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2 de maio de 2015

Boubacar Traoré “Mbalimaou” (Lusáfrica, 2015)



Em meados dos anos 90, durante uma temporada em Bamako, a escritora Lieve Joris assistia a um concerto de Boubacar Traoré, “um cantor de blues nos seus cinquenta e picos, sozinho à guitarra, vestido de fato escuro e com uma boina em xadrez na cabeça.” Aos poucos, ouvindo-o, começou a entender quem era e o que queria. E, acima de tudo, o que queria era superar o medo. Por isso deixou-se ir com aquela voz que se interrogava: “Ei, Seyba, onde estás?/ Ei, Brahima, em que lugar te encontras?/ Meu querido Kalilou, para onde foste?/ E tu, Pierrette?/ Ó minha Ba Diallo, onde estás tu?/ Que Deus tenha piedade de ti”. Mais tarde, visitando-o, percebeu que Boubacar cantava acerca de filhos, filhas, irmãos, irmãs, mulher... Todos desaparecidos. E que o fazia como se o ato de lhes ter sobrevivido se equivalesse ao de lhes ter tirado a vida com as próprias mãos. “A Ba Diallo era a minha primogénita. Foi-se mais ou menos com oito meses. Perdi cinco filhos mas a morte dela foi a que mais me custou. Claro que, depois, quando faleceu a mãe deles, a minha Pierrette, parecia que era eu que ia morrer. Tive de me ir embora do Mali”, explicava, enquanto espalhava açúcar à volta do pavio de uma vela para a fazer render, a noite cobrindo-lhe as paredes do casebre. São histórias que a autora reúne em “Mali Blues”, uma crónica de viagem publicada em 1996, em que tenta a todo o custo estar à altura de tão trágico destino, mesmo se mais não faz do que anotar desencontros. Desde então, numa mão-cheia de discos, é sobre isso que Traoré ainda canta: querer chegar às pessoas que mais amou, e não conseguir.

24 de novembro de 2012

Natal 2012



 Cesária Évora “Miss Perfumado” (Lusáfrica/Sony, 2012)
Guiadas por elegantes arranjos nas inquietas mãos de Paulino e Toy Vieira, chegavam em 1992 as mornas e coladeiras de “Miss Perfumado” e foi como se finalmente arribassem tesouros transatlânticos há muito perdidos no mar. A voz de Cesária expiava, excarcerava e a cada golfada desfazia grilhões. Às treze canções originais soma esta edição comemorativa outras dezassete, extraídas de álbuns predecessores.
Djavan “Rua dos Amores” (Luanda/Emarcy/Universal, 2012)
Djavan corre por fora na pista da fusão e, 30 anos depois de “Luz”, já deu mais do que uma volta de avanço a Al Jarreau. E embora se ouça como sucessor natural de “Matizes” (2007), tudo aqui, numa assinatura única, está simultaneamente mais artesanal e industrial, sob a perspetiva por si sintetizada numa entrevista ao jornal Globo: “prefiro ouvir que [a] minha música é diferente [do] que linda”.

“The Rough Guide to the Music of Ethiopia” (Rough Guide/World Music Network)
Foi editada uma primeira versão desta antologia em 2004, tratando-se então de sintetizar para neófitos a produção reunida na vintena de títulos inicial da série Éthiopiques. Oito anos depois, é da influência dessa mesma coleção na diáspora etíope que não se consegue deixar de falar, coligindo-se Bole 2 Harlem, Dub Colossus, Samuel Yrga, Krar Collective ou Invisible System, estes antologiados no segundo CD.

23 de julho de 2011

Sugestões de Verão

Renaud García-Fons “Méditerranées” (Enja, 2011)
Em “Breviário Mediterrânico”, Pedrag Matvejevic interrogou-se sobre o impulso em unificar aquilo cujas fronteiras “não se desenham já no espaço ou no tempo”. E, numa altura em que o Mediterrâneo é menos um mar do que uma dieta, o contrabaixista francês, com um plural no título que recusa a restrição contemplativa, abandona-se à viagem lembrando que cada ode marítima é uma canção de exílio.
Mário Lúcio “Kreol” (Lusafrica, 2011)
Um pouco como a ideia que Mário Lúcio tem do Homem, também a sua música se assemelha a muitas sem ser igual a nenhuma. E, em equivalente analogia, mais verdadeira se torna quanto menos se esforça para o parecer. Com Milton Nascimento, Pablo Milanés, Teresa Salgueiro ou Toumani Diabaté entre os convidados, esta travessia evoca a cultura crioula com que se pode sonhar em certas praias do Atlântico.
“La Habana Era Una Fiesta” (Vampisoul, 2011)
Esta antologia de emissões de rádio em Cuba, nas décadas de 40 e 50, divide-se entre versões do cancioneiro popular espanhol feitas por cubanos (Celia Cruz, Omara Portuondo ou Celeste Mendoza) e gravações de espanhóis em Havana (Conchita Piquer, Lola Flores ou Antonio Molina). O que salta à vista é não pertencerem bem a nenhum dos sítios e sim a um terceiro, perdido no mar: o da saudade.
“Fania Records 1964-1980: The Original Sound of Latin New York” (Strut, 2011)
Casa-mãe de uma luminosa sensibilidade pan-caribenha ampliada pelo prisma metropolitano da cidade que nunca dorme, a Fania acolheu cubanos, dominicanos, porto-riquenhos ou, crucialmente, nova-iorquinos (Barretto, Colón, etc), potenciando a experiência latino-americana e sonorizando a ‘verdade das ruas’ até ao ponto de a substituir. Um duplo CD que se ouve como uma crónica do (fim do) mundo.
Vinicius Cantuária & Bill Frisell “Lágrimas Mexicanas” (Naïve, 2011)
Mais do que sublinhar características comuns entre ritmos e melodias da América do Norte, Central ou do Sul, trata-se aqui de celebrar uma forma muito peculiar de as colocar do avesso. Cantuária e Frisell, como alfaiates que deixam costuras à vista, não aceitam diluir assinaturas pessoais em troca de uniformidade estética e fazem agora o que fez Arto Lindsay à bossa nova ou David Byrne à salsa.

5 de março de 2011

Boubacar Traoré “Mali Denhou” (Lusafrica, 2010)

Foi há quase 20 anos que um disco-resgate da Luaka Bop acabou com o exílio de Tom Zé. E, desde então, sempre que se escreve sobre o tropicalista logo se evoca o momento da ressurreição como o que determina a sua obra subsequente. Boubacar, que por intermédio da Sterns também em 92 voltou ao mundo, sabe o que significa ser em vida tido como morto. E se, degredado e à procura da sobrevivência, esteve o brasileiro à beira de se ocupar de uma bomba de gasolina, já o maliano, longe das ondas de rádio que na alvorada da independência do seu país lhe haviam trazido fama, se tornou nas mesmas condições agricultor, feirante e, em Paris, empregado na construção civil. E, contrariamente a Zé – capaz de vociferar sobre o tema no mais desesperado existencialismo e de o transformar em combustível criativo –, Traoré, por ser um homem de fé ou por não estar hoje junto de si quem a seu lado então penou, nunca recuperou da solidão em que viveu. Tal testemunhou o seu regresso, com “Mariama” e “Kar Kar”, e de outra coisa – dessa imensurável tristeza – não falam “Mali Blues”, o capítulo que no livro homónimo lhe consagrou Lieve Joris, e “Je Chanterais Pour Toi”, o documentário a si dedicado por Jacques Sarasin. “Mali Denhou” é o culminar dessa tendência e, mais que “Kongo Magni” (o disco de 2005 de que é esteticamente cúmplice), uma cálida mensagem de paz – vinda de quem um dia teve a mulher a morrer nos braços em consequência de quezílias com parentes, maior prova disso não haverá que ‘M’Badehou’, a canção na qual declara as virtudes da coesão familiar. Ancoradas numa guitarra presa à terra, estas crepusculares meditações ganham contraponto no fluente fraseado da harmónica de Vincent Bucher e, como em tempos fizeram Muddy Waters e Little Walter ou Elmore James e Sonny Boy Williamson, dizem o que da vida vai ficando nas margens de um rio sem destino certo.