Nessa perspetiva, o que Albert Soler, do
Centro de Documentação Ramon Llull, da Universidade de Barcelona, escreve sobre
um é válido para o outro: “Apesar da viagem, para Llull, se provar sobretudo um
instrumento necessário à prossecução de projetos missionários, não deixa ao
mesmo tempo de refletir um espírito de abertura e uma vontade indómita de comunicar.
As suas propostas intelectuais e espirituais levam o leitor a abandonar as suas
próprias zonas de conforto, a formular e dar resposta a questões por si mesmo ou
a disputar o que lhe é dado de antemão a conhecer.” Também no caso de Savall se
fala amiúde em missionarismo. E ele costuma repetir mais ou menos que “a arte é
uma das dimensões mais nobres da vida na terra, mas que não é suficiente em si
mesma. O estetismo pode levar à desumanização. Se a música não for mais que uma
distração ou, inclusivamente, um ideal, desligado de aspetos espirituais, das
dores dos outros e do quotidiano, então, sim, poderá conduzir a
totalitarismos.”

Daí jamais abdicarem de enunciar tudo aquilo
a que se propõem, estas edições de Savall. Multilingue e multifacetada, “música sacra (cristã,
muçulmana e judaica), bem como memórias da Jaime I, Pedro III, Afonso III
e Jaime II, por intermédio de obras Raimon de Miraval e Bernat de Ventadorn.
Em notas de apresentação, Savall
torna claro o complexo de emoções que de si se apoderou: “Ramon Llull exemplifica
o homem que vive intensamente o seu tempo e que permanece fiel aos seus princípios
e ideias até às últimas consequências, convencido de que a arte, o conhecimento,
a fé e o diálogo são instrumentos para melhorar o mundo. Pensador, poeta,
filósofo, teólogo, orador, evangelizador, tudo o que fez, e tudo aquilo em que
acreditava, se revela um inesgotável testemunho de ensinamentos que permanecem
em vigor e, mais do que nunca, necessários. É por isso indispensável recordar e
alimentar a sua mensagem, estudando e difundindo a sua obra. Desse modo, o seu
espírito continuará a conduzir-nos à luz e à sabedoria, imprescindíveis num
mundo sem rumo em que, a cada dia que passa, o fanatismo e a estupidez nos
afastam inexoravelmente dos ideais pelos quais se regeu mestre Ramon: os de uma
civilização que fundamenta o seu humanismo no ensino e no diálogo, na
espiritualidade e na beleza.”
Impõe-se aqui uma ressalva. É que,
como sugeriu Luísa Costa Gomes no romanceado “Vida de Ramon” (publicado em 1991
e alvo de uma segunda edição revista este ano), “alguns comentadores torcem
Ramon para a imagem de um beato ecuménico, interessado sobremaneira no diálogo
das civilizações, na procura da raiz única da religião universal, e passam
ligeiramente ao lado do seu dogmatismo e dos projetos de Cruzada. É verdade
que, no princípio, enquanto os fracassos da Arte [‘Ars Magna’] não eram
visíveis e amargos, se inclinou para as liberalidades, deixando em aberto
discussões, persuadido da evidência que ele mesmo transportava, a saber, de que
as luzes da razão e da demonstração fariam derrubar os limites dos credos
particulares não-católicos. Mas a velhice encontrou-o cada vez mais aferrado à
ideia autoritária que vinha da mistificação inventada pelo próprio de que os
povos muçulmanos eram contrariados pela opressão dos déspotas e que, varridos
estes, aqueles aceitariam a pregação cristã.”
Mas Savall, cuja curiosidade se
diria tão incansável e transbordante quanto a de Llull, contorna o embuste da
metafísica. Aliás, imagina-se o catalão a pegar na “Vida Coetânea” do maiorquino
(o relato biográfico que Llull deixou aos cartuxos de Vauvert), ler o seu
início (“Sendo Ramon senescal do Rei de Mallorques, ainda jovem, e muito dado a
compor cantilenas ou canções, estava uma noite sentado junto à cama, disposto a
compor e a escrever uma cantiga sobre certa dama a quem amava. Começava a
escrevê-la quando, olhando à direita, viu Nosso Senhor Jesus Cristo pregado na
cruz. Sentiu medo e, deixando o que tinha entre mãos, meteu-se na cama.
Levantando-se no dia seguinte, voltou às vaidades de sempre; e passados quase
oito dias, no mesmo lugar e à mesma hora, de novo se dispôs a escrever a dita
canção; e de novo lhe apareceu o Senhor na Cruz”, etc.) e a pensar para si
mesmo: ainda que o ponto não seja esse, que pena nada se saber dessa canção que
Llull tentava a todo o custo completar.
Porque Savall crê numa frase de
Elias Canetti que vem repetindo há uns bons 15 anos: “A música é a história
viva da humanidade, da qual, de outra maneira, possuímos apenas as partes
mortas.” E, já agora, deve comungar dessoutra que abdica de citar: “Quanto mais
densamente se povoa o mundo e quanto mais mecanizada se torna a forma de viver,
mais indispensável se deve tornar a música.” Pois, tal como esse descendente de
judeus sefarditas evacuados à força de Espanha em 1492, também Savall vê a
música como um “potente e intacto reservatório de liberdade”. Disse à “Folha de
S. Paulo”, em 2001, que “a música não pode ser uma ciência, nem uma
arqueologia. É sempre um ato criativo, e o ato criativo não pode ser uma imitação.
Não pretendemos interpretar estas músicas como foram interpretadas na sua época.
O que pretendemos é a fidelidade aos textos, ao espírito e caráter. A vigência
de uma música depende da capacidade que tem de emocionar-nos hoje como um dia emocionou
os seus contemporâneos.”
Nessa medida, esta edição, cujo
subtítulo abraça o paradoxo (“Tempos de conquistas, de diálogo e de
desconsolo”), é exemplar, pois a pretexto do périplo de Llull por Santiago de
Compostela, Montpellier, Roma, Paris, Túnis, Chipre, Génova, Bugia e Sicília,
os trechos de “Livro de Contemplação”, de “Vida Coetânea”, do belíssimo “Livro
do Amigo e do Amado” ou de “O Desconsolo” (recitados em catalão por