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10 de junho de 2017

Debashish Bhattacharya “Hawaii To Calcutta: A Tribute To Tau Moe” (Riverboat, 2017)


Do Havai a Calcutá. Dir-se-ia que estava virado do avesso, o título. Afinal, este “Tribute to Tau Moe” foi gravado em Honolulu, o El Dorado da guitarra slide de colo, com luminárias locais como Jeff Peterson, Benny Chong, Bobby Ingano ou Alan Akaka. Mas percebe-se a intenção, claro. E, quiçá, o receio de o ver confundido com aquele “Calcutta to California” de meados dos anos 90, não possuía ainda Debashish a robustez autoral que hoje se lhe reconhece. Além de que, como é óbvio, o que interessa agora é honrar-se um passado comum, coisa mais difícil do que mostrar lealdade a um presente meramente circunstancial. O pretexto da dedicatória, então, será evocar a odisseia da trupe itinerante de Tau Moe (1908-2004). Mais concretamente, durante a Segunda Guerra Mundial e a meia dúzia de anos imediatamente a seguir, o período em que - impossibilitada de regressar ao Havai em virtude do bombardeamento de Pearl Harbor, e após estágios perfeitamente antológicos no sudeste asiático, pelo médio oriente e na Alemanha nazi - a família assentou arraiais na Índia, onde Tau funcionava como uma espécie de diretor musical para bandas de hotéis, restaurantes e casinos do subcontinente, não obstante as ameaças da força aérea japonesa. Como explica John W. Troutman, no seminal “Kika Kila: How the Hawaiian Steel Guitar Changed the Sound of Modern Music”, das dezenas de países pelos quais passou, “Foi na Índia que Tau Moe se provou uma influência mais duradoura. Aliás, graças à imensa popularidade das suas gravações, às aulas de música havaiana em que ensinava muitas crianças ou às emissões de rádio em que participava, deu claramente origem a uma revolução no vernáculo do país.” Bastará recordar a adoção da guitarra havaiana por Rajat Nandi, Brij Bhushan Kabra, Charanjit Singh ou Van Shipley. Aqui, mais relutante a aceitar o exotismo, carateristicamente meditativo mas nem por isso menos interessado em adornar cada melodia com grinaldas de flores, vem Debashish lembrar esse vínculo inquebrável.

8 de agosto de 2009

Debashish Bhattacharya "O SHAKUNTALA!"

Narrando a história do ukelele em "The Hawaiian Steel Guitar and Its Great Hawaiian Musicians", Lorene Ruymar relembra a braguinha e o cavaquinho nas malas de cartão de emigrantes madeirenses. Noutro momento crítico recupera a figura de Gabriel Davion, um refém de piratas portugueses arrastado da Índia para os mares do sul que tocava a gottuvadhyam (21 cordas dedilhadas com uma mão enquanto a outra faz deslizar pelo braço sem trastes um cilindro). E conta como, em nova vida de insular boémia, Davion, usando então um canivete, aplicou a técnica ao ukelele lançando um estilo que se provou apropriado à invenção da música country por Hollywood. Por fim, fechou-se parte do círculo quando westerns e filmes de aventuras no Pacífico se tornaram populares em Bollywood a tempo de impressionar um jovem Debashish Bhattacharya. Cada vez mais fundamental quando se fala de guitarras na Índia (a par de Vishwa Mohan Bhatt ou Brij Bhushan Kabra), está aqui acompanhado pelo grupo de percussionistas que a seu lado esteve este ano no FMM de Sines, e parte da cálida metáfora do amor reencontrado – reforçando essa ideia circular do tempo – para hipnoticamente combinar tradições desavindas. Se ao menos o Mundo fosse assim tão simples.