Quando
Günter Gretz lhe reeditou “Taximen” na Popular African Music, em 2005, não
imaginava que depois de ter andado anos à procura de um disco raro ainda teria
de perder tempo à cata de palavras. Mas assim foi, apresentando o LP que
grassava pelas pistas de dança de Abijão, e não só, em finais da década de 70,
como um cadinho cultural em que cabia “uma espécie de reggae” ou “um tipo de beguine”. Por isso, na sua Oriki, ao
dedicar-lhe em 2008 uma antologia que fizesse jus à sua história, veio Greg de
Villanova a apelidá-lo de “Señor Eclectico”. Amadou Balaké abandonou cedo o
Burquina Faso para uma fase de tirocínio enquanto percussionista nos Ambassadeurs
du Motel, no Mali, ou nos Balladins, na Guiné. E mesmo que, já de regresso a
casa, tivesse granjeado reputação ao ver-se promovido a vocalista nos Les 5
Consuls ou L’Orchestre Super Volta (“Ouaga Affair”, na Savannahphone, e
“Bambara Mystic Soul”, na Analog Africa, retratam essa época) era impossível ignorar
o perfume da sua passagem pela Orquesta Broadway, em Nova Iorque. Curiosamente,
estes agentes que se empenhavam em descobrir o seu passado pareciam desconhecer
o seu presente, conquanto lhes bastasse pôr a tocar os últimos CD dos Africando
para logo darem por ele. E a verdade é que a sua real importância se aprecia
melhor pelo que fez agora do que pelo que fez antes. Amadou Traoré (‘dito
Balaké’, como se notabilizou pelo mundo) faleceu em Uagadugu a 27 de agosto de
2014. “In Conclusion” é o seu testamento e, no fundo, o paradoxal testemunho
daquele que, afinal, nunca se deixou imergir inteiramente nas suas influências.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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12 de setembro de 2015
Amadou Balaké “In Conclusion” (Sterns, 2015)
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5 de dezembro de 2009
Orchestra Baobab “La Belle Époque”
Em noites brandas sonhava-se com o futuro. A música apaziguava espíritos, abrigava amantes, abraçava ideologias e aproximava-se de muitos sítios sem ao certo pertencer a lugar nenhum. Ao balcão discutia-se política e fechavam-se negócios, ministros recebiam no restaurante dignitários ocidentais e, pelos cantos da discoteca, conspiravam emissários de potências estrangeiras. Em palco suspendia-se o tempo: a banda da casa fixava-o no par de décadas em que a rádio nacional rodava discos do Sexteto Habanero, Orquesta Aragón ou Arsenio Rodríguez. Ocasionalmente, a pedido de representantes do governo de Léopold Senghor, e para que ninguém se pensasse num barco rumo a Cuba, o doce embalo tropical incluía melodias tradicionais wolof e a toada folclórica derivava para repertório mandinga ou baladas crioulas de Casamança, próximas das que cantava a Cobiana Djazz na Guiné-Bissau. Assim foi no Club Baobab, em Dakar, da inauguração em 1970 até ao fecho de portas em 1979. A sua orquestra, com instrumentistas de diferentes etnias e origens (Togo, Mali e Nigéria), encarnou na perfeição a tese cultural pretendida para o Senegal e – a par da Bembeya Jazz na Guiné ou a OK Jazz no Congo – simbolizou a recondução da diáspora a solo natal. Sabe-se que a sua melhor fase em disco é de final de setenta a inícios de oitenta, que caiu vítima da fórmula que criou, mas que anos depois renasceu. Esta retrospectiva ganha importância pelas limitações do mercado: os temas do primeiro CD são retirados de dois álbuns de 1972, em parte por reeditar (alguns foram incluídos pela Oriki em “A Night At Club Baobab”); dez canções do segundo, gravadas em 1978 em Paris, viram a luz do dia em 1992 numa edição já esgotada (“On Verra Ça”, World Circuit). Esta é mais uma fresta do que uma porta escancarada, mas o que se vê nunca se esquece.
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