corpo de um casal; memórias, temores e
anseios a flutuar sobre a pista de dança.
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