Com
‘Alekouma’, um tradicional griô gambiano, cai o pano deste notável “Tribute to
Ndiouga Dieng” (já agora, falecido em dezembro do ano passado, Dieng foi um
antigo vocalista da Orchestra Baobab) e Florent Mazzoleni, responsável pelas
notas de apresentação do disco (e autor de uma série de biografias de música
popular africana com mais buracos do que a EN17 perto de Seia), mal se apercebe
da ironia com que descreve as intenções de Balla Sidibé para o tema (Sidibé é hoje
o principal cantor da banda): “Primeiro, pensou dedicá-la ao presidente da
Gâmbia, Yaya Jammeh [sic]; depois,
considerou destiná-la ao presidente senegalês, Macky Fall [sic], até que, como isto da política é complicado, optou por não a oferecer
a ninguém.” Certo… Não fossem as gralhas, claro, e caso não se pudesse retirar
de ‘Alekouma’ a seguinte moral: bom e sério é o homem que se mantém fiel aos
seus princípios e firme nas suas intenções. Por outro lado, é verdade que escreve
acerca de uma gente de tal maneira pragmática que, em 2002, sem especial
jactância, atribuiu a si mesma o epíteto “Specialist in All Styles”. Aliás, na
sua fase de arreigado nacionalismo, quando entraram em vigor os valores
culturais sintetizados no conceito négritude,
de Léopold Senghor, intitulava-se Orchestre du Bawobab. Era o tempo em que, na
sala que lhe tinha verdadeiramente dado o nome, o clube Baobab, em Dakar, os
seus membros atendiam a pedidos de homens de negócios, estadistas ou diplomatas
que, dados ao sentimento, tanto queriam ouvir clássicos de charangas cubanas
dos anos 50 quanto folclore uolofe, fula e mandinga ou melodias de Casamansa. Agora,
apesar de há uma década nada se saber de si, e depois de umas quantas mudanças
no elenco, é essa peculiar competência que se revalida num prodigioso registo
que, no fundo, nada mais faz do que aquilo que sempre fez: seguir atrás do
muito que de si saiu… Até se reencontrar.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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8 de abril de 2017
6 de fevereiro de 2016
“Senegal 70: Sonic Gems & Previously Unreleased Recordings from the 70’s" (Analog Africa, 2015)
Aconselha a prudência que se mencione a apocrifia de grande parte das histórias deste “Senegal 70”.
“Músicos em digressão por Paris, como Youssou N’Dour, chamavam-nos para tocar
com eles”, diz Max Dia, dos Fangool, referindo-se a uma altura em que N’Dour não
devia ainda ter carta de condução, quanto mais passaporte. “Quando entrámos em Abijão
fomos conduzidos para o canal de televisão estatal e, em virtude de insistentes
telefonemas de Papa Houphouët, ficámos três horas no ar”, conta King N’Gom
acerca da apoteótica chegada da Super Star Band à Costa do Marfim, apelando a
que se imagine o presidente do país a tarde inteira colado à TV, ligando para a
RTI à medida que ia cortando relações diplomáticas com a União Soviética, alimentando
a dissensão em países vizinhos ou o diabo a quatro. “Laye Thiam foi para o
Congo e ouvi dizer que também aí teve grande sucesso, a ponto de ter sido
contratado para acompanhar James Brown no concerto que ele deu em Kinshasa”,
avança Pape Diallo, lembrando o trompetista da Star Band e sem jamais ter visto,
só pode, “Soul Power”, o filme com a atuação de Brown no “Zaire 74”, em que o
cantor surge escoltado por Maceo Parker, Fred Wesley e demais J.B.’s. Já o
rigor obriga a que se sublinhe o anacronismo do subtítulo. ‘Bour Siné’, de
Saourouba de Louga (e o andamento a puxar para o mbalax torna a conclusão já por si evidente), procede dos anos 80,
a mesma década em que tinham um pé a Gëstu de Dakar de ‘Ndiourel’ e a Tropical
Jazz de ‘Kiko Medina’, um tema de Arsenio Rodríguez. Por sua vez, esta ‘El
Carretero’, de Guillermo Portabales, a que dá corpo Amara Touré, provém dos
anos 60, quando o guineense se contava ainda entre as fileiras da Star Band.
Mas ouçam-se os inéditos (‘Bour Siné’ e ‘El Carretero’, mas igualmente ‘Africa’,
da Orchestre G.M.I., ‘Massani Cissé’, da Orchestre Laye Thiam, e sobretudo ‘Ma
Penda’ e ‘Thiely’, da Orchestra Baobab, esta uma versão de ‘Achilipú’, do El
Gran Combo de Puerto Rico, nas vozes de Médioune Diallo e Thione Seck) que logo
se fica com vontade de atirar a prudência e o rigor pela janela. É quando o
facto dá lugar à fantasia que, no Senegal, a música almeja a transcendência – esta
antologia relembra-o.
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19 de setembro de 2015
Amara Touré “1973-1980” (Analog Africa, 2015)
Atribuída
a Amara Touré, surge num livro do etnomusicólogo Wolfgang Bender esta
interrogação: “Para nós, africanos, será a música latino-americana um conceito
assim tão estranho? Creio que não. Atente-se ao samba brasileiro, à percussão,
aos ritmos da bateria. Sinto-o como parte da nossa cultura.” Podia estar a
referir-se ao “fluxo e refluxo” entre o golfo do Benim e a baía de
Todos-os-Santos, mas o seu campo de ação foi mais amplo. Nasceu na Guiné, cresceu
no Senegal e, no fecho da década de 50, como timbaleiro, ingressou na Star Band
de Dakar com o gambiano Laba Sosseh, o nigeriano Dexter Johnson e o
cabo-verdiano José Ramos. Como Amadou Balaké em relação aos Ambassadeurs, o seu
conhecimento do vernáculo rítmico afro-cubano facilitou-lhe a promoção a
vocalista, ainda que só foneticamente dominasse o espanhol. Nas lascas saídas da
Star Band, acompanhou Sosseh na Super International e Johnson na Super Star. Em
“Afrolatin: Via Dakar” (Syllart, 2011) estão três temas por si cantados, provenientes
de sessões em Iaundé, nos Camarões, quando tocava no Ensemble Black &
White, e fica claro que ninguém, nem mesmo Laye Mboup e Thione Seck na
Orchestra Baobab, se adaptou como ele à languidez desse repertório. Solta a voz
e imaginam-se pares tão agarrados, e de movimentos tão lentos, que se diria estarem
a dançar num campo minado. Esta antologia, que se reputa integral, revela mais três
canções desse período, além do LP que, em 1980, gravou em Libreville com o conjunto
Massako, em cujas fileiras havia sido admitido. Desapareceu sem deixar rasto em
meados de 90. Permanece inesquecível.
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8 de fevereiro de 2014
Mar Seck “Vagabonde – From Super Cap-Vert To Number One: Unreleased Recordings 1969-80” (Teranga Beat, 2013)
Há coisa de um ano, preso a uma
cama do Hôpital Principal de Dakar, Mar Seck falava para o gravador do grego
Adamantios Kafetzis – o agente por detrás da Teranga Beat – e, naturalmente, a
par de tudo aquilo que viveu, e de um apropriadíssimo prenome, consigo estava o
hálito das oportunidades perdidas: “Pape Seck, que foi como um irmão mais
velho”, dizia, “quis levar-me para os Africando, mas adoeci e no meu lugar
seguiu o Medoune [Diallo, vocalista da Orchestra Baobab].” De facto, dir-se-ia
desenhado à medida do seu cândido tenor esse projeto que desde 1993 arrosta a
aura atlântica. Ouça-se, aliás, “Viva Africando”, editado em setembro pela
Sterns, para se verificar a firmeza dessa, passe a contradição, vaporosa
estética crioula de que Mar Seck comungou. É o que perfila este “Vagabonde”,
agora reunindo material do cantor e compositor, quase todo inédito, cuja
transitoriedade acabou por espelhar o ideário da modernidade senegalesa. Não
deixa de ser terrivelmente poético que pela maior parte dos temas da compilação,
novamente masterizados, sopre um inquietante silvo digital, o som próprio da
negligência fonográfica: resgatados a sessões radiofónicas de 1969 com os Super
Cap-Vert, trata-se de sete testemunhos praticamente arcaicos, face ao iminente
programa cultural da négritude, arrastados,
então, pela perfumada corrente que, via rumba congolesa, chegava ainda das
Antilhas, e que aqui se cruzava com dolentes eflúvios cabo-verdianos. Já de
acordo com o plano oficial, um trio de canções de 1973 com a Star Band de Dakar
e um par extraído a uma atuação de 1980 com a Number One de Dakar não anuviam o
que tudo deve à quimera. Essencial.
4 de maio de 2013
Royal Band de Thiès “Kadior Demb” (Teranga Beat, 2012)
Como tantas vilas na costa
ocidental africana, Thiès desenvolveu-se de acordo com imperativos coloniais,
devendo-se o ímpeto fulcral para o seu crescimento à construção de um entroncamento
ferroviário que agilizou a comunicação entre Dakar e o resto do país, e, ao fim
de décadas de empreitada, concretizou a junção com a linha vinda de Bamako, no
Mali. O surto de atividade comercial deu origem a uma fixação de populações
migrantes – de diversas etnias e nacionalidades – e ao correspondente aumento do
tecido urbano, com os seus bairros residenciais, pequenos negócios, praças e
mercados, bares e restaurantes. É o tipo de cidade na região que, desde a
independência, se desfaz em nostalgia e se revela perversamente indiferente ao
progresso. Em agosto de 2004, o grego Adamantios Kafetzis, colecionador de
discos, brindava a glórias passadas num bar local, transportado por uma banda para
um tempo sem retorno. Descobriu que o distinto barítono que o enfeitiçava em palco
era o de Adama Secka, cantando ao lado da vetusta Royal Band de Thiès. A
continuação da história é familiar: Secka conduziu-o a James Gadiaga, antigo
vocalista do grupo, ex-Super Diamono e atual Super Cayor, que por sua vez lhe
entregou uma preciosa fita, na sua posse há 25 anos – imaculadas gravações de
1979 realizadas por Moussa Diallo, o mesmo que registou álbuns de Youssou
N’Dour com a Étoile de Dakar, de Pape Seck com a Number One ou o mítico
“Pirates Choice”, da Orchestra Baobab. O que aí ouviu – e que agora edita neste
“Kadior Demb” – é o mesmérico som dessa gente em trânsito, vaporizando formas
cubanas, embriagando ritmos tribais, vivendo o sonho a cada nota na guitarra
elétrica e a cada baforada no saxofone, algo tão essencial e vibrante quanto a
própria vida e tão belo e inesquecível quanto esses símbolos da modernidade
senegalesa, até hoje perdido na noite.
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