Mostrar mensagens com a etiqueta Herbert von Karajan. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Herbert von Karajan. Mostrar todas as mensagens

17 de novembro de 2018

Anne-Sophie Mutter: “Hommage à Penderecki” + “The Early Years” (Deutsche Grammophon, 2018)

Há coisa de 20 anos, num livro em que aproveitava para pôr as ideias em ordem, Krzysztof Penderecki sugeria que o ato de compor se iniciava de modo fenomenologicamente heurístico e que, no fundo, só poderia evoluir quando se questionassem os princípios subjacentes ao processo criativo sujeitando hipóteses ao maior número possível de tentativas de refutação, “sabendo dar com a esperança nos paradoxos do labirinto” – só lhe faltava ter “A Lógica da Pesquisa Científica” debaixo do braço (Popper). 

Em 2014, no documentário “Paths Through the Labyrinth”, de Anna Schmidt, regressava a esse símbolo: “Para mim, o labirinto representa essa forma que o artista possui (…) de chegar indiretamente ao que procura.” E dava corpo à metáfora vagueando solitariamente pelo prodigioso labirinto de sebes que plantou na parte inferior de uma arborizada alameda da sua vasta propriedade em Luslawice, uma aldeia no sul da Polónia. “É tão grande que às vezes até eu me perco nele”, disse, em entrevista a Oswald Beaujean. “Sempre que escrevo uma peça maior sinto-me às voltas num labirinto. Sigo em frente, depois para um lado ou para o outro e muitas vezes tenho de retroceder, em busca de uma saída qualquer.” 

Escuta-se a sua música – mais concretamente, no caso, a “Sonata Nº 2 para Violino e Piano” ou “Metamorfoses – Concerto para Violino Nº 2” – e, de facto, nenhuma outra imagem tão bem a ilustra. Noutro domínio, o que logo vem à memória é o que em “O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam” escreveu Borges: “Ts’ui Pên diria uma vez: Retiro-me para escrever um livro. E outra: Retiro-me para construir um labirinto. Todos imaginaram duas obras; ninguém pensou que livro e labirinto eram um único objeto.” Aqui, claro, a protagonista é Anne-Sophie Mutter, em que Penderecki soube despertar aquele misterioso, abrangente e ferino instinto que parece ter apenas a ver com a real capacidade de gerar descendência. Nela, precisamente do período deste “The Early Years”, quando aos 15, 16, 17 anos tocava concertos de Mozart, Beethoven, Mendelssohn e Bruch como ninguém, reacende-se aquilo pelo qual deu precocemente Karajan: “Há pessoas assim. A meio metro delas sente-se já o fogo que têm a arder dentro de si.”

1 de dezembro de 2017

Sugestões de Natal



Frank Sinatra “Ultimate Christmas” (Capitol, 2017)
Há muitos discos de Sinatra para o Natal: mas o primeiro, de 1948, vezes sem conta recauchutado pela indústria, é por ora ignorado. Aqui começa-se por “A Jolly Christmas” (1957), passa-se pelo álbum gravado com os filhos (1968) e conclui-se com uma ‘Silent Night’ (1991) com Frank Jr. ao piano em que se atinge o inimaginável: um Sinatra absolutamente sincero.

Ella Fitzgerald “100 Songs for a Centennial” (Verve, 2017)
O seu primeiro 78 rpm chamava-se ‘I’ll Chase the Blues Away’ e, em rigor, outra coisa não fazia Ella de cada vez que abria a boca. Nasceu em 1917 e andou à deriva até que se agarrou ao palco como um náufrago a um salva-vidas. Suficientemente panorâmica (1936-1966), esta antologia acompanha-a na edificação de um dos mais expressivos cancioneiros do século XX.

Gregory Porter “Nat ‘King’ Cole & Me” (Blue Note, 2017)
Porter dramatizou a sua relação pessoal com Cole em 2004 (“Foi o pai que nunca tive”, dizia em “Nat King Cole and Me”, um musical de vida curta). Agora, pode dizer-se que a desdramatiza. E mesmo se na capa tem nas mãos o disco que marcou o regresso de Cole ao mundo do jazz, procura o inverso: mostrar como Cole o transcendeu. Termina com ‘The Christmas Song’.

The Christmas Album, Vol. 2 (Deutsche Grammophon, 2017)
Corelli, Manfredini, Torelli e Locatelli. Ainda a Pasta Primavera não havia sido inventada e já Filarmónica de Berlim servia pratos destes. Foi em 1970, num “Christmas Concertos” agora reeditado. E se hoje ninguém abusaria assim da talha dourada, também poucos na sua posição tiveram tanto conhecimento de causa acerca do esplendor do barroco quanto Karajan.

Bach: Sacred Works (Archiv, 2017)
Reedição da antologia que em 2000 reuniu estas gravações de meados do século passado. Expandida em termos audiovisuais, possui uma integral das Paixões e um “Oratório de Natal” inédito. Organista na mesma igreja em que Bach trabalhou, Richter elevou esta música a um patamar de monumentalidade inconcebível. Quem veio a seguir não o perdoou.

“Veni Domine” (Deutsche Grammophon, 2017)
Diz Palombella que esta gravação é uma forma de “espalhar a boa nova” e que o seu alcance permite “chegar às periferias”. Não sabendo se Palestrina e Victoria aprovariam a chamada de atenção à Igreja, vale-lhe mais o material anterior à Contrarreforma – o de Perotinus, Dufay ou Desprez. Aí, sim, fica próximo das “periferias existenciais” de que falou o Papa.

Beethoven: 9 Symphonies (Deutsche Grammophon, 2017)
Quando pela primeira vez viram a luz do dia, em 1980, não se pode dizer que tenham gerado consenso. Afinal, sabia-se da estonteante série de LP com estas obras que havia gravado para a CBS ao longo da década de 60 com a Filarmónica de Nova Iorque e esperava-se novo jogo do gato e do rato com Karajan, que vinha de lançar mais um ciclo sinfónico de Beethoven com a Filarmónica de Berlim. Mas, na verdade, estes registos (captados ao vivo entre 1977 e 1979) falam da necessidade de Bernstein fazer as pazes consigo mesmo. Aliás, o maestro norte-americano referiu-se ao momento em que, para si, em Viena, com esta orquestra, uma força poderosíssima e potencialmente devastadora encontrava lugar no mundo – até então, a música de Beethoven tinha sido uma entidade indomesticável, “como um satélite à deriva pelo cosmos”, disse. Por isso, talvez seja mais correto falar-se no momento em que Beethoven fazia as pazes consigo mesmo. Como Bernstein escreveu em “O Mundo da Música”: essa entidade “escrita no Céu” a que Beethoven deu corpo “foi-lhe meramente ditada”. Como num diálogo socrático, sugeria que “o sentimento que nos transmite é o de que há algo no mundo em que podemos confiar e que nunca nos vai desiludir”. Quando o seu interlocutor imaginário comenta que se está a aproximar de uma “definição de Deus”, Bernstein responde: “É o que pretendia.” Confirmou-o anos mais tarde, com esta integral.

23 de agosto de 2014

Herbert von Karajan (Schönberg/Berg/Webern & Sibelius/Grieg/Nielsen)




Schönberg: Verklärte Nacht, Variations for Orchestra, Pelleas und Melisande; Berg: Orchestral Pieces; Webern: Orchestral Pieces; Berliner Philharmoniker, Herbert von Karajan (d), (Deutsche Grammophon, 2014)

Sibelius: Finlandia, the Swan of Tuonela, Tapiola, Pelléas et Mélisande; Grieg: Peer Gynt Suites Nos. 1 & 2; Nielsen: Symphony no. 4; Berliner Philharmoniker, Herbert von Karajan (d) (Deutsche Grammophon, 2014)



Não se vislumbra programa mais adequado ao temperamento de Karajan do que este, que se consagra à Segunda Escola de Viena e que, reunido num triplo CD que reedita originais de 1974, documenta o seu invulgar talento em dissecar criticamente impulsos autoritários. O seu Schönberg é fílmico e climático: os protagonistas de “Noite Transfigurada”, Op. 4, na releitura de 1943, estão debaixo de um borriço que espalha a golpes de vento, descortinando a lua, colocando a esperança à mercê dos movimentos de guilhotina que faz com os braços; até os condenados Pelléas e Mélisande, no homónimo poema sinfónico, Op. 5, inspirado pela peça de Maeterlinck, ficam em animação suspensa, entre ciclos de criação e destruição; as “Variações para Orquestra”, Op. 31, são um assombro técnico, como se, de uma só vez, pudéssemos escutar todos os órgãos que no nosso corpo vão trabalhando em silêncio. Dedicadas a Schönberg foram as “Três Peças para Orquestra”, Op. 6, de Berg. Guiando-nos pela mão e anestesiando-nos os sentidos, Karajan situa-nos no limiar de um pagode envolto em véus de incenso. Em minutos, o ruído é de tal ordem que, mal termina, pensamos ter ficado surdos. Também com Webern é como se tivesse estalado uma guerra junto aos nossos ouvidos: uma visão particularmente antropológica das “Seis Peças para Orquestra”, Op. 6, diria estarem repletas daqueles ominosos momentos em que uma personagem de ficção leva as mãos à cabeça interrogando-se “Meu Deus! O que fomos fazer?”, ainda que se saiba que foram escritas como uma reação ao luto. 

São gestos sutis de efeitos devastadores que estão nos antípodas dessoutros compilados em mais uma caixa agora lançada. Aí, os poemas tonais e sinfónicos de Sibelius, uns supersticiosos, outros supliciados, surgem com a devida camada de verniz e, em “O Cisne de Tuonela”, “Finlandia” ou “Tapiola”, a secção de cordas da orquestra está como uma patinadora no gelo, simulando que é uma leve brisa – e não a mais férrea determinação – que a anima. De Nielsen, está a “Sinfonia Nº 4”, Op. 29, dita ‘A Inextinguível’, com aquele insólito duelo timpânico em que se detetam os canhões da Primeira Grande Guerra. De Grieg, as extintas capacidades de sedução das suítes extraídas a “Peer Gynt”.

Conquanto permitam ambos questionar os limites desses mesmos paradigmas, saltar entre conjuntos de gravações – o segundo foi efetuado entre 1981 e 1984 – é, de certa forma, como passar da periferia do gosto para a da geografia, da ideia de uma Europa para a de uma outra Europa. Pelas suas fronteiras manobrou Karajan de modo ímpar.