Vai chegando a compilação ao fim, com ‘Automatic
Clapping’ (1977), e eis que aparece Jah Buzz com as sílabas em curto-circuito, numa
bateria verbal capaz de lhe fazer jus ao nome e que curiosamente traz à memória
a Gal Costa de ‘Clariô’, quando, nesse mesmo ano, cantava: “Eram nuvens escuras/
Sobre o céu da cidade/ De repente a fagulha/ Raio, eletricidade/ Ô clariô//
Eram ideias confusas/ Na cabeça e no peito/ De repente a palavra/ Fogo, canto e
desejo/ Ô clariô// Eram passos cansados/ De dançar a mesma dança/ De repente
uma nova/ Reggae, luz, esperança/ Ô clariô”. De facto, na época, com a Jamaica
em estado de emergência e à beira da guerra civil, só a música serviria de
lenitivo. Por outro lado, e quiçá pela mesmíssima razão, era uma variegada
fonte de poder que privilegiava não só compositores, produtores e intérpretes, como,
também, um par de figuras normalmente condenadas ao anonimato: selectors e toasters, isto é, gente que escolhia temas para passar numa festa
ou numa estação de rádio e gente que genericamente improvisava em regime de livre
associação por cima de versões instrumentais de temas conhecidos. Pois, é aos
segundos que esta antologia se consagra, reunindo sob o patrocínio de Clement
Dodd expressivos registos de Prince Jazzbo, Dillinger, Dennis Alcapone,
Michigan & Smiley, King Stitt ou Lone Ranger, especialistas em reciclagem
que interiorizaram a máxima de Lavoisier: “Na Natureza, nada se cria, nada
se perde, tudo se
transforma.” Isto é, expoentes de uma prática que punha discurso
padronizado, narrativa cultural e cronologia à beira do colapso, em camadas de
significado sujeitas a todo o tipo de contingências e que funcionavam ainda como
válvula de escape. Como refere David Toop, em “Rap Attack”, havia sido assim,
nos EUA, através da ação de Daddy-O Daylie, Dr. Hep Cat ou Jocko Henderson, radialistas
que Dodd sintonizava nas suas expedições a norte em busca de discos obscuros e
cujo idioma trouxe de volta para Kinsgton como se de uma especiaria rara se
tratasse. O seu sabor nunca se perdeu.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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4 de outubro de 2019
"Studio One DJ Party" (Soul Jazz, 2019)
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18 de maio de 2019
Style & Fashion: A-Class Topnotch Hi Fi Sounds In Fine Style (Soul Jazz, 2019)
Já
David Bowie avisava: “There's a brand new dance/ But I don't know its name/ That
people from bad homes/ Do again and again/ It's big and it's bland/ Full of
tension and fear/ They do it over there/ But we don't do it here”. Estávamos em
1980, a canção chamava-se ‘Fashion’, e, nesse mesmo ano, com a mesmíssima
designação, Chris Lane e John MacGillivray fundaram uma editora que se
dedicaria a desmascarar o quanto havia de serôdio nos seus versos. “Em vez de
imitar tudo o que vinha da Jamaica tentámos incorporar nesta música a
experiência dos miúdos de cor britânicos – as histórias que nos contavam
pareciam únicas e intransmissíveis, eram relatadas nos seus próprios termos, no
seu próprio tempo, mas não deixavam de ser histórias londrinas”, dizem, agora, em
notas de apresentação. Ou seja, contrariamente ao que faziam Island, Trojan,
Pama, Frontline ou Greensleeves, a Fashion não dependeria de contratações
estrangeiras para fazer soar os alarmes da classe média no Reino Unido: os
expoentes do seu catálogo – como General Levy, Papa Face, Smiley Culture, Asher
Senator, Laurel & Hardy – eram ingleses de primeira geração.
Aliás, tendo
em conta esta lista de nomes, na compilação dá-se pela falta de Smiley Culture –
logo dele, cuja história de vida dá mostras de envolver alguma verdade
importante sobre este tipo de questões (veio a falecer após uma rusga policial
de que resultaram ferimentos graves, em 2011, 27 anos depois da Fashion ter lançado
o seu ‘Police Officer’). Já a ausência de nomes consagrados que chegavam da
Jamaica e que a editora viria a gravar – Carlton Manning, Alton Ellis, Al
Campbell, Horace Andy, Johnnie Clarke, Junior Delgado – se explicará à luz dessa
narrativa nativista. Principalmente noutro ponto que a Soul Jazz pretende
transmitir: que, graças aos seus singles
de ragga e dancehall, a Fashion se provou determinante na cena musical
britânica por apanhar boleia do jungle
em movimento ascendente – ilustram-no na perfeição os temas de General Levy,
Cutty Ranks, Poison Chang, Papa Face e Top Cat aqui incluídos. Mas esse é o fim
desta história – o início deu-se com ‘Let’s Dub it Up’, de Dee Sharp, em 1980,
e com o embalo daquela onda de mel do lovers
rock (também com Carlton Lewis e Keith Douglas) que não mais parou de se espraiar.
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Soul Jazz
19 de abril de 2019
“Bunny Lee: Dreads Enter the Gates With Praise” (Soul Jazz, 2019)
Num
“estudo estratigráfico”, dizia-me há coisa de 20 anos Steve Barrow, coautor de
“The Rough Guide to Reggae”, há, ali, algures entre finais de 60 e meados de
70, um “conjunto de rochas sedimentares com a marca de Bunny Lee”. Falava da
História da música, claro. E, se bem me lembro, para tornar a expressão do seu
pensamento mais viva, andava à cata de figuras de estilo que de certo modo se
equivalessem à linguagem do produtor jamaicano nesse período: em partes iguais
lúcida e elusiva, espessa e espectral, francamente alusiva e profundamente
autorreferencial. No fundo, Barrow tentava retratar um ciclo algo axiomático no
reggae, quando Lee, coadjuvado por
King Tubby e Prince Jammy, e sugando-o até ao tutano, estimulou uma dramática
reconfiguração dos seus constituintes elementares, libertando-o de substâncias espúrias,
reduzindo-lhe as características formais ao mínimo indispensável mas tornando-o
ainda mais paradoxal: uma iteração ao mesmo tempo mais estática e elástica,
mais estóica e instável. Por isso, estranha-se que Bunny Lee tenha demorado
tanto a entrar na esfera de ação da Soul Jazz – daquelas em atividade, porventura
a editora mais empenhada em proceder ao levantamento geológico do reggae nos últimos anos.
Poderá em parte
dever-se este atraso àquela espécie de efeito Robinson Crusoé que por vezes
aflige o principal responsável pelo selo britânico, Stuart Baker, alguém que
nas suas expedições dá mostras de ansiar pelo momento em que numa ilha deserta,
como a personagem de Daniel Defoe, encontra “a pegada recente de um pé
descalço” na areia. Mas, como é óbvio, nesse particular, o espólio de Bunny Lee
foi já mais palmilhado que a Praia da Rocha em agosto, e muito do que de mais
importante criou em laboratório tem sido esta década relançado em sucessivas compilações.
Ainda assim, de maneira espantosa, esta antologia mantém a integridade sem ter
de repetir nenhum dos temas das outras – a Soul Jazz não o diz, mas o material
aqui coligido foi gravado entre 1973 e 1978 e colocado no mercado pelas
chancelas da Attack (Johnny Clarke, Jackie Edwards, Mighty Diamonds, Prince
Jazzbo, Shorty The President), Justice (Jah Stitch) e Third World (Tommy
McCook, Gene Rondo, Jah Youth, Uniques, Winston Wright, Dillinger). Não admira
que Bunny Lee tivesse sido apelidado de “fantasma que assombra os estúdios”! Este
é o seu Boo!
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Uniques
24 de novembro de 2018
Brown Sugar “I’m in Love With a Dreadlocks: 1977-1980” (Soul Jazz, 2018)
Parecia
a celebração de uma vitória civilizacional, uma antecipação mais elegante daquela
rave, em Zion, com que o “Matrix Reloaded” viria a terminar: Caron Wheeler, com
uma espantosa trena no cabelo, e restante trupe Soul II Soul, a cantar e dançar
frente a um cenário composto por baixos-relevos egípcios. “Keep on moving/
Don’t stop like the hands of time/ Click clock, find your own way to stay/ The
time will come one day”, dizia a canção, e, de facto, Wheeler, em 1989, estava
há uma boa década à espera. Senão de uma emancipação qualquer às mãos de uma
figura messiânica, quanto mais não seja, de respeito – pelo menos desde que com
Pauline Catlin e Carol Simms, no trio Brown Sugar, deu expressão no início da
era Thatcher a algo tão problemático quanto “Black is the colour of my skin/
Black is the life that I live/ And I’m so proud to be the colour that God made
me/ And I just got to say/ Black is my colour”, altura, convém não esquecer, em
que neonazis marchavam orgulhosamente pelas ruas de Londres. E é nesse contexto
que se compreende que elas cantassem coisas como ‘Dreaming of Zion’.
Aliás, no
período, as forças políticas mais radicalmente reacionárias estrangulavam de
tal forma a sociedade britânica que Dennis Bovell lançou um single chamado ‘Don’t Call Us
Immigrants’. Não admira que produzindo temas das Brown Sugar tivesse gerado um
tipo de lovers rock de intervenção –
um que, antes de mais, pudesse intervir na própria música do seu tempo. Dito e
feito: “You must treat your lover girl right/ If you wanna make lover’s rock”, ouviu-se
no “London Calling”, dos Clash. Isto, porque atualizando uma mensagem feminista
que, como na época das Crystals, Shirelles e Ronettes, não dispensava inocentes
“shoo-bop/ shoo-bap”, Wheeler, Catlin e Simms não hesitavam igualmente em
mostrar-se convictamente independentes: “You never seem to understand me/ Well,
not the way I want you to/ And if you’ve thought of leaving me/ I suppose that’s
the best thing you could do.” Não foram ‘Typical Girls’ (Slits), mas quase
ninguém deu por isso. Afinal, talvez seja hoje o tal dia prometido.
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Soul Jazz
18 de agosto de 2018
"Black Man’s Pride 2" (Soul Jazz, 2018)
Afinal,
não tinha ficado tudo dito, longe disso, pese embora se prossiga pelo caminho indicado
por Alton Ellis em ‘Black Man’s Pride’ precisamente, há coisa de um ano
incluído no primeiro volume desta série. Aí, escutava-se a sua voz e o que
saltava à memória era o canto do rouxinol em “A Terra Devastada”, de Eliot,
basicamente a pregar no deserto, distante do mundo dos homens, inviolável mas
incompreensível. Trata-se de um sentimento extensível a muitos dos que aqui se
ouvem, a tradução de uma monstruosidade literalmente tatuada na pele (“Oh, eu
não nasci para vencer / Pois sou um homem negro”, lamentava-se Ellis): de que viver
tão longe do sítio de onde se veio é o mesmo que morrer no meio de lugar nenhum.
Daí, quiçá, para cobrir tal distância, esta arregimentação sem precedentes
entre os desapossados de Kingston, parte de uma tribo em tudo periférica – que não
invisível – ao planeamento urbano: os rastafári. Ou seja, regressa a Soul Jazz ao
Studio One como terreno fértil para analisar o impacto da modernização nas
estruturas sociais jamaicanas, espécie de balão-de-ensaio para as experiências
mais dissociativas, através de gente como Ellis, novamente, Horace Andy, Heptones,
Gladiators, Ernest Wilson, Prince Lincoln ou Count Ossie, à frente de um
pelotão de desconhecidos que, não obstante, soube reclamar a sua quota-parte
neste ato de imaginação coletivo: o da cidade enquanto centro cívico, comercial
e cultural. Por enquanto, claro, ali entre os anos 60 e 70, entrincheirada em
bairros de lata, estava longe de o ser – mesmo se o planeta inteiro começava a
mostrar-se sensível às palavras de Bob Marley, Bunny Wailer ou Peter Tosh, cronistas
da desigualdade social com sede nas barracas de Trench Town. Aliás, volta-se à compilação
e percebe-se que, conquanto nada peregrina, a verdadeira questão, aqui, é: como
é que o lugar a partir do qual se lança a semente da transformação no mundo é o
mesmo que resiste mais a qualquer mudança? É essa a tragédia da Jamaica. E a nossa.
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