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1 de abril de 2017

Trio 3 “Visiting Texture” (Intakt, 2017)


Andrew Cyrille fala de “fecundação cruzada”, na “Downbeat” deste mês, referindo-se concretamente à biologia do jazz nova-iorquino: “O resultado [obtido quando pessoas de diversas origens tentam desenvolver um trabalho comum] é mais forte que a raiz”, conclui, numa conversa a propósito deste prodigioso “Visiting Texture” e daquilo que produz no seio do Trio 3, o conjunto que partilha com outros veneráveis septuagenários, Reggie Workman e Oliver Lake, e cuja ação parece consubstancial. É um grupo de herdeiros das teses coletivistas do marxismo afro-americano de finais de sessenta, de que tiveram experiência em primeira mão: Lake no Black Artists Group, ao lado de nomes como Julius Hemphill, Luther Thomas, Baikida Carroll ou Joseph Bowie; Workman no Collective Black Artists, que entre as suas fileiras contava com figuras como Sam Rivers, Archie Shepp, Alice Coltrane ou Freddie Hubbard; Cyrille no Jazz and People’s Movement, a associação em que militavam Rahsaan Roland Kirk, Billy Harper ou Lee Morgan e que reclamava uma maior presença do jazz nos meios de comunicação de massa.

Na mesma entrevista de Ted Panken, na “Downbeat”, refletindo acerca dos problemas que podem surgir numa sessão de gravação, Workman faz a ponte com o período: “Conseguimos sempre dar a volta ao texto. Aliás, a nossa razão de ser é praticamente essa: temos como manual de sobrevivência a capacidade de fazer alguma coisa a partir do nada e acho que aprendemos a agir assim desde o início”. Lê-se o que dizem – e ouve-se o que iam fazendo em discos tão agremiados quanto “Whisper of Dharma” (Lake e o Human Arts Ensemble), “It’s Nation Time – African Visionary Music” (Workman, entre dezenas de intérpretes convocados por Amiri Baraka) ou “Jazz Composer’s Orchestra” (Cyrille, et al.) – e ganha-se acesso a uma arte pan-africana de contornos clássicos: impessoal, simbólica e rígida, mas regulada pelas tendências esotéricas dos seus praticantes; ritualista, participativa e comunitária, mas avessa à convenção.

4 de outubro de 2014

Trio 3 & Vijay Iyer “Wiring” (Intakt, 2014)



Tratar-se-á, este, de um ciclo tão irracional e ininterrupto quanto essoutro que nos faz desejar seguir um ente querido para o além? Tome-se o final de “Blues People”, de Amiri Baraka, lançado em 1963: “Não é segredo para ninguém que o Ocidente se acha agora na posição de ter de proteger os seus valores e ideais contra sistemas que lhe são totalmente hostis. E que ao negro norte-americano está a ser pedido que se engaje nessa defesa. (…) Mas na sua mente há uma interrogação (o que explica o poder de atração de grupos islâmicos): o que é, ao certo, que lhe está a ser pedido que salve? É uma pergunta legítima, e é bom que a América encontre resposta.” Pouco depois, logo que Baraka fundou a Jihad Productions, era óbvio que a questão continuava por resolver. Mas meio século mais tarde, nas suas notas de apresentação deste “Wiring”, publicadas postumamente, fica mais clara a simples ideia de outrora: esta música, que mais não é do que uma aparição num mundo em que erradamente se separa o poético do didático, serve para que se ganhe consciência de que uma sociedade se define também pela ação dos que coloca à sua margem. De acordo com tal premissa, Oliver Lake, Reggie Workman, Andrew Cyrille e Vijay Iyer dedicam aqui uma suíte a Trayvon Martin (“e a milhares como ele”), aquele acerca do qual, quando morto, Obama afirmou: “Podia ter sido eu há 35 anos”. Ou seja, só a má-fé revelará neste álbum – feito de jazz até ao tutano – o mesmo que foi sempre detetado em toda a arte livre: que, de algum modo, há algo de artificial no impulso que leva um homem a querer compreender outro diferente de si. Seja esse o ciclo que não se quer ver quebrado.