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3 de dezembro de 2016

Sugestões de Natal



Bruckner: Sacred Works (Deutsche Grammophon, 2016)
Dir-se-ia mais um rebento das sacristias da Alta Áustria, de vida dedicada ao órgão, não fosse a autoria de uma obra sinfónica que o arrancou pouco a pouco da sombra das epístolas. Mas também na música sacra se destacou. Aqui está a “Ave Maria” e a “Missa em Ré menor”, com que começou a dar nas vistas, bem como os mais radicais “Te Deum” e “Salmo 150”, o tal em que Mahler ouvia a língua dos anjos.



Charpentier: Pastorale de Noël (Harmonia Mundi, 2016)
Quando Mignard pintou o retrato de Maria de Lorena, a Duquesa de Guisa, completou-o com uma cartela em que se vê uma só árvore cercada de cepos, ilustrando Maria como a última da sua linhagem, facto consumado em 1675. É nesse lutuoso contexto que surge esta obra de Charpentier, consagrada a Jesus e aos pastorinhos. Termina numa referência à vida eterna. Pudesse ela vir acompanhada de música desta.



Pärt: The Deer’s Cry (ECM, 2016)
Parecerá absurdo sublinhar que este programa de obras sacras corais de Arvo Pärt se assemelha a um exercício de cantochão quando os membros do Vox Clamantis dão mostras de levitar a cada compasso, mas talvez o ponto seja exatamente esse. Inclui a beata “Os Três Pastorinhos de Fátima” (do Salmo “Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos suscitaste o louvor”), composta após visita à Cova da Iria.



Schubert: Lieder (Harmonia Mundi, 2016)
Mayrhofer, Schiller, Goethe e Müller foram as estrelas guia neste estranho firmamento, a projeção do consolo e do anseio, da solidão e da saudade, do luto e do desejo. Não se imagina figura mais apta a dar-lhes voz que Schubert tal como, hoje, não se vislumbra maior intérprete seu que Goerne. Editados entre 2008 e 2014 (destacando-se Leonskaja e Eschenbach ao piano), estes discos são testamentais.




Dixit Dominus: Vivaldi, Mozart, Handel” (Alia Vox, 2016)
Confuso, cruel e bélico, o texto é redundante logo a abrir, com aquele “Dixit dominus Domino meo” (do Salmo “O Senhor disse ao meu Senhor”). Daí, tamanho esmero retórico: Vivaldi compondo em Ré maior (majestático, pomposo, magnificente), Mozart em Dó maior (puro, inocente, devoto) e Handel em Si bemol maior (claro, brilhante, frontal). Neste, Savall atinge a transcendência.



Alison Balsom “Jubilo: Bach, Corelli, Torelli, Fasch” (Warner, 2016)
Cá está o famoso “Concerto Grosso”, de Corelli, dito Concerto de Natal, em nova orquestração, com Balsom, na trompete barroca, capaz de modelar cada nota até ao ponto de sugerir um solitário raio de sol a romper o céu por entre as nuvens. Já nos corais de Bach, acompanhada no órgão por Stephen Cleobury, recorre à trompete de válvulas e é como se mil velas viessem alumiar a escuridão que nos cerca.



“The Art of Nikolaus Harnoncourt” (Warner, 2016)
Ainda surpreendem, “Sonho de Uma Noite de Verão”, de Mendelssohn, e a sinfonia “Do Novo Mundo”, de Dvorak, para não falar já do impacto do seu Beethoven de início dos anos 90 (aqui, na segunda e quinta sinfonias). Mas é pelo que fez em obras de Monteverdi (logo com “L’Orfeo”, em 1968), Biber, Vivaldi ou Bach que Harnoncourt se afirmou como um visionário. Faleceu em março. A sua arte sobrevive-lhe.



Gidon Kremer “Complete Concerto Recordings” (Deutsche Grammophon, 2016)
Começou do lado de lá da cortina de ferro, até que, em 1979, se liberta do lastro soviético e surge na DG. Esta integral de obras concertantes tem pontos altos em Mozart (com Harnoncourt), Gubaidulina (com Dutoit), Beethoven (com Marriner) ou Shostakovich (com a Kremerata Baltica). Fará 70 anos em fevereiro mas a DG quis desejar-lhe primeiro feliz natal.



Alfred Brendel “Complete Philips Recordings” (Decca, 2016)
Num ou noutro mercado mais competitivo saiu a tempo de ir parar ao sapatinho no Natal de 2015, mas no resto do mundo só deu à costa a 6 de janeiro. Como o bolo-rei, terá a sua fava e o seu brinde, embora, aqui, quase nada se deva à sorte e tudo se deva ao bom senso, como quando Brendel, em 2013, na “Gramophone”, afirmou que a produção de Beethoven para piano concedia tanto espaço ao gracejo e à graciosidade quanto à gravidade e que, na vida, era compatível com a comédia e com a tragédia, com a sagacidade e a sabedoria. Ouça-se a “Hammerklavier” (quer a de 1983, quer a de 1995), as “Variações Diabelli” (a de 2001) e o Op. 111 (1995) e logo se terá perfeita noção daquilo que dizia. E escutem-se a versão para piano de “Quadros de uma Exposição”, de Mussorgsky (1985), a “Konzertstück”, de von Weber (LSO/Abbado, 1979), o “Concerto Nº 1”, de Brahms (BP/Abbado, 1986), muito do seu Liszt e das sonatas de Haydn de meados de 80, as “Peças de Fantasia” (1982) e a “Kreisleriana” (1980), de Schumann, as “Improvisações”, a “Fantasia do Viandante” e o ciclo de sonatas de Schubert, em 1987 e 1988, e os concertos de Mozart que gravou com Mackerras já neste século, que de súbito vem à mente uma frase sua: “Há [quem aponte] forma e estrutura como o alfa e o ómega da música. Para mim, assentam antes no dualismo entre forma e psicologia, estrutura e caráter, intelecto e sentimento.” Testemunhem-no.

5 de setembro de 2015

Pärt: Musica Selecta – A Sequence by Manfred Eicher (ECM, 2015)



Há Pärt de todas as formas e feitios: num CD da Auvidis, por exemplo, “Psalom” possui uma interpretação definitiva às mãos do quarteto Arditti; já a melhor versão de “Fratres” fez o Kronos para a Elektra; do mesmo modo, será difícil de superar a leitura que Neeme Järvi propôs das primeiras sinfonias, na BIS, ou da seminal “Collage sur B-A-C-H”, na Chandos; outro tanto se dirá das gravações de Paul Hillier da obra coral do estónio na Harmonia Mundi. Mas a verdade é que a evocação desta música serve para despertar os aromas do primeiro amor. E – porque a vai lançando desde 1984, pelo menos nesta ortodoxa variação que se diria destinada a servir de música sacra para os super-ricos – esse perfume só na ECM se encontra. Por isso, e fundamentalmente porque Arvo Pärt faz 80 anos na próxima sexta-feira, Manfred Eicher visitou os arquivos e puxou o lustro a cerca de dúzia e meia de matrizes (apenas por questões de espaço, presume-se, excluindo da sua seleção registos tão emblemáticos como “Tabula Rasa”, “Passio”, “Miserere” ou “Te Deum”). Tem, então, precedência no retrato a (relativa) brevidade, o que nem será a mais feliz das ideias. Dir-se-ia, até, que o diretor da chancela alemã procurou criar a banda-sonora para um documentário que ficou por fazer – e Pärt presta-se a tanto, ou não tivesse o compositor espalhado peças suas por filmes de Terrence Malick, Paul Thomas Anderson, Werner Herzog e Gus Van Sant. Quem aprecie as crises espirituais desta simpática e solitária figura que dá mostras de ir avançando pelo mundo de bíblia sinodal russa debaixo do braço, ou quem se emocione com Villaret a declamar “A Procissão”, encontrará em “Stabat Mater” ou “Festina Lente” razão para se arrepiar. [À venda dia 11]

29 de março de 2013

Pro Pacem: Textes, Art & Musiques Pour La Paix (Alia Vox, 2012)


Fatema Mernissi, Edgar Morin, Raimon Panikkar, Antoni Tàpies, Hespèrion XXI, La Capella Reial de Catalunya, Jordi Savall (d)

Remonta à fundação da Alia Vox, há 15 anos, o arranque de um processo que reformulou o papel desempenhado pelo catalão Jordi Savall no panorama artístico internacional. Paralelamente à prossecução de um interesse espeleológico pelos abismos do repertório das eras medieval, renascentista e barroca, o gambista, nas funções de investigador, intérprete, diretor e editor, reinventou-se enquanto astuto poeta da hermenêutica e instigante agente do multiculturalismo, para o qual não há manuscrito demasiadamente hermético ou tradição excessivamente remota. Não admira, portanto, que ao coligir os materiais de “Pro Pacem” – soberano e testamental enunciado – tenha aberto a arca familiar e recuperado exemplares parcelas de um maná retalhado pelo seu catálogo em títulos como “Diáspora Sefardí”, “Orient-Occident”, “La Route de l'Orient”, “Jérusalem” ou “Istanbul”. E será um testemunho às suas criteriosas capacidades que, aqui – numa milenar navegação que aporta por longínquas orações corânicas, lamentos sefarditas, cantos gregoriano, bizantino e hebraico ou um vilancete luso-goês dedicado à Nossa Senhora do Mundo, a par da polifonia de Lassus e Prés ou de peças espirituais de Tye, Purcell e, já em 2004, Pärt –, promova um extático manifesto que ilude a anestesia litúrgica e promulga a música como uma propedêutica da paz. Mais do que desbravar fronteiras territoriais e temporais ou categorias estéticas e técnicas, Savall restabelece o primado da emoção e torna tangível a utopia.

A acompanhar tão edificante ação vem um livro de proporções bíblicas e intenções pedagógicas, com 1191 páginas essencialmente consagradas a quatro ensaios, uma introdução do próprio Savall, um alerta de António Guterres face ao drama da migração forçada e dados estatísticos sobre despesa militar, armamento nuclear e guerra – reproduzidos em oito línguas. Savall fala-nos de “ignorância, ódio e egoísmo”, cita a iniquidade pressagiada por Stiglitz e o “medo como legitimação do poder” identificado por Judt. Recolhidos nas “Memórias”, seguem-se depoimentos de Antoni Tàpies sobre arte e sociedade. Do filósofo Edgar Morin inclui-se a reflexão “A Educação do Futuro”, publicada em 1999 pela UNESCO, incisiva na análise da natureza humana, na criação de encadeados epistemológicos – “cérebro/mente/cultura” ou “razão/emoção/impulso” – e no diagnóstico de uma “regressão democrática que, sob tecnocráticos pretextos, afasta os cidadãos de cruciais decisões políticas”. De Raimon Pannikar surge, num escrito de 2006, um holístico apelo ao diálogo inter-religioso. Por fim, expande-se a alocução realizada pela académica marroquina Fatema Mernissi na cerimónia de entrega do Prémio Príncipe das Astúrias de 2003, uma alegórica meditação acerca do modelo de globalização árabe. Pairando, a mesma sombra elementar: “como desarmar as nossas culturas?”.