Eram oito, quando, em “Introducing…”,
assomaram a uma duna aparentando avistar do Mar Vermelho ao Atlântico; volvidos
dois anos, em 2008, quedavam-se desfalcados de um par de elementos em “Desert
Crossroads”; em 2010 resistiam cinco sujeitos na capa de “Tarkat Tajje”. E mal se
deu por tão evidente subtração. Mas agora são quatro os membros do grupo
nigerense Etran Finatawa. E, se não fosse tão óbvio que do inverso se trata, dir-se-iam
aos poucos engolfados pelas areias do Sahel. Porque, num gesto análogo ao ensaiado
pelos Tinariwen em “Tassili”, este “Sahara Sessions”, gravado em tendas
montadas num camarção, contém uma crucial advertência: a de que dificilmente se
acha hoje lugar no deserto para aqueles que aí sempre estiveram como em casa. Nómadas
tuaregues e wodaabe, os Etran Finatawa cantam a tristeza de ter o homem
conseguido o que a natureza jamais alcançou. Num terreno dominado por
insurgentes islamitas – oriundos do nordeste maliano mas também provenientes da
Líbia, Argélia e Chade –, em que se projetam raptos, atentados a multinacionaise assaltos a reservas de urânio, fala a banda – e, em “Anewal”, a solo, um dos
seus militantes – do maior dos paradoxos e da manutenção da mais desolada
esperança: encontrará refúgio na sua terra quem nunca se considerou de país algum?
E, voltará a partir ao sabor do vento esta caravana que tudo vislumbra onde
outros nada veem?
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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5 de outubro de 2013
11 de maio de 2013
Bombino “Nomad” (Nonesuch, 2013)
Na última década, o fantasioso e
subversivo ‘blues do deserto’ – promulgado por Tinariwen, Toumast, Terakaft,
Etran Finatawa, Tartit ou Tamikrest – ilustrou na perfeição o estágio final da
utopia para itens musicais ameaçados, convertendo-se de remota causa
faccionária em acessível marca registada para consumo universal, com as suas comitivas
de agentes e sedes oficiais de dissensão, o mais zeloso séquito e o Rough Guide
da praxe, não dispensando sequer – na sua ascensão a símbolo mundial da
guerrilha urbana, apto a disputar a popularidade do lenço de Arafat – de uma elementar
etapa degenerativa. Será, presumivelmente, ao que se referem todos quanto, na
resenha a este terceiro ensaio de Bombino, ressalvam, por exemplo, as comprometedoras
condições de produção de “Nomad”, com gravações rigorosamente vigiadas por Dan
Auerbach, vocalista dos Black Keys – uma banda com a qual, aliás, e caso
tivesse o mínimo conhecimento da sua atividade, até se vislumbra o extático guitarrista
nascido no Níger a simpatizar. Mas, mais hipotético que efetivo, tal
branqueamento surge contrariado pelo essencial do sucessor de “Guitars from
Agadez, Vol. 2” (captado no terreno pela Sublime Frequencies, em 2007, no
seguimento de uma sessão consagrada ao Group Inerane) e “Agadez” (Cumbancha,
2011), que mais não faz do que prolongar uma cândida e branda – e em permanente
oposição aos acontecimentos recentes – mensagem de paz para o povo tuaregue.
Por sinal, atua de forma pouco imaginativa, liofilizada e embaraçada por uma
conceção genericamente rudimentar do blues
rock de travo psicadélico, evocando uma estratégia há 45 anos aplicada pela
Cadet a álbuns de Muddy Waters e Howlin’ Wolf, mas a verdade é que a esperança
ainda supera o marketing. Valha-nos
isso.
3 de setembro de 2011
Bombino "Agadez" (Cumbancha, 2011)
Numa cedência aos mais puros impulsos fantasistas inerentes à teogonia dos deuses da guitarra, a editora promove “Agadez” como a estreia de Omara ‘Bombino’ Moctar, embora admita também que outras gravações a precedem sem que refira aquela que primeiro lhe granjeou reputação no ocidente, “Guitars from Agadez, Vol. 2”. Essa antologia – em 2007 registada in situ por Hisham Mayet para a Sublime Frequencies – oscilava entre cordatas baladas acústicas e violentas torções à estirpe do blues-rock que se associa à música tuaregue, e, à sua luz, este novo álbum entende-se como a maturação de um estilo que atribui agora gravidade às antigas meditações e transforma em catarse o desprendimento outrora empregue em mantras elétricos. Mas o reconhecimento da discografia – o que explica a sua omissão dos materiais biográficos – padroniza um percurso que nada tem de normal. Nascido no deserto do Ténéré, no Níger, em 1980, Bombino viveu o exílio por duas vezes: em criança, durante a Primeira Rebelião Tuaregue, ao mudar-se com a família para a Argélia e, em 2008, já comprometido politicamente com a Segunda Rebelião Tuaregue, ao fugir para o Burkina Faso após a execução de dois membros da sua banda. Foi aí que o descobriu Ron Wyman, antigo colaborador de Michael Moore e Bill Maher, encontrando assim um símbolo para o seu documentário “Agadez, the Music and the Rebellion”. Wyman levou Bombino para os EUA, onde lhe produziu metade de um disco que, graças ao acordo de paz entretanto atingido entre os rebeldes e a junta militar que traça o destino do Níger, viria a ser terminado em casa. É esta a história. A música, essa, é quase tão boa: uma investida em modas que se imaginam milenares por um guitarrista capaz de evocar o mais seco em Ali Farka Touré, atmosférico em Manuel Göttsching (Ash Ra Tempel) e esotérico em Richard Thompson.
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