Afinal,
não tinha ficado tudo dito, longe disso, pese embora se prossiga pelo caminho indicado
por Alton Ellis em ‘Black Man’s Pride’ precisamente, há coisa de um ano
incluído no primeiro volume desta série. Aí, escutava-se a sua voz e o que
saltava à memória era o canto do rouxinol em “A Terra Devastada”, de Eliot,
basicamente a pregar no deserto, distante do mundo dos homens, inviolável mas
incompreensível. Trata-se de um sentimento extensível a muitos dos que aqui se
ouvem, a tradução de uma monstruosidade literalmente tatuada na pele (“Oh, eu
não nasci para vencer / Pois sou um homem negro”, lamentava-se Ellis): de que viver
tão longe do sítio de onde se veio é o mesmo que morrer no meio de lugar nenhum.
Daí, quiçá, para cobrir tal distância, esta arregimentação sem precedentes
entre os desapossados de Kingston, parte de uma tribo em tudo periférica – que não
invisível – ao planeamento urbano: os rastafári. Ou seja, regressa a Soul Jazz ao
Studio One como terreno fértil para analisar o impacto da modernização nas
estruturas sociais jamaicanas, espécie de balão-de-ensaio para as experiências
mais dissociativas, através de gente como Ellis, novamente, Horace Andy, Heptones,
Gladiators, Ernest Wilson, Prince Lincoln ou Count Ossie, à frente de um
pelotão de desconhecidos que, não obstante, soube reclamar a sua quota-parte
neste ato de imaginação coletivo: o da cidade enquanto centro cívico, comercial
e cultural. Por enquanto, claro, ali entre os anos 60 e 70, entrincheirada em
bairros de lata, estava longe de o ser – mesmo se o planeta inteiro começava a
mostrar-se sensível às palavras de Bob Marley, Bunny Wailer ou Peter Tosh, cronistas
da desigualdade social com sede nas barracas de Trench Town. Aliás, volta-se à compilação
e percebe-se que, conquanto nada peregrina, a verdadeira questão, aqui, é: como
é que o lugar a partir do qual se lança a semente da transformação no mundo é o
mesmo que resiste mais a qualquer mudança? É essa a tragédia da Jamaica. E a nossa.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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18 de agosto de 2018
20 de fevereiro de 2016
Count Ossie and the Mystic Revelation of Rastafari “Tales of Mozambique” (Soul Jazz, 2016)
Açulado por berros, urros e uivos, que na sua banda-sonora faíscam
como relâmpagos numa noite escura, ‘Tales of Mozambique’, o tema-título deste
fabuloso LP, dá voz aos medos do homem branco. Pelo menos, a tanto ambicionava
Sam Clayton, filósofo e orador da seita rastafári, quando se punha a recitar a estória
de como um naufragado, febril e sedento Vasco da Gama, no dia de Natal de 1492,
ao ter finalmente dobrado o Cabo da Boa Esperança, foi dar à costa moçambicana,
de como foi salvo por gentes que aí viviam em perfeita liberdade e de como,
logo de seguida, as traiu. “Desde então,” conclui, “foi só sangue, suor e
lágrimas para o povo moçambicano. Mas a luta continua!” E grita este “a luta
continua” assim mesmo, em português de punho erguido, e nem a Frelimo faria melhor.
É curioso. Até porque “Tales of Mozambique” foi lançado em 1975, já após os
Acordos de Lusaka e no ano em que se formalizou a independência do país. Seria de
esperar que a Soul Jazz falasse no assunto. Mas a editora prefere passar a
palavra ao filho de Count Ossie, e Sam Williams acha que o
disco é “como um livro de História”. Dificilmente. A não ser num mundo em que
não se verifiquem os factos, pois nada do que aqui se conta tem a ver com a
verdade: não tem o 1492, que queria à viva força fazer coincidir a chegada de
Gama a Moçambique com a de Colombo às Bahamas, não tem a referência ao Natal e menos
ainda a assunção de que teria sido o navegador a instituir a escravatura na
África Oriental. Nem Gama foi Bartolomeu Dias. Mas o mal estava feito e em 1976
era Hugh Masekela a cantar: “Everybody sez that he’s to blame/ For all
colonization”. Este asco a Vasco não viu Camões. Enfim, seja como for,
igualmente importante é não esquecer que este descomprometimento específico com
a realidade só nasceu porque houve quem quisesse evocar uma experiência que não
conhecia mas cujas dores não parava de sentir, e lembrar uma existência que
por mais remota que fosse não cessava diariamente de lhe assomar ao espírito. (No original,
para não se perder o sotaque) Ossie disse: “Yah know, man was anxious, all o’them time, to
know the answers to puzzles about himself and his race.” É a isto que soam.
É curioso. Até porque “Tales of Mozambique” foi lançado em 1975, já após os
Acordos de Lusaka e no ano em que se formalizou a independência do país. Seria de
esperar que a Soul Jazz falasse no assunto. Mas a editora prefere passar a
palavra ao filho de Count Ossie, e Sam Williams acha que o
disco é “como um livro de História”. Dificilmente. A não ser num mundo em que
não se verifiquem os factos, pois nada do que aqui se conta tem a ver com a
verdade: não tem o 1492, que queria à viva força fazer coincidir a chegada de
Gama a Moçambique com a de Colombo às Bahamas, não tem a referência ao Natal e menos
ainda a assunção de que teria sido o navegador a instituir a escravatura na
África Oriental. Nem Gama foi Bartolomeu Dias. Mas o mal estava feito e em 1976
era Hugh Masekela a cantar: “Everybody sez that he’s to blame/ For all
colonization”. Este asco a Vasco não viu Camões. Enfim, seja como for,
igualmente importante é não esquecer que este descomprometimento específico com
a realidade só nasceu porque houve quem quisesse evocar uma experiência que não
conhecia mas cujas dores não parava de sentir, e lembrar uma existência que
por mais remota que fosse não cessava diariamente de lhe assomar ao espírito. (No original,
para não se perder o sotaque) Ossie disse: “Yah know, man was anxious, all o’them time, to
know the answers to puzzles about himself and his race.” É a isto que soam.5 de setembro de 2015
V/A “Rastafari: The Dreads Enter Babylon 1955-1983” (Soul Jazz, 2015)
Em ‘Tales
of Mozambique’ o que se escuta é qualquer coisa como isto: “Os acontecimentos
de hoje transformam-se na história de amanhã/ Consequentemente, uma nação que
não conheça a sua história passada é como uma árvore sem raízes”. Acompanhado
pela ilustre Mystic Revelation of Rastafari, Count Ossie parafraseava Marcus
Garvey. E, seguindo o exemplo de Ju Ju ou Archie Shepp, estava atento ao que se
passava em Moçambique. A canção – de modo deslumbrante povoada de primitivos
gritos, urros, berros e grunhidos insurretos – mostra alinhar-se com a ordem
natural das coisas, forçosamente pré-histórica, pois a história, essa, como se
sabe, havia saído da pena do colonizador. Por isso, a certa altura, o português
que se ouve parece saído da boca da Frelimo: “A luta continua! A luta
continua!”. Estava-se em 1975. Com o verão chegaria a independência e, um ano
depois, em ‘Mozambique’, já Bob Dylan cantava sobre as bonitas mulheres e praias
do país e, em ‘Guiné Bissau, Moçambique e Angola’, Tim Maia só vinha “Aqui para
lhe dizer/ Que eles agora estão/ Numa relax/ Numa tranquila/ Numa boa”.
Curiosamente, palavras que se associam aos rastafáris. É desses que a Soul Jazz
se ocupa nesta antologia. De Count Ossie, claro, mas também da leitura da
profecia segundo Johnny Clarke, Laurel Aitken, Ras Michael, Bongo Herman ou
Ashanti Roy. Isto é, evita-se aqui o confronto com pesos-pesados (Abyssinians,
Burning Spear, Augustus Pablo, Max Romeo, Dennis Brown, Gregory Isaacs, U-Roy
ou, como é óbvio, Bob Marley), reforçando-se a retidão moral a que todos
ambicionavam mas que poucos souberam suster.
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