No final dos anos 90, em Londres, conversava com
Dominic Norman-Taylor acerca dos planos imediatos da All Saints: “Na verdade,
não temos nada de especial em fase de preparação”, dizia-me ele. “Como sabe, a
nossa missão é sobretudo a de manter em catálogo o património adquirido à Opal,
a antiga editora do meu cunhado [Brian Eno]. Nessa perspetiva, prolongar uma
relação de trabalho com gente como o próprio Brian, como o Harold Budd ou os
membros dos Channel Light Vessel [Bill Nelson, Roger Eno, Kate St. John e
Laraaji] é já suficientemente ambicioso. Quer dizer: com o Laraaji, duvido. É
muito possível que o tenhamos perdido de vez para o campeonato da new age!” Como é óbvio, Norman-Taylor estava
longe de adivinhar que a All Saints viria a colocar no mercado uma antologia
como “Celestial Music: 1978-2011” (2013), reeditar “Essence/Universe” (2013), anunciar,
em 2017, o díptico “Sun Gong” e “Bring on the Sun” ou, agora, através deste
“Sun Piano”, precisamente, patrocinar a primeira gravação de Laraaji em piano
solo (e entretanto, para o mês que vem, está já agendado o lançamento de “Moon
Piano”). Realmente, com tão radiante produção, não há de o septuagenário
insistir em adorar o astro-rei – não ignorando que, orientado por Brian Eno, e
após um encontro fortuito pelos passeios de Washington Square Park, em Nova Iorque,
onde, no chão, sentado na posição de lótus, tocava cítara, foi com “Day of
Radiance” (1980) que saiu do anonimato. Aí, conforme relatou, não se deu tanto
o caso de Eno nele ter tropeçado quanto o de ele ter intimado o universo a levar
até si alguém como Eno – no fundo, é o seu método (“Sento-me, toco no piano e afirma-se
uma presença. É um modo de veicular alegria, euforia, contentamento, silêncio,
relaxamento, contemplação”, in “Aquarium
Drunkard”). Pense-se em Bobby Timmons a descobrir o dédalo do gamelão ou num
meio-termo entre Harold Budd e Bud Powell, entre o om e o ámen, mas fundamentalmente recorde-se o Satie que afirmou
que a música “cumpre o papel da luz” – um raio de sol a rabiscar o céu, cintilantes
acordes suspensos na atmosfera, um arco-íris de pernas para o ar, a sorrir.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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12 de setembro de 2020
Laraaji “Sun Piano” (All Saints, 2020)
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4 de julho de 2020
Tidiane Thiam “Siftorde Fateliku Souvenir Remember” (Sahel Sounds, 2020)
Ao final da tarde, quando o sol se põe, é como se a
cidade inteira fosse subitamente engolida por uma onda de âmbar – pelo menos, era
o que me dizia Baaba Maal, em 1998, pelo telefone, referindo-se a Podor, o
lugar em que nasceu. Para alguém que tinha acabado de gravar “Nomad Soul”, um
ambicioso disco em que participavam Simon Emmerson (Afro Celt Sound System),
Robbie Shakespeare, Brian Eno, Jon Hassell ou Howie B, revelava-se muito
terra-a-terra: “Isto teve o seu êxito, porque o Simon veio aqui ter comigo, a Podor
– veio beber à fonte, se é que me faço entender” – o que era mais ou menos como
Ali Farka Touré descrevia o seu encontro com Ry Cooder nas margens do rio
Níger. Comento que, para mim, Podor só apareceu no mapa quando li, algures, que
era dali que ele e Mansour Seck vinham. “Quer saber uma coisa?”, perguntou. “O
Mansour é cego, mas foi ele que me mostrou as riquezas da região. Fizemos
quilómetros e quilómetros, um ao lado do outro, e ele dizia: ‘Baaba, dali vieram
os almorávidas e, com eles, o canto do muezim. Baaba, ouve: é uma melodia de
pastores berberes, acompanhada ao alaúde. E isto é o ritmo do pau do pilão, a
moer grão. Aqui, tens o balido do borrego e, aqui, o barrido do elefante. E, no
escuro, quando o vento sopra do Sahel e o grilo canta, escutam-se cordas de
corá entre grãos de areia.’ Depois, mostrava-me tudo isto à guitarra.” Sem
saber, Maal referia-se, já, à síntese de Tidiane Thiam, neste prodigioso
“Siftorde Fateliku Souvenir Remember” – também ele gravado em Podor, à noite,
com o senegalês cercado pelo estridular dos insetos e pelo som de alguém a
servir o chá, aqui, de um todo-o-terreno a arrancar para o vazio, acolá, da
ronco contínuo de um gerador, mais além. Atraídos pelo petromax, ou algo do
género, estão os espectros daqueles que lhe seguram a mão antes de dormir – e
este título, com a mesma palavra repetida em quatro línguas diferentes, traz à
memória a Torre de Yser, na Flandres ocidental, onde se lê em holandês,
francês, inglês e alemão: “Guerra nunca mais” – que talvez seja o que Thiam
quer. Se assim é, estes dez instrumentais são o seu “Hino à Alegria”.
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30 de maio de 2020
Edikanfo “The Pace Setters” (Glitterbeat, re. 2020)
Há coisa de dez anos, tinha ele acabado de escrever notas de
apresentação para “Ghana Funk from the 70s”, na Hippo, entrei em contacto com
John Collins, instrumentista, investigador e docente na Universidade do Gana. Trocando
impressões sobre a avalanche de antologias focadas em música ganesa que na
altura atingia o mercado, dizia-lhe que achava extraordinário nenhuma delas
incluir os Edikanfo, dos poucos a terem sido editados na Europa. “É verdade”, respondia-me. “Mas, se reparar, sob esse prisma, a omissão
dos Osibisa será ainda mais escandalosa. Não só, no Gana, se passou a desconfiar
das bandas que se atreveram a combinar ritmos ganeses com rock e soul, como,
também, na Europa, se passou a questionar a honestidade das bandas africanas
que procuraram nos anos 70 e 80 sucesso fora de portas. Sem que o tivessem
chegado a gozar, os Edikanfo, no processo, são um dano colateral.” Realmente. Atente-se
ao paradoxo nestas palavras do empresário Faisal Helwani, antigo ideólogo da
banda, em entrevista à americana “In These Times”, em 2001: “Hoje, no Gana, para
se estar na crista da onda, tem de se ouvir música importada enquanto se segura
um hambúrguer com a mão direita e uma lata de Coca-Cola com a esquerda!” Pois, em
1981, como esse futuro convertido ao purismo fez questão de garantir, bastava
ter-se Brian Eno na cabine – este, por sua vez, via materializar-se a intuição
que o tinha guiado a “My Life in the Bush of Ghosts” (com Byrne): que “na
interação entre o primitivo e o futurista, as ideias mais interessantes eram as
mais antigas”, disse, à “Sounds”. Por sorte, esperava-o em Acra gente que se
sabia na primeira linha – em acã, edikanfo
quer dizer líder – e “The Pace Setters” resulta de uma notável e elementar tomada
de consciência: com Talking Heads à cabeça, de corresponder ao passo em frente
que compensasse os dois que dava atrás quem na época pretendia renovar energias
em solo africano. Conseguiu-o, em teoria, mas o golpe militar que no final do
ano fechou o país impediu-o de o demonstrar na prática – 40 anos depois, é a
covid-19 que mantém os reformados Edikanfo presos em casa de passaporte no
bolso. A ironia.
5 de dezembro de 2015
Laraaji “Ambient 3: Day of Radiance” (Glitterbeat, 2015)
Era pelo
seu Lado B, de modo progressivo entre ‘Meditation # 1’ e ‘Meditation # 2’, mas
definitivamente mais pelo seu último tema, que este cintilante “Day of
Radiance” dava realmente o corpo ao manifesto. Nomeadamente por tão bem trazer
à memória, aí, mais do que em qualquer outro momento, esta frase crucial na
declaração pública de intenções que Brian Eno, seu ideólogo, produtor e
complicador, redigiu por alturas de “Ambient 1: Music for Airports”: “Enquanto
a música de fundo convencional se produz pela eliminação da dúvida e da
incerteza (portanto, tudo o que de genuinamente interessante a música possui),
a Música Ambiental conserva essas qualidades.” Aliás, porque nos seus
derradeiros minutos pouco se distinguem as cordas da auto-harpa e da cítara em
que foi tocado, era efetivamente à medida que caminhava para o seu final que o
som do disco mais se começava a parecer com o de um espaço acústico virtual.
Com o de uma música – como, em “A Year”, apanhado de textos diarísticos e
epistolares, refletia Eno em 1996 – em que “fosse possível nadar, flutuar,
perdermo-nos”. Por coincidência (que neste contexto é anátema), numa entrevista
deste ano, Laraaji falava num “banho de acordes”. Dir-se-ia, até, que lhes
bastou esta colaboração em 1980 para compreenderem que da música queriam a
mesma coisa: um pretexto para uma nova forma de pensar, que é como quem diz uma
nova forma de viver.
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