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16 de abril de 2016

Villa-Lobos: The Complete Guitar Works (Paraty, 2016)



No livreto, numa prosa algo mastigada pela ansiedade, Mickael Viegas logo diz ao que vem: “Este projeto teve como principal conceito a partilha de uma nova perspetiva da obra [de Villa-Lobos], que consiste na adição de todo um possível material melódico e harmónico (…) que o compositor tenha retirado ou alterado.” Como causa única para tamanha incompletude apontam-se “as limitações inerentes” à guitarra clássica. Mickael, então, por ter tornado redimíveis tantas dessas “notas impossíveis de tocar num só instrumento”, procedeu à “elaboração de várias orquestrações sobre algumas das obras” (“arranjos inteiramente inspirados na obra manuscrita do compositor”, adianta), que, de seguida, registou com recurso à sobreposição de “uma ou mais” pistas de guitarra. E vem desse estímulo o subtítulo deste seu CD: “The Prospect of a Future Guitar”. Porque segundo o guitarrista há muito radicado em Portugal e atual docente na Escola Profissional Metropolitana, em Lisboa, “este método de gravação oferece ao ouvinte a perceção de que o som emitido provém de apenas um instrumento, neste caso, de uma guitarra do futuro (…) com capacidades ainda inexistentes na guitarra dos nossos dias.”

O resultado traz à memória a guitarra enquanto ícone das artes visuais, elemento recorrente do cubismo via Picasso ou Gris, súbita e inesperadamente tridimensional, retrato de um ato de restauro que se confundia com o da rasura e se expandia em proporções geométricas tanto pelo campo da mente quanto pelo da visão. É também um Villa-Lobos como jamais se ouviu o que agora se propõe. Mas, e isso seria já pedir demais, não deixa de ser o mesmo Villa-Lobos de alma dividida de sempre aquele que se invoca. Não obstante, principalmente nos “12 Estudos”, nunca se deixa de sentir que Mickael crê na utopia que vem fundar. Aliás, escutam-se os “5 Prelúdios” e mais cedo se reconhece um exercício de responsabilidade perante o presente do que um rastro de afetos passados. É que esta integral permite que se redescubra a dimensão dramática e a força narrativa destas peças, mais que as suas vulgaridades sentimentais, sem que venham ao de cima as muitas nostalgias que possuem e que outros executantes talvez não tivessem deixado sepultadas. Como um Villa-Lobos sob os efeitos de uma extemporânea lucidez, aqui o mais sedutor é também o mais insidioso: borrando as linhas entre o circunstancial e o permanente, a colocação da exigência interpretativa acima das condições mais elementares da experiência do solista.

10 de outubro de 2015

Scriabin: Piano Sonatas (Paraty, 2015)




Varduhi Yeritsyan (p)
Quem, este ano, ignaro dos seus períodos de maior placidez e perturbação, se decida por explorar o alvor musical do século XX a pretexto do tricinquentenário do nascimento de Sibelius e do centenário da morte de Scriabin terá dificuldade em conciliar tudo o que se lhe puser por diante, conquanto se tratem, no seu essencial, dos frutos de uma mesma época: de um abissal mistifório, aquela, grosso modo, compreendida entre 1895 e 1915. Dir-se-ia, até, que pelos factos à disposição se pode ir dar a duas conclusões inteiramente contraditórias: primeiro, derivada da audição da cândida obra sinfónica do finlandês, por exemplo, que não se trata de uma fase tão agitada quanto se pensava; e segundo, em consequência da análise das convulsas peças para piano do russo, que, ao invés, ela foi mais prenhe em acontecimentos do que alguma vez se podia imaginar. Só assim é na superfície, como se sabe. Aliás, talvez por ter perfeita consciência dos semelhantes credos em que comungavam (vide respetivas inclinações teosóficas, transcendentais, seráficas, sobrenaturais, enfim, todo o colesterol do catecismo em que eram fartos) se tenha Glenn Gould socorrido de ambos num dos seus discos mais esotéricos: o “Acoustic Orchestrations”. Mas serve agora a sugestão para recordar, em Scriabin, o quanto se deteta ainda daquilo que parece absolutamente alheio a este mundo, permanecendo as dez sonatas como uma pendência dessa qualidade. Nelas, a arménia Varduhi Yeritsyan surge estrelante, cintilante e bruxuleante, sublinhando o sinuoso e intensificando o indicioso, tudo jungindo à inquietação, insinuação e sensualidade.