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3 de agosto de 2019

Agenda: Jazz em Agosto

Pinta-se o cartaz do Jazz em Agosto com as cores do PREC, conquanto se troque o R da revolução pelo da resistência – só falta no elenco a banda de “Palavras ao Vento” e na banca da livraria o “Resistir é Preciso”, de Alípio de Freitas. “[Resistir] É um libelo contra a opressão como forma de vida política, contra o silêncio das mordaças, contra todos os processos de aviltamento do homem, contra a corrupção ideológica erigida em serviço à comunidade”, dizia o autor. Agora, fortificando com trincheiras anfiteatros e auditórios, e porque alvitra o festival que “o jazz sempre teve na sua raiz a semente da contestação e da mudança”, põem-se aí bandos de desalinhados a conjugar o verbo à sua maneira. Sosseguem os espíritos, Pacheco Pereira não terá de ir de propósito à Gulbenkian recolher materiais para a Ephemera – aqui, como é óbvio, e independentemente de filiações partidárias, privilegia-se sobretudo uma música que intervém musicalmente (que não só politicamente) e em cujo sistema sanguíneo circulam células de sedição desde a nascença. Atente-se ao que há uns anos disse Daniel Rosenboom sobre esses seus Burning Ghosts [na foto] que tocam hoje às 21h30 no Anfiteatro ao Ar Livre: “Face aos males que nos atingem, criar arte – e música expressionista em particular – pode parecer um modo muito abstrato de reagir. E longe de mim sugerir que a nossa música representa uma ação efetiva contra a violência policial, a discriminação ou a desigualdade – mas sinceramente acredito que pode levar à reflexão. E se o nosso público identificar esses gatilhos, então, ficará a um passo de lidar com questões muito complicadas.” Claro está, desde que consiga sobreviver à câmara de tortura sonora a que Rosenboom, Jake Vossler, Richard Giddens e Aaron McLendon o submete e em que torna palpáveis os seus piores pesadelos – talvez o ponto seja esse. Antes (18h30), no Auditório 2, com mais subtileza e menos premeditação, tocam Ingrid Laubrock e Tom Rainey – aliás, a respeito de uma data do duo, e após lhe ter sido perguntado o que esperar de um concerto seu, Laubrock respondeu: “Idealmente nada em particular, pois ao improvisarmos tentamos pôr em relevo o elemento da surpresa.” Semelhante desafetação deverá apoderar-se amanhã de Abdul Moimême (Sala Polivalente, 17h) e do quarteto de Ricardo Toscano, Rodrigo Pinheiro, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini (Auditório 2, 18h30), gente que trata da emancipação mais ao nível do indivíduo que do coletivo, que é precisamente, e por sua vez, o objeto da flautista e compositora Nicole Mitchell: à noite (21h30), à frente de um octeto, ao colocar em cena as contrastantes forças de “Mandorla Awakening II”, dramatizará um alerta muito simples, que é o de que a atual tendência para a homogeneização nas sociedades ocidentais mais não é do que uma forma de colonizar a cultura de todo o mundo e de conceder automaticamente um estatuto marginal a toda e qualquer minoria que ouse articular a sua própria diferença. Pois, de outra coisa não trata o trio Abacaxi (de Julien Desprez, Jean-François Riffaud e Max Andrzejewski, que se apresenta quinta, às 18h30, no Auditório 2), o sexteto Freaks (liderado por Théo Ceccaldi, toca também dia 8, às 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre), o duo de percussão de Joey Baron e Robyn Schulkowsky (sexta, 18h30, Auditório 2) e o estelar sexteto Triple Double, com Tomas Fujiwara, Gerald Cleaver, Mary Halvorson, Brandon Seabrook, Ralph Alessi e Taylor Ho Bynum (sexta, 21h30, Anfiteatro ao Ar Livre). O festival termina no dia 11.

13 de fevereiro de 2016

Michael Formanek – Ensemble Kolossus “The Distance” (ECM, 2016)



De certa forma, este “The Distance” sugere um olhar atualizado sobre “Nature of the Beast” (Enja, 1997). Ou, melhor, tratar-se-á de mais um caso em que se atribui a material antigo o dom da profecia. É que, já aí, nomeadamente em ‘Thick Skin / Dangerous Crustaceans’, quando Tim Berne, Tony Malaby e Chris Speed se juntavam a Formanek, Jim Black, Steve Swell e Dave Douglas, se diria lançada a semente para o eloquente exercício de escrita que agora se concretiza. Claro que, entre um e outro momento, se dá um hiato na expressão mais visível da atividade do contrabaixista e compositor que, neste decénio, só um par de CD na ECM (“The Rub and Spare Change” e “Small Places”, ambos em quarteto) veio interromper. Não obstante a excelência de cada um, cumpririam neste raciocínio a função dos exercícios que terá de fazer quem pretenda recuperar uma determinada capacidade motora. Até em virtude de uma curiosa titulação – “The Distance” é dominado por “Exoskeleton”, uma suíte com cerca de uma hora, formada por andamentos como ‘Impenetrable’ ou ‘Beneath de Shell’ – salta à memória esse registo mais remoto.

Mas nada deixava antever a magnificência de que o atual se reveste. No material de promoção da editora, Formanek admite um peculiar conjunto de influências: Messiaen, Mingus, Sun Ra, Anthony Braxton ou Henry Threadgill. Mas não se levará a mal quem, intoxicado, por exemplo, pelo que escute em ‘Beneath the Shell’, se deixe transportar para aquele tempo em que verve melódica, elegância rítmica, subtileza harmónica e apurado sentido do dramático eram combinados por Gil Evans ao serviço de Miles Davis ou por Billy Strayhorn à sombra de Duke Ellington. Convenhamos, comparada à paleta de infinitas matizes de que se socorriam essoutros orquestradores, Formanek recorre, aqui, a pouco mais que uma escala de cinzentos (entre os instrumentos deste Ensemble Kolossus incluem-se quatro trombones, clarinete baixo ou saxofone barítono). Ou seja, pese embora a referência à antiguidade grega, não se terá deixado subjugar inteiramente por aquilo que, um dia, Tom Zé definiu como “complexo de épico”. No entanto, nem a agilidade das suas cadências, o exotismo das suas modulações ou o sotaque dos seus solistas compromete a coesão de uma expressão coletiva que se arrisca a ficar para a história.

29 de março de 2014

Matt Bauder And Day In Pictures “Nightshades” (Clean Feed, 2014)



Há teorias que pegam por contágio. No caso, desde “Day in Pictures” (2010) que, no domínio da crítica, e a propósito do quinteto de Matt Mauder, se fala de uma proveitosa estilização de figuras com pelo menos 50 anos como se nada de estranho houvesse na redução a aspetos decorativos da parte mais equilibrada do modernismo jazzístico da década de 60 ou como se não estivesse a própria música de Bauder, Nate Wooley, Jason Ajemian, Tomas Fujiwara e Angelica Sanchez (entretanto substituída por Kris Davis) repleta de aforismos da estirpe ‘Nova Iorque é Agora’. Nessa perspetiva, recordando-se um punhado de álbuns de uma só editora, “Nightshades” decalcaria algo do que, em 1964, a Blue Note postulou através de “Point of Departure” (Hill), “The Sidewinder” (Morgan), “JuJu” (Shorter), “Destination… Out!” (McLean) ou, já que, com este título, aludiu Bauder à família botânica da batata, “Out to Lunch!” (Dolphy). A ilação, que ninguém parece tirar, é que tal empreitada – como no “Vou-me Embora para Pasárgada”, de Manuel Bandeira, com o verso “[Lá] Tem alcaloide à vontade” inspirado na mesma ordem de plantas – situaria Bauder nas redondezas da alienação, premissa incompatível com o que se qualifica como a ação de um baluarte da vanguarda. Talvez por isso se transforme aqui o popular em esotérico – conferir o contorno etíope de ‘Octavia Minor’ –, revelando-se restritivo o que já foi ilimitável. De facto, é  difícil aceitar que tem cada período da história do jazz de lidar com um conjunto de estéreis convenções. E, no entanto, por nenhum outro motivo tanto estimula a imaginação este “Nightshades”.