Há coisa de um ano, em entrevista à “Bomb”, Peter
Evans dizia desejar compor como quem faz um quantos-queres: “[Na minha escrita]
refleti muito acerca da forma de criar um tipo de textura desdobrável, mais
complexa e refinada que o habitual; o que me conduziu à ideia de fixar certos
elementos, enquanto outros permaneceriam imprevisíveis.” Ou seja, como ele
explicava, não lhe interessava criar, sem mais, mas sim criar peças que – elas próprias
– criassem: flexíveis, maleáveis e desmultiplicáveis, sujeitas a contínuas reconfigurações,
como que vistas por um caleidoscópio. Talvez por isso, de súbito, nele baixasse
um santo sufista e viesse a admitir diluir o açúcar do “eu” na água do “nós”.
Pois então, numa gravação contemporânea a tão ascéticas declarações, dir-se-ia
que o grupo de “Being & Becoming” é o seu novo avatar axiológico: Joel Ross
(vibrafone), Nick Jozwiak (contrabaixo) e Savannah Harris (bateria e percussão)
atuando e reagindo uns sobre os outros, num tabuleiro de relações sistémicas
desenhado por M. C. Escher – se, por um lado, trabalham na superfície plana e
bem iluminada do quarteto de jazz, por outro, também, cortam-lhe a corrente e
esgueiram-se no escuro por labirintos e alçapões, subindo e descendo mais
escadas que “Chuckie Egg”. Uma delas vai dar à Índia, quando tocam em uníssono
uma espécie de raga e algures no subcontinente ergue a cabeça uma cobra; outra
vai dar à Áustria dos Habsburgos, com as fanfarras do “Concerto para Trompete”
anunciando a chegada à corte de Hummel; outra – sempre se trata de um disco de
Evans – leva ao bar de uma nave da Federação; e outra, ainda, ao interior de um
ecrã em que estão a dar desenhos animados em vez de “O Caminho das Estrelas”. Claro
que quem quiser permanecer na horizontal poderá aqui encontrar ecos melódicos
do Bobby Hutcherson de “Components” (1966), por exemplo, ou do que faziam Karl
Berger e Don Cherry quanto tinham África em mente. Isto é, o fluxo e refluxo de
signos com que o trompetista tem vindo a desestabilizar os nossos processos
percetivos, que mais uma vez redime e repleta com a imanente novidade do mundo.
Será essa a função da arte. Quantos queres?
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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13 de junho de 2020
1 de setembro de 2018
Don Cherry "Home Boy" (Wewantsounds, re. 2018)
A
propósito dos seus discos na Blue Note, Don Cherry disse o seguinte: “Foram os
primeiros que compus com base no conceito de que, ao jeito do controlo remoto, vivemos
numa era em que podemos mudar de estação. É como na vida: podemos virar a
esquina e encontrar outra vida à nossa espera, outro ambiente.” A frase traz à
memória um episódio da altura, descrito por Karl Berger: “Ele andava sempre com
um pequeno transístor atrás ouvindo música do planeta inteiro, praticando ao
som de folclore turco, dos Beatles, de melodias que incluía continuamente nas
suas peças.” Depois, insatisfeito com as antenas do seu rádio de pilhas, viria
a perder-se no mundo a ponto de, em 1982, num artigo do “The New York Times”,
ser apresentado nestes termos: “Muitos músicos são nómadas, em perpétuo
trânsito entre continentes, em busca de novas experiências e cenários, de
melhores condições de trabalho ou mais dinheiro. Mas Don Cherry, que primeiro
deu nas vistas como membro do quarteto de Ornette Coleman, será porventura o
maior andarilho da música moderna.”
Sim, um mapa coroplético que indicasse os
sítios por onde passou não ficaria com muito espaço em branco. E como é
apanágio de quem se habituou a viver ao sabor do vento, aprendeu a ver sinais
em tudo: um belo dia, em Paris, teve um encontro serendipitoso com um jovem
músico chamado Ramuntcho Matta, iam ambos de melódica na mão. De certa forma,
foram o Flautista de Hamelin um do outro, com Matta, em 1985, a conduzir Cherry
a estúdio para gravar este “Home Boy, Sister Out” com o Miles Davis de “You’re
Under Arrest” em mente, quiçá, embora Cherry estivesse mais familiarizado com o
pós-punk. Matta contratou os músicos, pôs Elli Medeiros (a namorada) no coro e Cherry
a cantar de modo inconvicto, levando-o provavelmente a recordar o período em
que foi vizinho dos Tom Tom Club. Aliás, em relação ao livro de estilo adotado
basta dizer que um destes temas está em “Disco Not Disco” (Strut, 2000). Mas o
mais descoroçoante é ouvir Cherry num rap
a alertar para os males da droga quando estava agarrado à heroína, as vielas do
mundo trocadas já pelas veias dos seus braços.8 de dezembro de 2017
Steve Lacy “Free for a Minute: 1965-1972” (Emanem, 2017)
Em
1998, no seu único disco gravado para a Tzadik, Lacy apresentava o sugestivo ‘Jewgitive’
assim: “Tenho sido um a vida inteira, desde que nos anos 40 me fui desiludindo
com as aulas da escola hebraica. Mas, como se costuma dizer, ‘Podes fugir mas
não te podes esconder’, e esta peça ilustra-o.” De facto, desde que emigrou
para a Europa, em 1965, Lacy manteve a expressão do exílio tatuada no rosto,
nas rugas da sua testa a figurada franquia da repatriação (efetiva em 2002,
dois anos antes de morrer). Ele, que, evitando-o a todo o custo, até por azar
do destino se parecia aproximar de Sidney Bechet – primitiva fonte de
inspiração e uma personagem com a qual foi precocemente comparado (constava em
inícios de 60 que Lacy era um “Bechet moderno”), embora nada os tenha unido
mais que o facto de terem encontrado ambos asilo em França.
Talvez por isso, em
entrevistas, um dos seus mecanismos de defesa recorrentes fosse dizer que não
se considerava um expatriado porque não desejava ser “ex-coisíssima nenhuma” (in “Down Beat”). Ou, então, optava por
inverter as suas circunstâncias: “Vivo onde a música vive. E onde ela está é
onde tenho de estar” (in
“Parachute”). Entre as muitas editoras consagradas ao inventário da sua portentosa
produção, nenhuma quanto a Emanem tem sido tão pródiga ao documentar essa peripatética
existência – “The Sun”, “Cycles” e “Avignon and After” são disso exemplos
recentes. Possuem, quando comparados a títulos antológicos, como “Scratching
the Seventies” ou “Complete Remastered Recordings on Black Saint & Soul
Note”, a particularidade de incluir inéditos – aqui, “Free Fall” (temas de
1967, com Enrico Rava, Karl Berger, Paul Motian e Kent Carter, compostos para
um filme, presumivelmente homónimo, que ficou igualmente por estrear) e “The
Rush” e “The Thing” (também em quinteto, de 1972, com Carter, Steve Potts,
Irène Aëbi e Noel McGhie, a formação de “Estilhaços”). Surgem à boleia da
reedição integral de “Disposability” (Vik, 1965) e “Sortie” (GTA, 1966), registos
cruciais que põem Lacy a reagir a tipos opostos de provocação: pertencer a uma
tradição ou, ao invés, não pertencer a tradição nenhuma. Realmente, nunca na
vida dramatizou ele outra coisa.
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