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4 de outubro de 2019

"Studio One DJ Party" (Soul Jazz, 2019)

Vai chegando a compilação ao fim, com ‘Automatic Clapping’ (1977), e eis que aparece Jah Buzz com as sílabas em curto-circuito, numa bateria verbal capaz de lhe fazer jus ao nome e que curiosamente traz à memória a Gal Costa de ‘Clariô’, quando, nesse mesmo ano, cantava: “Eram nuvens escuras/ Sobre o céu da cidade/ De repente a fagulha/ Raio, eletricidade/ Ô clariô// Eram ideias confusas/ Na cabeça e no peito/ De repente a palavra/ Fogo, canto e desejo/ Ô clariô// Eram passos cansados/ De dançar a mesma dança/ De repente uma nova/ Reggae, luz, esperança/ Ô clariô”. De facto, na época, com a Jamaica em estado de emergência e à beira da guerra civil, só a música serviria de lenitivo. Por outro lado, e quiçá pela mesmíssima razão, era uma variegada fonte de poder que privilegiava não só compositores, produtores e intérpretes, como, também, um par de figuras normalmente condenadas ao anonimato: selectors e toasters, isto é, gente que escolhia temas para passar numa festa ou numa estação de rádio e gente que genericamente improvisava em regime de livre associação por cima de versões instrumentais de temas conhecidos. Pois, é aos segundos que esta antologia se consagra, reunindo sob o patrocínio de Clement Dodd expressivos registos de Prince Jazzbo, Dillinger, Dennis Alcapone, Michigan & Smiley, King Stitt ou Lone Ranger, especialistas em reciclagem que interiorizaram a máxima de Lavoisier: “Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Isto é, expoentes de uma prática que punha discurso padronizado, narrativa cultural e cronologia à beira do colapso, em camadas de significado sujeitas a todo o tipo de contingências e que funcionavam ainda como válvula de escape. Como refere David Toop, em “Rap Attack”, havia sido assim, nos EUA, através da ação de Daddy-O Daylie, Dr. Hep Cat ou Jocko Henderson, radialistas que Dodd sintonizava nas suas expedições a norte em busca de discos obscuros e cujo idioma trouxe de volta para Kinsgton como se de uma especiaria rara se tratasse. O seu sabor nunca se perdeu.

18 de maio de 2019

Style & Fashion: A-Class Topnotch Hi Fi Sounds In Fine Style (Soul Jazz, 2019)

Já David Bowie avisava: “There's a brand new dance/ But I don't know its name/ That people from bad homes/ Do again and again/ It's big and it's bland/ Full of tension and fear/ They do it over there/ But we don't do it here”. Estávamos em 1980, a canção chamava-se ‘Fashion’, e, nesse mesmo ano, com a mesmíssima designação, Chris Lane e John MacGillivray fundaram uma editora que se dedicaria a desmascarar o quanto havia de serôdio nos seus versos. “Em vez de imitar tudo o que vinha da Jamaica tentámos incorporar nesta música a experiência dos miúdos de cor britânicos – as histórias que nos contavam pareciam únicas e intransmissíveis, eram relatadas nos seus próprios termos, no seu próprio tempo, mas não deixavam de ser histórias londrinas”, dizem, agora, em notas de apresentação. Ou seja, contrariamente ao que faziam Island, Trojan, Pama, Frontline ou Greensleeves, a Fashion não dependeria de contratações estrangeiras para fazer soar os alarmes da classe média no Reino Unido: os expoentes do seu catálogo – como General Levy, Papa Face, Smiley Culture, Asher Senator, Laurel & Hardy – eram ingleses de primeira geração.

Aliás, tendo em conta esta lista de nomes, na compilação dá-se pela falta de Smiley Culture – logo dele, cuja história de vida dá mostras de envolver alguma verdade importante sobre este tipo de questões (veio a falecer após uma rusga policial de que resultaram ferimentos graves, em 2011, 27 anos depois da Fashion ter lançado o seu ‘Police Officer’). Já a ausência de nomes consagrados que chegavam da Jamaica e que a editora viria a gravar – Carlton Manning, Alton Ellis, Al Campbell, Horace Andy, Johnnie Clarke, Junior Delgado – se explicará à luz dessa narrativa nativista. Principalmente noutro ponto que a Soul Jazz pretende transmitir: que, graças aos seus singles de ragga e dancehall, a Fashion se provou determinante na cena musical britânica por apanhar boleia do jungle em movimento ascendente – ilustram-no na perfeição os temas de General Levy, Cutty Ranks, Poison Chang, Papa Face e Top Cat aqui incluídos. Mas esse é o fim desta história – o início deu-se com ‘Let’s Dub it Up’, de Dee Sharp, em 1980, e com o embalo daquela onda de mel do lovers rock (também com Carlton Lewis e Keith Douglas) que não mais parou de se espraiar.

19 de abril de 2019

“Bunny Lee: Dreads Enter the Gates With Praise” (Soul Jazz, 2019)

Num “estudo estratigráfico”, dizia-me há coisa de 20 anos Steve Barrow, coautor de “The Rough Guide to Reggae”, há, ali, algures entre finais de 60 e meados de 70, um “conjunto de rochas sedimentares com a marca de Bunny Lee”. Falava da História da música, claro. E, se bem me lembro, para tornar a expressão do seu pensamento mais viva, andava à cata de figuras de estilo que de certo modo se equivalessem à linguagem do produtor jamaicano nesse período: em partes iguais lúcida e elusiva, espessa e espectral, francamente alusiva e profundamente autorreferencial. No fundo, Barrow tentava retratar um ciclo algo axiomático no reggae, quando Lee, coadjuvado por King Tubby e Prince Jammy, e sugando-o até ao tutano, estimulou uma dramática reconfiguração dos seus constituintes elementares, libertando-o de substâncias espúrias, reduzindo-lhe as características formais ao mínimo indispensável mas tornando-o ainda mais paradoxal: uma iteração ao mesmo tempo mais estática e elástica, mais estóica e instável. Por isso, estranha-se que Bunny Lee tenha demorado tanto a entrar na esfera de ação da Soul Jazz – daquelas em atividade, porventura a editora mais empenhada em proceder ao levantamento geológico do reggae nos últimos anos. 

Poderá em parte dever-se este atraso àquela espécie de efeito Robinson Crusoé que por vezes aflige o principal responsável pelo selo britânico, Stuart Baker, alguém que nas suas expedições dá mostras de ansiar pelo momento em que numa ilha deserta, como a personagem de Daniel Defoe, encontra “a pegada recente de um pé descalço” na areia. Mas, como é óbvio, nesse particular, o espólio de Bunny Lee foi já mais palmilhado que a Praia da Rocha em agosto, e muito do que de mais importante criou em laboratório tem sido esta década relançado em sucessivas compilações. Ainda assim, de maneira espantosa, esta antologia mantém a integridade sem ter de repetir nenhum dos temas das outras – a Soul Jazz não o diz, mas o material aqui coligido foi gravado entre 1973 e 1978 e colocado no mercado pelas chancelas da Attack (Johnny Clarke, Jackie Edwards, Mighty Diamonds, Prince Jazzbo, Shorty The President), Justice (Jah Stitch) e Third World (Tommy McCook, Gene Rondo, Jah Youth, Uniques, Winston Wright, Dillinger). Não admira que Bunny Lee tivesse sido apelidado de “fantasma que assombra os estúdios”! Este é o seu Boo!

24 de novembro de 2018

Brown Sugar “I’m in Love With a Dreadlocks: 1977-1980” (Soul Jazz, 2018)

Parecia a celebração de uma vitória civilizacional, uma antecipação mais elegante daquela rave, em Zion, com que o “Matrix Reloaded” viria a terminar: Caron Wheeler, com uma espantosa trena no cabelo, e restante trupe Soul II Soul, a cantar e dançar frente a um cenário composto por baixos-relevos egípcios. “Keep on moving/ Don’t stop like the hands of time/ Click clock, find your own way to stay/ The time will come one day”, dizia a canção, e, de facto, Wheeler, em 1989, estava há uma boa década à espera. Senão de uma emancipação qualquer às mãos de uma figura messiânica, quanto mais não seja, de respeito – pelo menos desde que com Pauline Catlin e Carol Simms, no trio Brown Sugar, deu expressão no início da era Thatcher a algo tão problemático quanto “Black is the colour of my skin/ Black is the life that I live/ And I’m so proud to be the colour that God made me/ And I just got to say/ Black is my colour”, altura, convém não esquecer, em que neonazis marchavam orgulhosamente pelas ruas de Londres. E é nesse contexto que se compreende que elas cantassem coisas como ‘Dreaming of Zion’. 

Aliás, no período, as forças políticas mais radicalmente reacionárias estrangulavam de tal forma a sociedade britânica que Dennis Bovell lançou um single chamado ‘Don’t Call Us Immigrants’. Não admira que produzindo temas das Brown Sugar tivesse gerado um tipo de lovers rock de intervenção – um que, antes de mais, pudesse intervir na própria música do seu tempo. Dito e feito: “You must treat your lover girl right/ If you wanna make lover’s rock”, ouviu-se no “London Calling”, dos Clash. Isto, porque atualizando uma mensagem feminista que, como na época das Crystals, Shirelles e Ronettes, não dispensava inocentes “shoo-bop/ shoo-bap”, Wheeler, Catlin e Simms não hesitavam igualmente em mostrar-se convictamente independentes: “You never seem to understand me/ Well, not the way I want you to/ And if you’ve thought of leaving me/ I suppose that’s the best thing you could do.” Não foram ‘Typical Girls’ (Slits), mas quase ninguém deu por isso. Afinal, talvez seja hoje o tal dia prometido.

18 de agosto de 2018

"Black Man’s Pride 2" (Soul Jazz, 2018)

Afinal, não tinha ficado tudo dito, longe disso, pese embora se prossiga pelo caminho indicado por Alton Ellis em ‘Black Man’s Pride’ precisamente, há coisa de um ano incluído no primeiro volume desta série. Aí, escutava-se a sua voz e o que saltava à memória era o canto do rouxinol em “A Terra Devastada”, de Eliot, basicamente a pregar no deserto, distante do mundo dos homens, inviolável mas incompreensível. Trata-se de um sentimento extensível a muitos dos que aqui se ouvem, a tradução de uma monstruosidade literalmente tatuada na pele (“Oh, eu não nasci para vencer / Pois sou um homem negro”, lamentava-se Ellis): de que viver tão longe do sítio de onde se veio é o mesmo que morrer no meio de lugar nenhum. Daí, quiçá, para cobrir tal distância, esta arregimentação sem precedentes entre os desapossados de Kingston, parte de uma tribo em tudo periférica – que não invisível – ao planeamento urbano: os rastafári. Ou seja, regressa a Soul Jazz ao Studio One como terreno fértil para analisar o impacto da modernização nas estruturas sociais jamaicanas, espécie de balão-de-ensaio para as experiências mais dissociativas, através de gente como Ellis, novamente, Horace Andy, Heptones, Gladiators, Ernest Wilson, Prince Lincoln ou Count Ossie, à frente de um pelotão de desconhecidos que, não obstante, soube reclamar a sua quota-parte neste ato de imaginação coletivo: o da cidade enquanto centro cívico, comercial e cultural. Por enquanto, claro, ali entre os anos 60 e 70, entrincheirada em bairros de lata, estava longe de o ser – mesmo se o planeta inteiro começava a mostrar-se sensível às palavras de Bob Marley, Bunny Wailer ou Peter Tosh, cronistas da desigualdade social com sede nas barracas de Trench Town. Aliás, volta-se à compilação e percebe-se que, conquanto nada peregrina, a verdadeira questão, aqui, é: como é que o lugar a partir do qual se lança a semente da transformação no mundo é o mesmo que resiste mais a qualquer mudança? É essa a tragédia da Jamaica. E a nossa.