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4 de agosto de 2018

Agenda: Jazz em Agosto II


Reta final da 35ª edição do Jazz em Agosto, número que, por sinal, agradará àquele a que se consagra a sua programação, John Zorn, alguém que jamais recuou quando confrontado com o sincretismo ocultista. No tarô egípcio, por exemplo (e a capa de um dos discos de Zorn, “From Silence to Sorcery”, é ilustrada com cartas do célebre baralho de Salvador Dali), o 35º arcano promete alarmes, consternações, acontecimentos imprevistos, enquanto uma leitura mais corrente – trata-se, afinal, do 2 de paus – aponta para todo o tipo de descobertas a quem abandonar a sua zona de conforto e se abrir a novas experiências. Já o 35º anjo cabalístico (na discografia de Zorn, pense-se em “Zohar” ou na série “Book of Angels”), o da reconciliação, costuma ser invocado para aludir à importância da lealdade em matéria de heranças. Apropriadamente, numa das suas mais reveladoras entrevistas – à NPR, a rádio pública norte-americana, a 3 de setembro de 2013, no dia a seguir ao do seu sexagésimo aniversário, portanto –, Zorn disse assim: “Claro que uma pessoa não se pode sentar e compor 300 peças num período de três meses e achar que o está a fazer sem algum tipo de ajuda. (…) Sinto que há mensagens [que recebemos]. Que há anjos. Que há uma herança e uma energia. E que a podemos canalizar. (…) E eu não conseguiria fazer nada disso sem estes músicos. Porque, para mim, a música é sobre pessoas. Não é sobre sons. É sobre pessoas.” Mesmo que – ou preferencialmente que – isso signifique colocá-las em situações de algum desconforto. Nessa perspetiva, há uns anos, um dos músicos do seu círculo confidenciou-me o seguinte: “Passar da minha música para a do Zorn é como ir deitar-me, adormecer enquanto humano e acordar como inseto.” Talvez por isso tantas das suas criações dêem mostras de vibrar com frequências do inconsciente, ainda que pareçam derivar de processos de síntese relativamente simples, quase sempre envolvendo o medo. Desafios recorrentes na sua obra, a que, hoje, às 18h30, no Auditório 2 da Gulbenkian, tratarão de dar resposta os Trigger (Will Greene, Simon Hanes e Aaron Edgcomb), espécie de power trio da atonalidade. Já pelas 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre, haverá sessão dupla: com Craig Taborn, primeiro, e o trio de Brian Marsella (com Trevor Dunn e Kenny Wollesen), depois, passando em revista algumas das “Bagatelles”, temas que trazem à memória que o stride piano e o dodecafonismo foram contemporâneos. Amanhã, nos mesmos horários, Julian Lage e Gyan Riley [na foto, com Zorn], em guitarra acústica, tocarão “Midsummer Moons”, bucolicamente passível de se associar aos ritos do solstício, e a fechar o festival subirão ao palco os Secret Chiefs 3 para interpretar peças de extração levantina, de Zorn, cujo frutado aroma, nos narizes certos, se confunde com o cheiro da carne humana em decomposição.

28 de julho de 2018

Agenda: Jazz em Agosto

Há coisa de 30 anos, à revista Wire, John Zorn jurava a pés juntos que só era convidado para tocar em festivais de jazz “porque os organizadores precisam de alguém para agitar as águas e gerar controvérsia”. Interessado que estava em elevar o transtorno de personalidade a modalidade olímpica, não lhe passava pela cabeça que se referia já ao futuro habitat dos bizarros organismos que engendrava – “algo que recolhe elementos do rock, do blues, da música clássica, do folclore, e que se reúne filmicamente”, dizia. De facto, na altura, na sua mesinha de cabeceira, no topo de uma pilha de livros consagrados ao oculto, devia estar amiúde o “Frankenstein”, de Mary Shelley, a par de “On Film Editing”, de Edward Dmytryk. Aliás, o que mais atraía na sua produção era exatamente essa sua capacidade em ignorar limites, cuja raiz, presumia, eram as muitas horas passadas em frente ao televisor em miúdo – antes de “Poltergeist”, claro. Desde então, as suas técnicas e ideias parecem cada vez mais começar onde as dos outros terminam, numa zona de fronteira que se entende ter crescido dentro de si, porventura sem que o soubesse, e pela qual contrabandeia a maior das emoções na cultura popular: mostrar-nos tudo o que poderíamos ser. Porventura em honra dessa sua dimensão evangelista, e, quiçá, por nunca ter sacrificado uma posição periférica em termos artísticos, a 35ª edição do Jazz em Agosto está-lhe inteiramente subordinada. Distante daquela formação de pústulas hormonal que lhe marcou a adolescência criativa, trata-se, agora, de um conjunto de opúsculos devidamente amadurecido, embora jamais divorciado da delinquência e nos quais uma espécie de aura messiânica não chega por completo a disfarçar a centelha da megalomania. Verdade seja dita, parte do interesse desta extraordinária série de concertos será assistir à reação dos instrumentistas ao culto ctónico que a Gulbenkian promove em torno de Zorn e que tem como principal expoente a sessão dupla de hoje à noite, com o quarteto de Mary Halvorson seguido de Masada (Zorn, Dave Douglas, Greg Cohen e Joey Baron) às voltas com a escala menor melódica. Amanhã há um recital de Barbara Hannigan (19h30, com Stephen Gosling ao piano) e uma atuação de Zorn em órgão de tubos (às 21h30, com Ikue Mori no laptop); segunda (21h30), o quarteto de John Medeski, Kenny Wollesen, Trevor Dunn e Joey Baron e o trio de Marc Ribot, Dunn e Kenny Grohowski tocam “Bagatelles”, fulgurantes peças atonais escritas por Zorn em 2015; depois, destaque-se o quarteto de Kris Davis e o trio de John Medeski (quarta, 21h30), o trio de Mori, Craig Taborn e Jim Black (quinta, 21h30) e o quarteto de Matt Hollenberg, Julian Lage, Dunn e Grohowski (sexta, 21h30).

26 de agosto de 2017

Lisa Mezzacappa “avantNOIR” (Clean Feed, 2017)


Ainda este verão, na bienal organizada pela International Society of Bassists, em Ithaca, no estado de Nova Iorque, liderou um curso prático em “Música Visual”, como lhe chama – isto é, o princípio de estruturar improvisações ou estimular processos composicionais através da interação com a imagem. Recorrendo ao cânone, Lisa Mezzacappa podia ter mostrado “Fim-de-Semana no Ascensor”, de Louis Malle, explicando aos cursistas que a sugestiva banda sonora do filme foi criada exatamente assim – com Miles Davis a assistir a uma exibição privada da fita e a levar Barney Wilen, René Urtreger, Kenny Clarke e Pierre Michelot para estúdio sem um único tema escrito. E podia ter posto a tocar este seu irrepreensível “avantNOIR”, editado meses antes e com inspiração em romances policiais de Dashiell Hammett (de “Colheita Sangrenta” e “O Falcão de Malta” a “A Chave de Vidro”) e Paul Auster (o das histórias reunidas em “A Trilogia de Nova Iorque”).

Como a própria admite, o disco nasceu da sua “vontade em mergulhar nestas obras”, que invade ocultamente, torna suas e, depois, do quinteto que a acompanha: Aaron Bennett (saxofone), John Finkbeiner (guitarra elétrica), Jordan Glenn (bateria), William Winant (vibrafone) e Tim Perkis (eletrónica). “Procurei pistas para a forma em como poderia combinar as coisas”, prossegue, em notas de apresentação, “aproveitando certas deixas na linguagem, na descrição dos locais, em nomes, nos conteúdos de uma carteira, nas rotas de fuga de um carro pelas ruas de uma cidade.” Mas o contexto narrativo é praticamente irrelevante, pois, ao melhor estilo do film noir, o que interessa é a maneira em que os seus protagonistas se subtraem das circunstâncias. Nessa perspetiva dá-se aqui um diálogo paralelo entre música (jazz, algures entre o Chico Hamilton de “Mentira Maldita” e o John Zorn de “Spillane”) e som (alarmes, sirenes, campainhas) que torna a experiência auditiva acusmática, a realidade derrapando para os subterrâneos, para as sombras, para os sonhos.

3 de agosto de 2013

Pat Metheny “Tap: John Zorn’s Book of Angels, Vol. 20” (Tzadik/Nonesuch, 2013)



Será um dos mais desconcertantes factos acerca de John Zorn, o de na sua produção passar o hermético por herético. Outro derivará de não se considerar, sequer, na peculiar fundação do seu devocionário “Masada”, que a suposta ortodoxia judaica em que se baseia apenas dissimula a investigação de uma identidade cultural através da hermenêutica, impulso de qualquer consciência em crise. Sobre estas suas peças de êxtase folclórico, contrariando quem lhe apontava a violência evangelista, disse já não se tratarem de tábuas da lei como as que Moisés trouxe do monte Sinai. Ilustra-o “Book of Angels”, o livro com cerca de 300 composições por si escrito em finais de 2004, origem da homónima série na editora Tzadik e prévio espaço de invenção para iconoclastas como Erik Friedlander, Mark Feldman, Sylvie Courvoisier, Joe Lovano, Uri Caine ou Marc Ribot. Este novo volume é precisamente o que se esperaria do Metheny solista: o arquetípico bucolismo de “New Chautauqua” (1979) ou a solene hinografia de “One Quiet Evening” (2003) aplicados a genéricos modos do Médio Oriente – das partituras de Zorn manteve pouco mais que melodia – numa fase em que explora as delirantes e libertadoras orchestrionics (conferir em “The Orchestrion Project”, editado em fevereiro). Aproximando-se ambos dos 60, parecem, compositor e guitarrista, ainda mergulhados num imaturo transe de hormonas e estudo, leituras e fantasia, sempre que a situação o requer. Pat aventura-se por insólitas paragens – no último tema, ao piano, sugere o que faria Cecil Taylor se descobrisse Emahoy Tsegué-Maryam Guèbrou – e desdobra-se por uma dezena de instrumentos. Acompanhado por Antonio Sanchez à bateria, procede como um miúdo numa loja de doces: quer todo o açúcar e nenhuma das consequências em o comer.

27 de julho de 2013

John Zorn @60 no Jazz em Agosto



 (crédito: Chad Batka para o New York Times)
Há uma imagem que – transferida para a área da música – se cola à pele de John Zorn desde meados dos anos 80: a do insone viajante noturno, de apetite voraz, funambulesca moral e distorcido sentido de justiça, que manobra aguçando instintos predatórios pelas artérias da cidade de Nova Iorque numa espécie de torpor metafísico – um pouco ao jeito do Travis Bickle, de “Taxi Driver” –, fixando-se patologicamente na dissimulada observação da degradação urbana e enleando numa psicótica teia mental os detritos que lhe entopem veias, telas e vielas. A produção dos Naked City – o grupo que, em 1988, formou com Bill Frisell, Fred Frith, Wayne Horvitz e Joey Baron – representará o ápice de tal perspetiva, afetada que está não tanto pela caleidoscópica e compendiosa reconfiguração de tantos livros de estilo do fenómeno musical, mas, antes, pela sua sujeição a um primado que estabelece a validade estética de qualquer fonte de ruído na organização desse mesmo fenómeno. Na altura, quando se tinha de ‘explicar’ o impossivelmente denso som de Zorn recorria-se àquela frase que se ouve em “Spillane” (1987): “Sinto-me como se tivesse fumado um maço inteiro de cigarros e me esquecido de deitar o fumo para fora”. Se “Naked City”, o filme que, em 1948, Jules Dassin realizou a partir do homónimo álbum fotográfico de Weegee, rematava que entre as “oito milhões de histórias na cidade nua”, tinha apenas contado “uma delas”, já a banda de Zorn parecia disposta a relatá-las todas. Numa entrevista do período – incluída pelo seu condutor em “American Composers – Dialogues on Contemporary Music” –, Edward Strickland mencionava essa estrutura, elíptica e elidível, aludindo a um desmembramento dionisíaco, e Zorn respondia: “Stravinsky trabalhava em blocos; Ives também se interessava por bizarras justaposições; e, claro, tudo o que saía da televisão era assim. […] Cria-se algo que recolhe elementos do rock, do blues, da música clássica, do folclore, e que se reúne filmicamente, como no ato da montagem. [...] De uma maneira que levanta mais questões do que gera respostas”. A revista Wire de março de 1989, numa referência a Zappa, essoutro enciclopédico conceptualista, chamava-lhe “jazz do inferno” e incluía este depoimento: “Para a semana vamos [com os Naked City] ao festival de jazz de Montreux, mas a cena do jazz pode ser uma chatice. Acho que somos convidados para tocar em festivais de jazz porque os organizadores precisam de alguém para agitar as águas e gerar controvérsia – é esse o meu papel”.

Um quarto de século mais tarde, não tendo por um segundo abrandado o seu acelerado metabolismo, e mantendo uma certa aversão juvenil ao mundano, nem Zorn é já esse necrófago turista do apocalipse, nem se pode dizer que dependa estritamente de polémicas para fazer chegar a sua mensagem ao grande público ou, muito menos, que – num processo análogo àquele que levou a geração do minimalismo dos lofts até aos auditórios das elites – não é precisamente em festivais de jazz que encontrou o habitat natural para as suas mais transversais apresentações. Sim, permanece um hábil contorcionista, tentado pelo maximalismo, bordejando, quiçá oportunisticamente, diversas tangentes culturais, promovendo tão ecléticos quão fortuitos curto-circuitos artísticos, expandindo-se como um organismo vivo essencialmente adaptável ainda que eminentemente autónomo. Mas, embora hemorrágica, obsessivamente hermética e ostensivamente arcana, a verdade é que a sua emissão assume hoje contornos canónicos e de paradigmática relevância no seio da arte de vanguarda: só nos últimos quatro anos, e sempre através da editora que fundou em 1995, a Tzadik, publicou cerca de 35 discos com obras suas. E, ainda que levando a costumeiros paradoxos – são perfeitamente singulares e excêntricas construções cuja disposição serial torna menos distintas; possuem características demasiado intersticiais para suportar a sua contínua catalogação temática, etc –, é inegável a excelência interpretativa de que se revestem. Em novembro de 2011, Zorn falava sobre o seu percurso ao sítio Altered Zones: “Posso seguir a minha inspiração desde a ideia inicial até à escrita, ao ensaio, à atuação, gravação, mistura, masterização, design, fabrico, lançamento e distribuição de determinado projeto, e em todas essas etapas estou rodeado por um coeso grupo de amigos, ao meu lado há 10, 20 ou 30 anos. […] Mas a insulação deu-se por necessidade. Foi a única forma que arranjei para me certificar de que aquilo que queria fazer ia para a frente”. Há muito que a retórica de Zorn, num particular em que se incluirá o seu entendimento do judaísmo – incontornável desde a fundação do quarteto Masada, em 1994, não obstante a rejeição pública da ortodoxia sionista –, se socorre do isolacionismo. No livreto da caixa “The Parachute Years” – a antologia com insólitos registos captados entre 1977 e 1981 – escrevia com irónico fatalismo acerca de “uma triste e solitária vida de alienação e exílio autoimpostos”, e no documentário de Claudia Heuermann, “A Bookshelf On Top of The Sky”, afirmava: “Para mim, um artista é alguém separado da sociedade que deve seguir a sua própria visão sem se comprometer ou sofrer influências destas nefastas forças que nos rodeiam e que querem a todo o custo impedir que uma voz que seja venha dizer: o mundo pode ser um local diferente”.

E outra coisa – que não a expressão de todas essas coisas diferentes que, segundo Zorn, o mundo pode ser – não promulga a série de eventos “Zorn@60”, uma itinerante e plural digressão por espaços europeus, asiáticos e norte-americanos que, a pretexto do seu sexagésimo aniversário (efetivo a 2 de setembro), lhe traça o mais ambicioso retrato de que há memória. Ao Jazz em Agosto leva alguns dos seus mais antigos e valorosos cúmplices – Marc Ribot, Jamie Saft, Trevor Dunn, Kenny Wollesen, Joey Baron, Cyro Baptista e Ikue Mori – para três noites temáticas: sexta, dia 2, com o charmoso e exótico repertório de The Dreamers, destila uma talismânica inspiração em Baxter, Denny ou Lyman, sábado, 3, recupera parcelas emblemáticas do seu trabalho em bandas-sonoras acompanhando a projeção de filmes de Joseph Cornell, Maya Deren, Wallace Berman e Harry Smith – tratam-se possivelmente dos fascinantes “Rose Hobart” (1936), “Ritual in Transfigured Time” (1946), “Aleph” (1956-1966) e “Oz: The Tin Woodman's Dream” (1967) – e domingo, 4, sobe ao palco com Electric Masada, a sempre extática e amplificada revisitação de ilustres páginas do seu cancioneiro de extração folclórica. Paralelamente a isso, ao final da tarde de sábado e domingo, exibe-se o DVD “John Zorn’s Treatment for a Film in Fifteen Scenes”. Não se sabe o que ficará de tudo isto, mas talvez não haja pressa. Afinal, como contava no número de maio de 2009 da Jazz Times, Zorn não vai a lado nenhum: “O que faço requer muitos sacrifícios, até em termos pessoais. Uma pessoa com filhos tem de lhes dedicar pelo menos metade da vida. Já no meu caso os meus filhos são as composições, os discos, as atuações, e a minha família é o meio musical. Por isso não é assim tão estranho fundar o Stone ou a Tzadik. Estou aqui para ajudar a mesma comunidade que sempre me alimentou. Não vejo televisão nem leio revistas ou jornais. Concentro-me inteiramente na minha arte. É essa a minha prenda para o mundo; é para isso que estou neste planeta”.