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4 de janeiro de 2020

Simon Nabatov Quintet "Last Minute Theory" (Clean Feed, 2019)


Pode ter um título destes à vontade, que nem por um segundo, sequer, se imagina ter sido composto à última da hora. Aliás, não será exagero nenhum afirmar que Nabatov teve de esperar duas décadas para que finalmente se reunissem as condições que lhe permitissem superar o enunciado em “The Master and Margarita” (gravado em 1999, em Colónia, com recurso a um quinteto em que figuravam Herb Robertson, Mark Feldman, Drew Gress e Tom Rainey). Claro que, aí, então, a sua escrita seguia embalada pela do romance homónimo de Mikhail Bulgakov, que, por sua vez, sabia já bater o pé ao ritmo deste andamento (uma citação: “E exatamente à meia-noite algo estrondou na primeira sala, tilintou, desabou, começou a pular. […] Era o famoso grupo de jazz (…) que começava a soar. Os rostos cobertos de suor pareciam reluzir, era como se os cavalos desenhados no teto estivessem vivos, as lâmpadas pareciam irradiar mais luz e, de repente, era como se as duas salas tivessem perdido as estribeiras e caído na dança.”). 

Aqui, agora, este novo quinteto de Nabatov (não menos superlativo que o outro, constituído que é por Tony Malaby, Brandon Seabrook, Michael Formanek e Gerald Cleaver) não se vê sustentado de modo intravenoso pela literatura. Ou melhor, tudo nele é mais alusivo e aluado, disfuncional e funambulesco, como quando se aplica o filtro de um filme ao preto e branco das páginas de um livro – e, pondo-o a tocar, o que logo salta à memória é “The Shining” (1980), com aquela música das orquestras de música ligeira dos anos 20 e 30 que se ouvia no seu Salão Dourado a parecer tão anacrónica para a altura quanto neste contexto se prova ser um tema inicial chamado ‘Old Fashioned’. Trata-se de um estranhamento que o disco não cessa de articular de maneira narcótica e narcísica – e até quando o cânone se insinua (como em ‘Afterwards’, que cita ‘Inútil Paisagem’, de Jobim) se pressente a insídia, com a guitarra elétrica de Seabrook a ameaçar perder de vez a razão e gritar: “Here’s Johnny!”

28 de dezembro de 2019

Michael Formanek Very Practical Trio “Even Better” (Intakt, 2019)

Quando escreveram ‘Money (That’s What I Want)’, há 60 anos, Janie Bradford e Berry Gordy, o fundador da Motown, estavam a ser práticos – mais, realmente, só os Sigue Sigue Sputnik, que em meados de 80 incluíram anúncios entre os temas de “Flaunt It”, ou Belchior, que cantou: “Hoje eu não toco por música/ Eu toco por dinheiro.” Por isso, nos dias que correm, no mundo do jazz, quando Michael Formanek, Tim Berne e Mary Halvorson se apresentam como Very Practical Trio estão praticamente a fazer um convite à ironia – e, caso fizesse crítica musical, imagina-se o painel do “Passadeira Vermelha” a reagir a este disco dizendo coisas como: ‘Ai, não acho nada prático!’ Com uma ressalva para o sentido prático que Mary revela em palco, para o qual se desloca sempre de mala ao ombro, estão, no fundo, a ser tão literais quanto Satie, que dizia: “Não entreis numa casa que não usa a música para mobilar.” Ou seja, sabendo da poda, ainda que intrincadamente labiríntica aqui e inevitavelmente arbitrária acolá, estão a apelar para que não se caracterize à partida a música que os três fazem com palavras que signifiquem o oposto de prático.

Não admira, vindo de quem vem – basta lembrar o título daquele disco de Formanek, “Am I Bothering You?” (1998), em que se dirigia a todos quanto num clube de jazz aproveitam os solos dos contrabaixistas para ir ao bar ou à retrete. Por isso, também, neste particular, e em termos aproximados, esta adesão ao modelo insuspeito, íntegro e irredutível da canção, onde habitualmente se corta a gordura em excesso, o supérfluo, o descartável, o desnecessário, até ao osso. Em ‘Like Statues’, por exemplo, recorre-se à aura do blues – um estilo tão inequívoco que nem admite a arguição de ilegitimidade (um teste: qual destes nomes lhe parece mais verdadeiro – McKinley Morganfield ou Muddy Waters?) – e a terminar o CD tocam ‘Jade Visions’, de Scott LaFaro, na cadência de ‘Falling’, do genérico de “Twin Peaks”. Há 9 anos, à revista “Bass Player”, Formanek explicava que não “apreciava esse tipo de limitações [que se impõem à improvisação]”, que se entusiasmava quando “encontrava um groove” e podia tomar outras músicas como referência. Na prática, é o que pretende este Very Practical Trio: pegar naquilo que pensamos conhecer e torná-lo ainda melhor.

29 de dezembro de 2018

Michael Formanek Elusion Quartet “Time Like This” (Intakt, 2018)

Mal começa, com o elusivo ‘Down 8 Up 5’ (e, sim, o título da peça descreve exatamente o movimento descendente e ascendente do seu principal motivo melódico e rítmico), é no narrador de “O Expulso”, de Beckett, em que se pensa, incapaz de uma coisa tão simples quanto contar os degraus de uma escadaria. Principalmente, ali umas linhas mais à frente, quando se dá com uma frase destas: “As memórias matam. Por isso mais vale nem pensarmos em certas coisas (…), quer dizer, é melhor pensarmos nelas, sim, todos os dias, várias vezes ao dia, ou senão corremos o risco de as ver despontar uma a uma na nossa cabeça.” Agora, é Michael Formanek que nos vem falar de um tempo permanentemente poluído pela memória – ou, se possível, e de modo muito paradoxal, da necessidade de blindar a sua música à involuntariedade. Isto é, como insinuaria Beckett ao escrever sobre Proust, de ser preferível cultivar-se o esquecimento. Uma ideia francamente absurda, claro. E sobe e desce mais desconcertante do que o deste seu tema só mesmo no Bucha e Estica de “Dois Músicos Desafinados”, em que Stan e Ollie tentam carregar um piano escada acima e, também eles, como o protagonista do conto de Beckett, se vêem aflitos com os degraus. Aqui, é com ‘A Fine Mess’ (“Another Fine Mess” ou, em português, “Proprietário à Força”, chamava-se outra curta-metragem da dupla) que se invoca essa forma cómica de lidar com a aleatoriedade do mundo que, quer em Beckett quer em Laurel & Hardy, serve igualmente para sublinhar toda a tragédia da inação. 

Porque, de forma mais ou menos metafórica, nesta música não deixa de estar presente… Isso, o presente. Aquilo, por exemplo, a que Formanek se poderá estar a referir com ‘The New Normal’, que é uma daquelas expressões que passam subitamente a contaminar o chorume da linguagem jornalística no seu país (algumas manchetes da semana passada: “The New Normal isn’t normal at all” in “The Washington Post”; “Jailing Hundreds of Journalists Worldwide is the New Normal” in “The New York Times”; “Is Tear Gas at the Border the New Normal?” in “The New Yorker”). O que só por si serve para explicar o batismo do quarteto que formou com Tony Malaby, Kris Davis e Ches Smith, um que não só evita a prisão ideológica deste tempo como em termos de andamento a das próprias composições, ficando tudo fora dos eixos, a abrir a sutura da partitura. Como a grande música de qualquer era, aliás.

6 de maio de 2017

The Angelica Sanchez Trio “Float the Edge” (Clean Feed, 2017)


Não aponta propriamente para aí, o seu título. Mas há momentos magníficos neste “Float the Edge” que se assemelham aos movimentos de fluxo e refluxo das massas de água à superfície da terra, com os seus constituintes básicos sob a ação de campos gravitacionais distintos. São instantes em que se indicam direções muito diferentes uma da outra, claro, com Angelica Sanchez interessada em melodia, por exemplo, enquanto, em simultâneo, Michael Formanek se concentra mais em harmonia ou Tyshawn Sorey no ritmo, sem que se chegue bem a materializar a estrutura que determina cada peça, nem, por outro lado, se distinga qualquer fricção entre os seus elementos. A pianista apresenta-o deste modo: “Na qualidade de trio, muito do que fazemos é levar as coisas ao limite, tomando o risco de mergulhar no vazio. Quando temos êxito parece que estamos a flutuar – é belíssimo.” 

Daí, quiçá, a evocação de certos arquétipos: ‘Shapishico’ é uma figura metamórfica do folclore peruano capaz de atrair transeuntes para o coração da selva amazónica; ‘Substance Of We Feeling’ refere-se ao alimento espiritual do Império de Canopus, criado por Doris Lessing no alegórico “Shikasta”; ‘Hypnagogia’ chama a si o fenómeno do sonho lúcido, ‘What the Birds Tell Me’ o canto dos pássaros, etc. Isto é, Sanchez vai de encontro às conclusões de alguns estudos em neurociência: para o que agora interessa, que a consciência é muito mais passiva do que aquilo que julgamos; que os seus conteúdos ativos vivem sobretudo de estímulos exteriores que iludem o nosso controlo. O que apenas reforça o profundo quadro ético em que opera, no qual incerteza, involuntariedade e imediatez contribuem tanto quanto o seu inverso para o resultado final: é “estar no mundo, mas não ser dele”, como se diz no sufismo, que Lessing praticava, embora aqui se tenha o livre-arbítrio como fundamento. De facto, o melhor jazz nunca foi de outra maneira.

13 de fevereiro de 2016

Michael Formanek – Ensemble Kolossus “The Distance” (ECM, 2016)



De certa forma, este “The Distance” sugere um olhar atualizado sobre “Nature of the Beast” (Enja, 1997). Ou, melhor, tratar-se-á de mais um caso em que se atribui a material antigo o dom da profecia. É que, já aí, nomeadamente em ‘Thick Skin / Dangerous Crustaceans’, quando Tim Berne, Tony Malaby e Chris Speed se juntavam a Formanek, Jim Black, Steve Swell e Dave Douglas, se diria lançada a semente para o eloquente exercício de escrita que agora se concretiza. Claro que, entre um e outro momento, se dá um hiato na expressão mais visível da atividade do contrabaixista e compositor que, neste decénio, só um par de CD na ECM (“The Rub and Spare Change” e “Small Places”, ambos em quarteto) veio interromper. Não obstante a excelência de cada um, cumpririam neste raciocínio a função dos exercícios que terá de fazer quem pretenda recuperar uma determinada capacidade motora. Até em virtude de uma curiosa titulação – “The Distance” é dominado por “Exoskeleton”, uma suíte com cerca de uma hora, formada por andamentos como ‘Impenetrable’ ou ‘Beneath de Shell’ – salta à memória esse registo mais remoto.

Mas nada deixava antever a magnificência de que o atual se reveste. No material de promoção da editora, Formanek admite um peculiar conjunto de influências: Messiaen, Mingus, Sun Ra, Anthony Braxton ou Henry Threadgill. Mas não se levará a mal quem, intoxicado, por exemplo, pelo que escute em ‘Beneath the Shell’, se deixe transportar para aquele tempo em que verve melódica, elegância rítmica, subtileza harmónica e apurado sentido do dramático eram combinados por Gil Evans ao serviço de Miles Davis ou por Billy Strayhorn à sombra de Duke Ellington. Convenhamos, comparada à paleta de infinitas matizes de que se socorriam essoutros orquestradores, Formanek recorre, aqui, a pouco mais que uma escala de cinzentos (entre os instrumentos deste Ensemble Kolossus incluem-se quatro trombones, clarinete baixo ou saxofone barítono). Ou seja, pese embora a referência à antiguidade grega, não se terá deixado subjugar inteiramente por aquilo que, um dia, Tom Zé definiu como “complexo de épico”. No entanto, nem a agilidade das suas cadências, o exotismo das suas modulações ou o sotaque dos seus solistas compromete a coesão de uma expressão coletiva que se arrisca a ficar para a história.