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28 de dezembro de 2024

Melhores do Ano

Alan Lamb "Night Passage" (Room40)

Black Artist Group "For Peace and Liberty" (Wewantsounds)

Byard Lancaster/Keno Speller "Exactement" (SouffleContinu)

C. Lavender "Rupture in the Eternal Realm" (iDEAL)

Catherine Lamb "Curva Triangulus" (Another Timbre)

Dennis Bovell "Sufferer Sounds" (Disciples)

Dialect "Atlas of Green" (RVNG Intl.)

Francisco López "Himavanta" (Nowhere)

Izabela Dluzik "The Amazon - Where the Moon Wept" (LOM)

K. Yoshimatsu "Fossil Cocoon" (Phantom Limb)

KMRU "Natur" (Touch)

Léo Dupleix "Resonant Trees" (Black Truffle)

Linda Catlin Smith "Flowers of Emptiness" (Another Timbre)

Luke Sanger "Dew Point Harmonics" (Balmat)

Meredith Young-Sowers "Agatha: Personal Meditation Music" (Important)

Michelle Moeller "Late Morning" (AKP)

More Eaze "Lacuna and Parlor" (Mondoj)

Music for Shape-Shifters: Field Recordings from the Amazonian Lowlands, 1981-1985 (Sublime Frequencies)

Patricia Wolf "The Secret Lives of Birds" (Nite Hive)

Richard Teitelbaum "Asparagus" (Black Truffle)

Sid Frank "Beijing 1988" (Zoomin' Night)

Suso Sáiz "Distorted Clamor" (Music From Memory)

Stephen Vitiello "Two Broods" (Room40)

Wadada Leo Smith/Amina Claudine Myers "Central Park’s Mosaic of Reservoir, Lake, Paths and Gardens" (Red Hook)

Walter Maioli "Caverne Sonore" (Black Sweat)

20 de novembro de 2020

Soul Love Now: The Black Fire Records Story, 1975-1993 (Strut, 2020)

Antes de ser uma editora, a Black Fire foi uma revista – na realidade, era uma espécie de catálogo para o mercado retalhista norte-americano em que se anunciavam as novidades da Black Jazz, da Strata, da Tribe ou da Strata-East. Quase dava para sentir o vento áfrico a espalhar pelo país as “sementes culturais da sobrevivência” (“Vol. 3”, 1974). Nas suas páginas liam-se coisas do género: “Ainda que tal não se vislumbre no horizonte atual do vosso modo de pensar, quando ouvem música que obriga a uma tomada de consciência estão a traçar a expansão das vossas mentes.” Mesmo que fosse preciso dar um empurrão – na altura, durante os comícios dos Panteras Negras, por exemplo, em pleno caso Watergate, os Lumpen (a banda do partido) substituíam a letra de ‘Ol’ Man River’ por ‘Ol’ Pig Nixon’. Como é óbvio, não se encontra nada tão deselegante entre o punhado de discos que a Black Fire colocou no mercado, ainda que a retórica bolchevique não fosse estranha ao seu fundador, Jimmy Gray: “Como proprietário dos meios de produção, controlas o teu próprio destino: crias uma realidade paralela em que afetas o resultado final”, escreveu. Isto, porque, sim, em meados da década de 70, por mais equívoca que fosse, a especificidade racial era o passaporte que permitia o ingresso dos sitiados e exilados numa sociedade plena de direitos, criada de raiz à margem do sistema. Daqueles que, no fundo, por saberem que aos olhos do aparelho ideológico estatal eram cidadãos de segunda, se identificavam ironicamente com o lumpemproletariado de que Marx falava: a degenerada boémia feita de ex-presidiários, vigaristas, saltimbancos, delinquentes, carteiristas, chulos, estivadores, mendigos, músicos e trapaceiros. Para James “Plunky” Branch (dos Oneness of Juju), Theatre West, Byard Lancaster, Lon Moshe, Wayne Davis, Southern Energy Ensemble, Okyerema Asante ou Experience Unlimited, tratava-se tanto de articular a dissidência quanto de promover um ideário de inclusão – o coletivismo afro como reação ao capitalismo, o que explica o recurso a palavras como ubuntu (“eu sou porque nós somos”, em zulu) ou umoja (“unidade”, em suaíli) nas suas canções. Mas chega de estrangeirismos – no ponto em que o jazz se espiritualizou, o r&b, radicalizou, o gospel, materializou, a Black Fire marcou uma era porque obedeceu aos ‘Mandamentos Black’, conforme, em 77, Gerson King os enunciou: “Dançar como dança um black!/ Amar como ama um black!/ Falar como fala um black!/ Ter orgulho de ser black!”.