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8 de dezembro de 2018

Wayne Shorter “Emanon” (Blue Note, 2018)

Há coisa de quatro anos, pelo telefone, pergunto a Wayne Shorter acerca da sua relação de trabalho com a Orpheus Chamber Orchestra. “Tem piada”, comentou ele. “Reuni-me com um representante da orquestra, que me disse: ‘Já sei como é que vamos fazer isto’. E eu respondi-lhe: Ah, sim? Como? Ele vira-se para mim e exclama ‘Shazam!’, colocando uma figurinha de ação do Capitão Marvel em cima da mesa! Sabe o que isso quer dizer, não sabe?” Hesito, apanhado de surpresa, até que sugiro: Que ele também crê no multiverso? Shorter ri-se, a chamada cai e eu fico a achar que ele foi parar a outra dimensão. Não seria de estranhar. A conversa tinha passado pelo universo dos super-heróis (“O Miles foi o Batman do jazz”), da banda desenhada (“Fiz uma, aos 15 anos, chamada ‘Other Worlds’”), da física (“Os cientistas conduzem hoje o seu trabalho improvisando”), da psicologia (“Em termos cognitivos, o músico de jazz é um herói do tempo de reação” – e “rt’s hero” é um anagrama de Shorter) e, claro, por universos paralelos propriamente ditos (“No quarteto, é quando está cada um a puxar para seu lado que o portal se abre!”). 

Pois, então, aí está Shorter, de regresso a esta realidade, como se não tivesse decorrido tempo algum. Aliás, uma das últimas frases que aqui se lê (“Emanon” é composto por uma BD e por três CD) é uma das últimas que ouvi saídas da sua boca em 2014: “Só seremos responsáveis por produzir, realizar e protagonizar a nossa própria existência quando concretizarmos todo o potencial que há em nós”. Dir-se-ia a síntese das aventuras de Emanon pelo multiverso! Na BD, a caracterização do personagem, ilustrada por Randy DuBurke, sugere o retrato de Shorter que Billy Dee Williams pintou em meados de 80 para a capa de “Atlantis”. Também ‘The Three Marias’, um tema inspirado pelo processo judicial contra as autoras de “Novas Cartas Portuguesas”, remete para o período – surge agora numa versão orquestral e noutra com o quarteto que Shorter mantém há 18 anos com Danilo Pérez, John Patitucci e Brian Blade. Mas, pelo menos no CD com a Orpheus, “Emanon” traz mais à memória “High Life” (1995), quando se adivinhava que Shorter viria a pegar naquela tradição norte-americana – pense-se em Adams, Bernstein e Copland, para se ficar pelo início do alfabeto – que viu na pauta o que os pioneiros haviam enxergado na pradaria: um recomeço. Entre gravações de estúdio e ao vivo e repertório antigo e inédito, “Emanon” nem tem de ser o disco mais conseguido da sua carreira: basta revelar-se o que mais lhe honra o potencial de disrupção, prova de que mantém os superpoderes intactos. Shazam!

18 de abril de 2015

Billie Holiday "God Bless the Child: Best Of…" (Verve, 2015) & José James "Yesterday I Had the Blues: The Music Of Billie Holiday" (Blue Note, 2015) & Cassandra Wilson "Coming Forth By Day" (Sony, 2015)



Caso lhe viesse a pegar, não seria difícil imaginar a sua reação. Ficaria a olhar, com aquela máscara estampada no rosto, variando sucessivamente entre o “escárnio, uma certa impaciência e uma profunda tristeza”, conforme a caracterização de Max Jones em “Jazz Talking” (um livro de crónicas em que o jornalista do “Melody Maker” recorda o tempo passado com a cantora durante a sua deslocação ao Reino Unido, em 1954), e pela sua cabeça talvez se formasse qualquer coisa parecida com o que escreveu Plath em “Um Presente de Aniversário”: “Isto, sob este véu, o que é/ Será feio, será bonito”? Não obstante, por se dedicar essencialmente à música, e por equilibrar facto e fantasia num momento em que a realidade virtual vale mais do que a verídica, “The Musician and the Myth”, a biografia que lhe acaba de consagrar John Szwed (autor de “Space is the Place: The Lives and Times of Sun Ra” ou “Alan Lomax: The Man Who Recorded the World”), é a melhor prenda que Billie Holiday poderia receber neste mês em que faria 100 anos. Começa assim: “Os que tentaram escrever sobre si descobriram que há muitas Billie Holiday: uma jovial e alegre, outra amargurada e destinada a sofrer; uma que guincha como uma gaiata e outra que murmura como uma mulher madura.” E prossegue desta maneira: “Coloquem 50 ou 60 fotos suas em cima da mesa e vão ver uma figura corpulenta e uma sílfide coberta de seda, uma africana e uma asiática, uma petulante miss e uma bêbada incurável, o retrato de uma condenada num registo criminal e o sorriso de uma mãe de família em pose com um animal de estimação.”

Isto é, tanto quanto a sua voz, acredita-se que também a sua cara nunca mentiu. Acerca da cantora em início de carreira, por exemplo, escreveu Alice Adams em “Listening to Billie”: “De repente ali está ela, e todos o sabem, ainda que tenham de rodar o pescoço para trás para a ver, porque entrou pela porta principal do clube como se fosse uma pessoa qualquer. Ou melhor, como se não fosse, de todo, uma pessoa qualquer: ela é mais bela e cintilante do que os demais, inclinando a face para a frente como se fosse cheirar uma flor, confiante e ansiosa, vigilante e amável, maçãs do rosto claras e altas, um sorriso imaculado, de gardénia creme atrás da orelha.” Desta Billie colocou-se há pouco no mercado a antologia quádrupla “Lady Day: The Master Takes and Singles” ou “The Centennial Collection” (ambos Sony), uma compilação de 20 temas. Já Maya Angelou, no autobiográfico “The Heart of a Woman”, descreveu uma “mulher doente e só, com a boca em forma de cais”. É dessa que “God Bless the Child” se ocupa: da que morreu em 1959, aos 44 anos, e que, de facto, já então cantava como se tivesse atingido os 100.

A seleção reúne gravações captadas entre 1952 e 1957 e originalmente lançadas em lúgubres LP da Clef e da Verve como “Billie Holiday Sings”, “Music for Torching”, “Lady Sings the Blues” e “Songs for Distingué Lovers”. O sádico de serviço foi José James, que naturalmente escolheu repertório confundindo o sujeito do enunciado com o sujeito da enunciação. Nessa perspetiva, dir-se-ia mais uma vítima da estratégia que Holiday gerou quando já não conseguia mobilizar a ambiguidade e atribuía uma espécie de dimensão biográfica pré-existente a textos que muito a precederam. Era a Billie do drama e trauma contínuo. A Billie em que memória e ficção se infiltravam uma na outra deixando-lhe a identidade em cacos. A Billie cuja disfunção se media pelo seu próprio alcance metafórico, personificando mágoa, traição, saudade, rejeição. Até a linguagem lhe doía, reduzindo as palavras a cemitérios de letras e patenteando um arsenal de gemidos e grunhidelas, roncos e rosnadelas a representar o impronunciável, um fôlego possuído pelas partículas que lhe tiravam anos à vida. Ainda assim, o seu instinto colocava-a sempre do lado das canções.  

Não admira que James, neste “Yesterday I Had the Blues”, venha agora prestar homenagem a quem “transformou a tragédia em arte”. Ou, muito menos, que seja abordando canções do mesmo espaço poético que Cassandra Wilson a evoque com “Coming Forth By Day”. Possuem o mérito de não problematizar o luto mas parecem irradiar de um centro narcísico semelhante, ainda que provenham de estéticas diametralmente opostas: James acompanhado por um trio (Jason Moran, John Patitucci, Eric Harland) que evoca o tipo de classicismo pelo qual Holiday nunca se interessou; Wilson rodeada por membros dos Bad Seeds (Thomas Wydler e Martyn Casey), por T-Bone Burnett, Nick Zinner ou Van Dyke Parks, imprimindo aos materiais uma afetação a que, apesar de tudo, Holiday sempre tentou resistir.

23 de março de 2013

Wayne Shorter Quartet “Without a Net” (Blue Note, 2013)



Começa a navegar por mares conhecidos – num férreo ostinato conduzido pela mão esquerda do pianista Danilo Pérez que, para ouvintes cúmplices, espelha o exercício exclusivamente dextro de Herbie Hancock na precedente gravação deste ‘Orbits’, em 1967 incluída em “Miles Smiles” – mas nem por isso ilude os interesses da aguda inteligência que lhe guia o caminho. De facto, Shorter – esteio do ‘segundo grande quinteto’ de Miles Davis e paradigmático ideólogo da função multiculturalista do jazz desde a fundação dos Weather Report em 1971 – opera num raro quadro cognitivo que, combinando distinta intelectualidade com um atraente abstracionismo, coloca, com frequência, ao serviço de uma caprichosa imaginação. E “Without a Net”, o seu primeiro álbum em oito anos, novamente ao vivo, e no qual reincidem intérpretes que até a sonhar devem realizar as fantasias uns dos outros – Pérez, John Patitucci e Brian Blade –, só podia resultar da ação daquele que, cruzando a ductilidade própria da memória com ágeis raciocínios e os mais espirituosos juízos, jamais teve de desperdiçar energias a disfarçar falta de originalidade. Quase octogenário, decano do hard bop, experto fusionista, titular de uma espantosa inconguência – a do grífico improvisador – e de regresso à casa, a Blue Note, em que – não se fazendo por menos – gravou duas mãos cheias de obras-primas, Shorter permanece no topo das suas divinatórias faculdades, e o seu oblongado, adunco e declamativo saxofone soprano insiste em cartografar os mais sinuosos e inóspitos terrenos. E nunca como em ‘Pegasus’, tema de cerca de vinte minutos em que se acopla ao grupo o quinteto de sopros Imani Winds, capaz de inaugurar um abismal conceito: a peça de câmara, de fluxos minimalistas, que se supõe conseguir exaltar mesmo as mais tumultuosas liturgias das denominações cristãs afro-americanas.