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1 de maio de 2020

Simon Nabatov "Plain" (Clean Feed, 2020)

Nasceu em 1959, emigrou, com a família, de Moscovo para Nova Iorque em 1979, mudou-se para Colónia em 1989, gravou os seus mais consistentes discos em 1999 (“Sneak Preview”, “Nature Morte” e “The Master and Margarita), e outros três em 2009 – enfim, nessa medida, a carreira de Nabatov é uma espécie de sonho molhado da numerologia. Não admira, então, que “Plain”, a cobertura de açúcar para o seu mil-folhas fonográfico, tenha sido captado em 2019, pese embora a ambição do pianista em produzir algo “simples, claro e inteligível” (diz ele, em notas de apresentação). Mesmo a versão que, aqui, faz de ‘House Party Starting’, de Herbie Nichols, se revela algo antitética: “Sem ornatos nem enfeites, muito serena”, explica – uma festa que vai começando, mas que nunca arranca verdadeiramente. Esclarecimento que, por sinal, traz à ideia as palavras de A. B. Spellman, em “Four Lives in the Bebop Business”, acerca do tema, precisamente: “Uma melodia adorável e nada complicada, que Herbie repete com subtilíssimos cambiantes de andamento e cor – a atenção de quem escuta focada nas variegadas reiterações dessa sua ideia inicial.” Com Nichols, e não só, Nabatov aprendeu a pegar com pinças em formas canónicas, a levá-las ao limite não tanto pela quantidade de material ilícito que lhes foi introduzindo no âmago mas, sim, por transformar o que de mais subversivo possuía em criações tão universais que se diria adaptarem-se instantaneamente às estruturas mais rígidas. Em ‘Cry From Hell’, por exemplo, peças soltas, desajuntadas, coalescem inesperadamente num corpo desenvolto, ou convulsivamente num choro, para ser exato: piano, clarinete (Chris Speed), trompete (Herb Robertson), contrabaixo (John Hébert) e bateria (Tom Rainey) a dividir mesa na Confeitaria Colombo com Chiquinha Gonzaga e Villa-Lobos, não obstante o que tocam soar mais a ‘Conversa de Botequim’, de Noel Rosa, o Rio com um pé fora da Belle Époque. Em ‘Ramblin’ On’, Robertson guturaliza um texto que coincide parcialmente com um verso de Eliot, que diz: “Para a maior parte de nós, apenas há o momento/ Isolado, o momento dentro e fora do tempo.” Para Simon, não. É simples.

13 de março de 2010

Antônio Carlos Jobim "Minha Alma Canta"

Consumido por uma perene frustração, Almir Chediak desabafou um dia com o seu aluno Moreno, filho de Caetano, quanto à absurda desadequação dos livros de partituras para violão face ao real interesse dos seus executantes. E porque proficiência no “Concerto de Aranjuez” serviria saraus familiares mas dificilmente conquistaria corações impunha-se uma simples questão: porque não – passando canções ao papel – facilitar a vida aos fãs de Caetano, Chico, Gil, Djavan ou Vinicius? Entre 1989 e 2003, ano do seu assassinato, Chediak organizou esses “Songbook” criando a editora Lumiar e, a partir do volume dedicado a Noel Rosa, produzindo um CD em que cantores consagrados interpretavam temas dos homenageados. Jobim, na sua derradeira fase de absoluto sincronismo – em que cabiam samba, impressionismo, a Mata Atlântica bordejando o litoral e o Sabiá anunciando a Primavera, e em que perdia a voz à medida do desaparecimento da Amazónia – teve na série as catorze participações aqui reunidas. Apoiado na Banda Nova – dos jobins, morelenbaums e caymmis – e nas vozes de Chico, Leila Pinheiro e uma sublime Gal, torna suas páginas de Vinicius, Noel, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Edu Lobo, aproveitando, como sempre, para relembrar a todos o que é ser-se brasileiro.