Há coisa de um mês, nem tanto, no intuito de angariar fundos
para apoiar associações e confrarias da cidade, a braços com uma quebra de
rendimentos sem precedentes, foi colocado à venda o tema “A Day in Essaouira”, colaboração
entre os Parallells (o duo de música eletrónica dos irmãos Thomas e Julien de
Bie) e o maâlem de Omar Hayat. Recordo-me
da emblemática presença do marroquino, há cinco anos, numa conferência de
imprensa do Festival Gnaoua: a diretora artística, Neila Tazi, de um lado, a
falar da necessidade de “regressar às raízes” face à crescente comercialização
da música gnaoua; ele, do outro, dizendo
que sim, com uma t-shirt de Jimi
Hendrix colada ao corpo. Provavelmente não se lembravam da ação de Abdelakabir
Faradjallah, ali, entre finais de 60 e inícios de 70, quando, com meia dúzia de
irmãos e irmãs, primos e primas, e inspirado pelos gnaoua, fundou os Attarazat Addahabia e trocou o guembri pela guitarra elétrica, os qraqeb pelas baquetas, o chèche por um sombrero, o amazigue pelo árabe. Bom, de “Al Hadaoui” não se podiam
com certeza lembrar, pois, gravado que foi, em 1972, inédito se manteve até ao
momento em que a Habibi Funk o lançou, no verão passado (e que, numa versão
revista, repõe agora no mercado). Seria, na época, uma reação àquilo que
Faradjallah considerava a apropriação dos códigos da contracultura ocidental
por jovens conterrâneos seus que ignoravam quem se opunha já às tendências
artísticas dominantes entre si – um óbvio paradoxo que a edição de “Brian Jones
Plays with the Pipes of Pan at Joujouka” (1971) expunha ao ridículo. Aqui, seria
a partir de um conteúdo nacional divorciado das atividades ideológicas do
regime – a prática gnaoua,
precisamente – que se chegaria à forma adotada pelos radicais de Londres e
Paris que achavam chic visitar
Marrocos. Será, porventura, o que explica a edulcoração nesta variante berbere de
ié-ié que, no fundo, mais não desejava que compensar os seus agentes por,
naquele momento histórico, não puderem ser as pessoas que mais gostariam de
ser. Talvez por isso – por parecer ter mais que ver com sentimentos do que com
acontecimentos – se mantenha tão atual.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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23 de maio de 2020
9 de fevereiro de 2019
Ibn Battuta: Le Voyageur de l’Islam (Alia Vox, 2018)
Se Savall tivesse real sentido do dramático, teria começado a contar
esta história pelo seu fim, na segunda metade do século catorze. Pelas últimas
palavras de um Battuta praticamente exânime e já esquecido, proferidas num
pátio de Fez tingido de azul enquanto observava no céu os vultos negros dos
estorninhos como se fossem emissários do além. Então, tal como a personagem de
Rutger Hauer em “Blade Runner”, falar-nos-ia de todas as coisas incríveis que
viu: de viúvas de inexcedível bondade, na Índia, que se ofereciam ao fogo após
a morte dos maridos, tapadas por véus de seda e enfeitadas com joias, cercadas
de incenso e por um cortejo de suplicantes que lhe transmitia mensagens para
entes queridos há muito desaparecidos e ao qual elas respondiam afirmativamente
antes de se sacrificarem numa pira; dos treze portões de bronze da catedral de
Aya Sufiya (Santa Sofia), em Constantinopla (Istambul), feita com materiais
retirados às Sete Maravilhas do Mundo, revestida a mármores verdes e amarelos
que refletem o olhar de quem os mira e o desviam dos milhares de monges que por
lá vivem, alguns deles descendentes dos doze apóstolos; de iogues em transe,
que se erguiam e sustentavam no ar à altura da cabeça dele sem nada visível que
os suspendesse; de hipopótamos, hienas, rinocerontes e elefantes, um deles,
albino, com um rubi do tamanho de uma mão na testa; das 100 escravas gregas,
turcas e nubianas de túnicas imaculadamente brancas, estendidas em redor de uma
piscina, na Anatólia, cada qual com uma taça de ouro recheada de passas ou com
uma travessa de prata coberta de cerejas na mão, prontas a saciar os desejos das
nobres que as observavam a partir de otomanas cravejadas de pedras preciosas; de
um homem santo do subcontinente que interrompia jejuns de 40 dias com um
simples feijão e que previa o futuro; de escravos de facas afiadas, em Malaca,
que cortavam o próprio pescoço em sinal de devoção aos seus proprietários.
Enfim, como no filme dizia o outro, de tudo o que estivesse prestes a perder-se
no tempo, como lágrimas na chuva. Mas, embora, aqui, não idealize outra coisa
que não uma banda sonora, é possível que Savall, formado que foi na madraça da
interpretação historicamente informada, achasse este dispositivo narrativo mais
factício do que factual. Ainda assim, mesmo numa versão “Lonely Planet” da
coisa, com um programa destes, nunca esteve tão próximo de promover essoutra
prática por inventar que se poderia apelidar de ‘interpretação historicamente
encantada’.
Possui como mérito maior, aliás, munir com um arsenal de “ruídos, sons,
doces melodias”, “mil instrumentos” e vozes, como lhe chamaria o Calibã, de
Shakespeare, um objeto – o livro “Um presente àqueles que
contemplam as maravilhas das cidades e as maravilhas de viajar”, ou “As Viagens
de Ibn Battuta” – em que se dá pela sua ausência. Nessa perspetiva, este relato
de Battuta é exemplificativo: “Veio até nós um emissário [de Atabek Afrasiyab,
na atual província iraniana do Cuzistão] acompanhado de músicos carregados de
instrumentos, para os quais se virou e disse: ‘Toquem, para que estes pobres
viandantes, nossos irmãos, dancem e cantem e dirijam orações ao filho do
sultão.’ A que respondi: ‘Eu e os meus associados pouco sabemos de música, e muito
menos de dança, mas podemos orar.’” Não seja por isso: Savall e os seus
convidados tratam, agora, de lhes organizar humildemente a playlist do
Spotify. Assim, em correspondência a algumas das mais famosas paragens desse
antepassado da autora de “Comer, Rezar, Amar” (Elizabeth Gilbert) e, já agora,
de qualquer autor de literatura de viagens que se preze (de Marrocos ao Mali, do
Cairo a Meca, de Gaza a Jerusalém, de Damasco à Turquia, de Omã à Pérsia, do
Cazaquistão ao Paquistão, da Índia ao Sri Lanka, de Sumatra à China, isto é, do
que resultou de um périplo de 120.000 km em 30 anos, suficiente para mandar
qualquer carro para a revisão), eis um conjunto de extasiantes improvisos
árabes e turcos ao alaúde, de lamentos ortodoxos, de melismas nilóticos, cantos
otomanos, baladas búlgaras, modinhas mediterrânicas do medievo e música cortesã
do extremo oriente, quase sempre comandado por recitativos algo caprichosos,
para não dizer pior. Um exemplo: na chegada a Meca são descritas emoções que
nada diferem das de qualquer peregrino a cumprir o Haje; eu teria optado por
mandar ler isto em voz alta: “As mequenses são de uma beleza incomparável, liberais
no uso de aromas a ponto de se ficarem a sentir os seus eflúvios após a sua
passagem” – “Hoo-ah”, exclamaria Pacino. Outro: “Os habitantes das Maldivas são
inclinados à piedade e professam uma fé sincera”, escuta-se, a propósito da
estada de Battuta no arquipélago; como é óbvio, um moralista como Savall nunca
citaria uma frase destas: “Têm produtos com efeitos incomparáveis na vida
sexual. Eu mesmo tive quatro mulheres e várias amantes ao longo do ano e meio
que lá vivi e era capaz de visitá-las diariamente ou de passar a noite com quem
de direito” – 650 anos antes do Viagra!
Não
obstante as tendências hagiográficas do maestro catalão, tudo isto para sublinhar
o estranho caso de Ibn Battuta: alguém – ao contrário do seu imediato
predecessor europeu, Marco Polo – incapaz de disfarçar indignação, irritação,
intolerância, vulgaridade, valentia e volúpia perante um mundo em que luta
permanentemente o que existe com o que está à beira da extinção. Nisso, em nada
mudou.
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28 de janeiro de 2017
Wu Wei – Wang Li “Overtones” (Harmonia Mundi, 2016)
Estávamos
sentados no chão, lado a lado, de costas apoiadas numa coluna de aspecto ceráceo.
Assistíamos à insólita atuação de um trio de berberes que incluía o
manuseamento de carabinas e Wang Li estava pasmado. “Um dos membros do grupo
também toca berimbau”, comentei, depois, escusadamente, mais para ver se Li
voltava à terra. “É incrível”, dizia ele. Perguntou-me se tinha visto o seu
concerto e, quando lhe disse que sim, repetiu um desabafo que tinha tido em
palco: “Ouço esta música e sinto que já vivi em Marrocos. E que esta gente já teve
existência na China.” Desviou o olhar para cima e perdeu-se no rendilhado em
madeira entalhada das abóbodas do Dar Adiyel até se pôr a contemplar os astros.
Passava
das onze da noite e o público ia-se aos poucos levantando, permitindo que admirássemos
os tapetes espalhados pelo pátio do palácio. Meio a brincar, expliquei-lhe que,
durante a sua apresentação, e reagindo às permanentes referências que fazia ao
vento, parecia que os espectadores iam planando num tapete voador. E que, a
mim, quiçá a despropósito, me tinha vindo à memória uma canção que ouvia em
pequeno e que dizia: “Costa Brava, Saara,
todo o planeta/ Luzes, cometas, mil estrelas do céu/ Pontos de luz vibrando na
noite preta/ Tudo quanto é bonito, o tapete e eu.” Ele sorriu, ainda que nunca
tivesse ouvido a voz de Gal, e contou-me que gostava de levar o berimbau para
as montanhas e de se pôr à escuta: “Não sei se são os meus antepassados que falam,
se as minhas vidas passadas ou apenas o vento. Só sei que ao tocar procuro esse
som, que é para as pessoas entenderem que, num concerto meu, pode ser que seja
o vento a interpretar-me a mim e não o contrário. E espero que nesse instante estejam
comigo nas montanhas – elas, eu e a brisa.” Confúcio não teria dito melhor,
pensei, enquanto seguíamos em direções opostas pela almedina. A clareza do
discurso de Li contrastava com o dédalo arquitetónico da cidade – mais um entre
os muitos paradoxos da edição de 2014 do Festival de Músicas Sagradas de Fez. De
certa forma, são tudo coisas que agora se transferem para um “Overtones” em que
tem a seu lado Wu Wei, o virtuoso do sheng.
Começam com ‘O Canto das Estrelas’. Depois, é como se viessem contar a génese
de um mundo que até podia ser o nosso, caso fizéssemos por o merecer.
13 de junho de 2015
Festival Gnaoua, 2015
Erguendo-se entre o público, uma
jovem perde o controlo dos seus gestos. Aliás, dir-se-ia animada unicamente pelos
movimentos da trupe Hmadcha, de que se aproxima, hesitante, escoltada por ululações
e pela suspeita de que já não será senhora da sua vontade. Usa um lenço esmeralda
e uma jelaba turquesa, mantém os olhos fechados e, tomando por modelo uma torre
de extração de petróleo a perfurar o solo, desloca mecanicamente o braço
direito de cima para baixo. À sua volta, cantam, dançam e tocam tambores membros
da irmandade, amordaçando sorrisos como se aos seus ouvidos fossem segredadas
as melhores anedotas no momento mais inoportuno, até que a música termina e ela
cai de rojo, em pranto. “É o hal, o
transe. Já passa”, diz um confrade, agitando um turíbulo e dando sinal para que
a atuação prossiga. Perto da meia-noite, guiada pelo guembri do Maâlem Lotfi Benali, com o castanholar dos qraqab a coreografar-lhe as emoções, a
jovem levanta-se novamente, desta feita contagiando os pufes em seu redor,
apesar de haver quem logo escape para as galerias superiores do Dar Souiri com o
receio de contrair uma infeção. Ninguém percebe muito bem o que está a ouvir
(os poemas gnaoui são um labirinto
dialetal), mas crê-se pressentir uma qualquer fração da verdade. Na cabeça de
muitos, o que interessa saber é o que se esconde na fração à qual lhes é vedado
o acesso. Há coisa de 30 anos, descrevendo uma cena semelhante, Abdelkader Mana,
um incansável cronista da cidade e autor do recente “Les rivages de pourpre: Essaouira-Mogador”, tanto identificava os
que respeitavam intimações do mundo sobrenatural quanto os que se limitavam a reconhecer
manifestações de patologia indeterminada. Para os gnaoua não haverá umas sem as outras.
É esse estatuto simbólico que estas
18 edições do Festival Gnaoua têm transformado. Há, até, um livro consagrado ao
tema, “Trajectoire des musiciens Gnawa”, da investigadora Zineb Majdouli, em
que se avaliam as dimensões teatrais dos rituais gnaoua no contexto desestabilizador das artes performativas e em
cujo prefácio se contrabandeia uma reveladora confissão: “Com origem numa
família marroquina de classe média, respeitadora dos preceitos do islão e
herdeira de uma tradição que sempre cultivou o saber, era algo que rejeitava. A
própria palavra trazia-me arrepios à espinha. São negros, pobres, músicos e
detêm um poder: o de curar por meios muito pouco ortodoxos. Parti para os gnaoua com o mal-estar do desprezo e do
medo envolvido em curiosidade e admiração.” E pode dizer-se que em Essaouira
descobriu uma operação que descaraterizava as cerimónias sem desacreditar o
mistério.
Dirigindo-se a jornalistas, sobre
outra coisa não fala Neila Tazi, organizadora do festival, abandonando à última
hora os clichés que acompanham este simbólico
ingresso na idade adulta mas jamais traindo uma conceção maternal do certame.
Escutando-a, entende-se que prefere “preservar este património local” a estimulá-lo
repetidamente através do contacto com as forças do mercado global, que deseja “regressar
às raízes” ou que receia que a crescente comercialização da música gnaoua promova a evolução de expressões
menos autênticas. Com embaraço, revela só agora estarem a transcrever, traduzir
e registar os textos dos seus praticantes. Será um passo no bom caminho, apesar
de remontar à abolição da escravatura a mercantilização da música gnaoua e, na sua base, não possuir
existência histórica uma estirpe cultural imaculadamente protegida de
influências externas. Talvez se trate de uma questão de dignidade.
É um valor indispensável aos
discursos que introduziram o tema a debater em conferência, “Mulheres de
África. Criar, empreender”, que sob a categoria da pluralidade se organizou em
quatro mesas-redondas: “Famílias em Revolução”, “Mulheres e Criação”, “A Nova
Visibilidade Profissional das Mulheres” e “Mulheres e Política”. Houve lugar a
destemidas alocuções (da nigeriana Adjaratou Fatou Ndiaye, da senegalesa Ken
Bogul ou das malianas Awa Meité e Oumou Sangaré), discutiram-se códigos civis
que mais não são que sistemas de discriminação, esmiuçaram-se diferenças entre
autoridade e poder, resumiu-se o aborto a um direito e ninguém se livrou da nuvem
aforística que a historiadora franco-tunisina Sophie Bessis espalhou sobre a
sala: “Em muitas sociedades africanas, tudo se transformou e todas as
resistências e medos se conjugaram para que nada efetivamente mudasse”.
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16 de maio de 2015
Sir Richard Bishop “Tangier Sessions” (Drag City, 2015)
Burroughs
escreveu que “a música árabe não tem princípio nem fim”. Que “é intemporal”, e,
que, “ouvida pela primeira vez, pode não fazer grande sentido para um ocidental.”
Mais à frente no texto, após espirais de frases que introduzem centopeias na
cabeça de quem as lê, agoirava assim: “Em Tânger, nada é bem o que parece.”
Extraída de “Interzone”, dir-se-ia uma proposição feita à medida deste “Tangier
Sessions”, que, por sinal, até conta com um ‘International Zone’ no seu
alinhamento. Isto, porque também o novo disco de Sir Richard Bishop, gravado na
cidade marroquina em junho do ano passado, aparenta ser uma coisa para, logo,
se revelar outra. No fundo, não andará longe da verdade quem afirmar que, em
‘Hadija’ ou ‘Bound in Morocco’, faz com a música árabe o que a ilustração
caligráfica na sua capa faz com a escrita: um ato de ilusão que acaba por
reforçar traços autorais precisamente à medida que os vai tentando disfarçar.
Afinal, virando o disco e ouvindo o primeiro tema do lado b, ‘Mirage’, podia o globo
ter igualmente rodado e estarmos agora na ilha de Tânger, no estado
norte-americano da Virgínia. É que o assunto, aqui, não são as escalas do maqam nem as essências da maconha. Na
realidade, como é comum em álbuns a solo de guitarristas, o meio é a mensagem.
E a Drag City fez um pequeno vídeo em que Bishop conta como a sua nova guitarra
lhe foi parar às mãos, transferindo o lendário cruzamento de Clarksdale, no
Mississípi, para uma viela de Genebra em que deu com um homem de bata branca ao
balcão de uma loja de instrumentos usados. Arre, o diabo assume mesmo muitas
formas.
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