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7 de setembro de 2019

Angles 9 “Beyond Us” (Clean Feed, 2019)


Perante a descrença generalizada, presume-se, o que apetece dizer é “Yes, Yes, Nonet” (1977), como fez Lee Konitz. Mas, aí, claro, reconhecia-se uma autoridade praticamente apostólica. Konitz foi um dos primeiros a pregar aquele evangelho segundo Miles Davis, Gerry Mulligan, Gil Evans e John Lewis que começou a tomar forma há 70 anos – como é óbvio, mais do que de sessões, fala-se dos sermões posteriormente compendiados em “Birth of the Cool”, ainda e sempre o termo de comparação para qualquer formação constituída por nove elementos, como a dos Angles 9. Não que Martin Küchen (saxofones e composição), Johan Berthling (contrabaixo), Magnus Broo (trompete), Eirik Hegdal (saxofone barítono), Goran Kajfes (corneta), Mattias Stahl (vibrafone), Andreas Werliin (bateria), Alexander Zethson (piano) e Mats Äleklint (trombone) se revelem particularmente instruídos nos princípios dessa doutrina – aliás, o inverso parece ser verdadeiro (e Küchen é mais um papa-hóstias do Mingus de “Blues & Roots”, de 1960).

Neste “Beyond Us” sobressaem práticas demasiado profanas, padrões desmedidamente pérfidos – e a sua relação com “Birth of the Cool” passa por lhe desapertar o espartilho, expor-lhe o tórax e reanimá-lo com trinta compressões. Isto, porque Küchen não ignora as técnicas de dominação presentes em todo e qualquer catecismo digno desse nome. E, tal como Mingus, dir-se-ia mais interessado nas contínuas transgressões do indivíduo (presta-se atenção ao título do disco e, já agora, ao antimarxismo de um tema como ‘Against the Permanent Revolution’, e não há, ainda, como não pensar em Foucault e no processo de subjetivação que enunciava, contrário ao das lutas identitárias tão em voga). Noutro paralelo com mais um disco de nove executantes, é quase o oposto de “Social Studies” (1981), de Carla Bley. E, em tempos recentes, só “Impressions of PO Music” (2013), pelo Ken Vandermark’s Topology Nonet, atingiu semelhante grau de transcendência – no caso, a opção por um discurso cada vez mais livre e solto de si e visceralmente alinhado, apenas, com a caótica dança do universo em seu redor.

14 de outubro de 2017

Agenda: SeixalJazz



Se não vem para a festa, nem vale a pena bater à porta. A frase é de um hino hedonista de Prince, ‘1999’, e podia descrever o pensamento da edilidade portuguesa face a António Guterres, precisamente em 1999. Afinal, tendo em conta o referendo do ano anterior, e contrariamente ao que o primeiro-ministro tinha sugerido à Comissão Nacional do seu partido, parecia que a regionalização não se tornaria efetiva no país. Autarcas de norte a sul juravam que se puxava o tapete a uma oportunidade histórica, para mais quando se estendia a passadeira vermelha à China no processo de transferência de soberania de Macau. Mas cedo se arranjou forma de replicar o estrondo do fogo-de-artifício com que a Expo’98 havia encerrado: sabendo-se que da conquista da cultura à autonomia administrativa vai um passo, mostras de todo o tipo frutificaram por Portugal. Muitas a entrar agora na idade adulta, como é costume dizer-se: Festival de Teatro de Viseu, Intercéltico de Sendim, Raízes do Atlântico (Madeira), Noites na Nora (Serpa), Correntes d’Escritas (Póvoa de Varzim), Festa do Cinema Francês (Lisboa), conquanto seja mais arriscado atribuir respeitabilidade automática ao 18º Festival de Tunas Mistas de Abrantes, como é óbvio. Também na 18ª edição vai o SeixalJazz, que decorre de 19 a 28 de outubro. Traz como principal mais-valia os quartetos de Michaël Attias (com Aruán Ortiz, John Hebert e Nasheet Waits), dia 21, de Dominique Pifarély (com Antonin Rayon, Bruno Chevillon e François Merville, na foto), dia 27, e de Lee Konitz (com Dan Tepfer, Jeremy Stratton e George Schuller), dia 28, não tanto por uma espécie de equilíbrio elementar nas respetivas formações quanto por ilustrarem na perfeição um credo comum aos melhores festivais de jazz, aquele que T. S. Eliot sintetizou no poema final de “Quatro Quartetos”: “Pois as palavras do ano findo pertencem à linguagem do ano findo / e as do próximo ano esperam por outra voz”. Seja como for, não há sombra de ventriloquismo na restante participação: Wolfgang Muthspiel (dia 19, sem o estelar elenco de “Rising Grace”, no entanto), Slow is Possible (20) e João Barradas (26). Os concertos são sempre às 22h, no Auditório Municipal do Fórum Cultural do Seixal.