É
fácil, na literatura: puxa-se do chavão do bildungsroman
e todos sabem ao que vão. É como deitar uma página de um diário à rua: a moral
pessoal ganha contornos didáticos, o mais íntimo anedotário prova-se pedagógico.
Se necessário, exploram-se as reservas de emoção de um povo inteiro em proveito
dos alegóricos êxtases formativos do indivíduo. No capítulo das antologias, não
se pode dizer que outra coisa se tenha passado na música deste século. Ou seja,
editoras como Vampisoul, Honest Jons, Soul Jazz, Soundway ou Analog Africa não
estão mesmo a fomentar um encontro entre extraviados fonogramas e as mais
avançadas técnicas de arquivologia empregues na sua conservação. Procedem de
modo muito mais correto: sem camuflar assimetrias reais e dispensando a
proteção da distância social, dedicam-se simplesmente à escuta daqueles que se
tentam conhecer a si próprios dentro de um labirinto de vinil. É o caso de
Lucas Silva, proponente da superação de anacronismos pela via dos colombianos Son
Palenque. O seu esforço e desespero, mas também o seu oportunismo, sintetiza-se
no subtítulo de uma compilação que organizou em 2002: “Visionary Black Music
from Underground Colombiafrica”. Entretanto, já Palenque de San Basilio foi
adotado pela UNESCO e já a Soundway editou “Palenque Palenque”. Mas só agora,
recorrendo ao melhor de LP lançados entre 1983 e 1986, em que figuram Michi
Sarmiento ou Abelardo Carbonó, se forma, com laivos de sessão espírita, uma memorável
apresentação deste preclaro conjunto que anunciava de onde vinha antes ainda de
se perceber ao que soava: ao abismo histórico que para sempre une e separa África
e América do Sul.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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20 de dezembro de 2014
27 de agosto de 2011
Michi Sarmiento “Aqui los Bravos! The Best of Michi Sarmiento y su Combo Bravo 1967-1977” (Soundway, 2011)
À data destas gravações estava a Frente Nacional no governo, grupos paramilitares (FARC, ELN ou EPL) no mato e uma mão-cheia de cartéis em metástase pelo país inteiro, o que algo dirá sobre o sentido de urgência aqui observado. Mas não se trata apenas disso. Porque outros – como Fruko y Sus Tesos, Wganda Kenya ou Afrosound – melhor corresponderiam a um impulso antológico que procurasse traduzir musicalmente o perigo, a paranóia e o delírio que então se estendiam pela sociedade colombiana. Apuram-se os instintos dos organizadores Roberto Gyemant, Will Holland e Miles Cleret, que, por exemplo em “Colombia! The Golden Age of Discos Fuentes”, sempre privilegiaram a excentricidade artística em detrimento de uma mais abrangente representação cultural. Crucialmente, o saxofonista Michi Sarmiento garante a primeira sem prejuízo da segunda. Nascido em Cartagena em 1938, o filho do maestro Clímaco Sarmiento amadurece com a moda do merecumbé (a fusão do merengue e da cumbia celebrizada por ‘Pacho’ Galán) e com uma febre modernizadora que actualiza para salões de baile – e bordéis – danças como o porro ou o mapalé. À sólida educação e à experiência desde cedo acumulada dever-se-á uma inclinação formalista cujas bases permanecem contrariadas por uma imperiosa necessidade de subverter tradições – um dos seus primeiros êxitos foi ‘La Vaca Nueva’, resposta a ‘La Vaca Vieja’, antigo sucesso do pai. Inextrincavelmente associado à editora Discos Fuentes e a Joe Arroyo (falecido há um mês), absorveu o impacto da produção afro-cubana e nova-iorquina da Fania com a disposição de um acelerador de partículas, mas foi ultrapassado pela vertigem saloia do vallenato e tecnológica do reggaeton, miragens recentes de uma utópica visão por si patenteada.
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