Respira
a noite em Bamako. Há um longínquo rumor que é próprio do mundo, mas, aí, no
bairro de Ntomikorobougou, a pouca distância do corredor verde que liga a
Câmara Municipal, o Jardim Botânico, o Museu Nacional e o Jardim Zoológico, é o
descomprometido balido de um cordeiro, o desinteressado berro de uma cabra ou o
estridular cortês de um grilo que se ouvem, até que, do telhado de sua casa, como
quem alumia a escuridão, começa delicadamente Ballaké Sissoko a tocar a corá. Tem
a seu lado Vincent Segal, como, aliás, tem sido costume nos últimos seis anos,
desde que os dois lançaram “Chamber Music”. Ao violoncelo, em pizzicato, o
francês parece imitar as pegadas dos vizinhos que, cansados de rezar, assomam à
soleira da porta em busca de conforto ou, pelo menos, de algo para contrapor à
realidade das notícias. Nessa semana de 12 de janeiro, uma tão boa como outra
qualquer para a esperança morrer, tinha inclusivamente dado nos telejornais: o norte
do Mali permanecia a ferro e fogo e em Paris e demais capitais europeias sucediam-se
as manifestações de solidariedade às vítimas dos atentados – todos eram Charlie.
Num depoimento reproduzido no CD, Segal recorda essas inusitadas sessões de gravação:
“Foi como se o bairro inteiro tivesse de ouvir a corá e o violoncelo para
conseguir finalmente dormir como uma criança. Os vizinhos, pela manhã, apareciam
a dizer que mesmo entregues ao sono nos tinham continuado a escutar.” Daí, quiçá,
e não pela adesão ao modelo cultivado por John Field e logo desenvolvido por
Chopin, a evocação titular do noturno: porque esta música acalenta o sonho.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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7 de novembro de 2015
2 de fevereiro de 2013
Ballaké Sissoko “At Peace” (No Format, 2012)
Certamente que Ballaké Sissoko
prescindiria do atual cenário de guerra civil no Mali em detrimento da plena
compreensão da utópica mensagem subjacente ao enunciado “At Peace”, inesperada designação
que tanto congrega espíritos agitados pela incerteza quanto, paradoxalmente, e
em última instância, obriga a reconhecer na música mandinga um espaço de
concórdia para manobras contemporâneas marcadas pela submissão ao
multiculturalismo. E apenas esta específica arregimentação tem distinguido
negativamente as escolhas do mestre da corá (nas colaborações com Liu Fang ou
Ludovico Einaudi, por exemplo), que, não obstante, gera agora o seu mais conseguido
disco em nome próprio desde “Déli” (Label Bleu, 2000). Aliás, uma das
consequências da presente proposta será levar a crer num contínuo estético –
indissociável de aspetos socioculturais mas por esses menos condicionado – para
a tradição dos músicos de louvor, cujas multífluas emanações dependem de
retrospeção e prospeção. Assim, não surpreende que, na sua abrangência, “At
Peace” seja subsidiário direto de “Chamber Music”, o ensaio de 2009 com o
violoncelista Vincent Segal (aqui produtor e interveniente), e indireto de “New
Ancient Strings”, o álbum de duetos entre Sissoko e Toumani Diabaté, de 1999. Mas
confirmando que de esperança se trata, o agente decisivo nesta expansiva ação é
Aboubacar ‘Badian’ Diabaté, um guitarrista sobre o qual, na mítica configuração
sugerida por Banning Eyre em “In Griot Time” (Temple University Press, 2000),
se leu antes de se poder ouvir. Pirotécnico borrifador de notas, revela-se um
hipnotista de primeira ordem que aparenta partir dos fraseados das cantoras wassoulou (afinal, é casado com três) mas
que jamais compromete a estrutura de cada tema com a sua quase indecente
velocidade. Poucos lhe refreariam a hipérbole desta maneira. Notável.
© Images : Colin Solal Cardo
Sons & Mix : Henri D'Armancourt
Production : La Blogotheque
Remerciement : Laurent Bizot & La famille Carter
© Images : Colin Solal Cardo
Sons & Mix : Henri D'Armancourt
Production : La Blogotheque
Remerciement : Laurent Bizot & La famille Carter
31 de julho de 2010
Ballaké Sissoko & Vincent Segal “Chamber Music”
Terá muito que se lhe diga encontrar num título a felicidade. E embora não se defina exactamente assim o que no império mandinga produziram os griô, só uma leitura inflexível deixaria de lhes reconhecer na acção semelhanças com a tradição da Música de Câmara. E porque tem hoje de lidar com a reprodução mecânica aquele que figurava socialmente como um conservador – Ablaye Cissoko chamou-lhes “as bibliotecas de África” – multiplicam-se, da electrificação em Ba Cissoko à revisão do be bop no Kora Jazz Trio, sinais de que também os bardos africanos exploram estilos pessoais para lá da ortodoxa sujeição à narrativa histórica. Ballaké Sissoko será, aliás, e a par de Toumani Diabaté e Djeli Moussa Diawara, dos mais empenhados em renovar a música mandinga com base na kora. Desde que com Diabaté gravou, em 1999, o paradigmático “New Ancient Strings”, surgiu com Kandia Kouyaté ou Bako Dagnon, lançou o fundamental “Déli” e partiu para uma série de colaborações que foram, frequentemente, parar ao lado errado da fusão (“Le Son de Soie”, com a chinesa Liu Fang, ou “Diario Mali”, com o italiano Ludovico Einaudi, são pastiches onde não se percebe quem copia o quê). Felizmente, saíram-lhe melhor as parcerias no projecto 3MA e esta, ao lado do violoncelista Vincent Segal, onde, efectivamente, se pressente algo do espírito da música clássica. Forçando a relação, possuirão os duetos atmosferas comuns a peças para harpa e violoncelo de Villa-Lobos, Lou Harrison ou Isang Yun, embora mais depressa evoquem a Penguin Cafe Orchestra de “Signs of Life”. Mas interessará antes confirmar como falam a uma só voz, adaptando-se a diferentes escalas modais, vagueando pelo globo, desenhando arabescos, emaranhando-se nas 21 cordas da kora as quatro do violoncelo, estalando notas como elásticos até, por fim, nada mais subsistir que o seu próprio movimento, para lá da memória, no ponto preciso em que o novo se inicia. E aí, ficam desarmantes.
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